domingo, 6 de setembro de 2009

18 - Viagem a Tenerife

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C.V. - Tenerife, Pico Teide

C.V. - Tenerife, palmeiral no Loro Parque

C.V. - Tenerife, paisagem árida na base do Pico Teide
Em Tenerife, comemorando os 25º aniversário de casamento.
Por: Carlos Vinhal

Depois daquela romagem de saudade à Ilha da Madeira em1985, durante uns anos não houve férias para ninguém. Provavelmente demos umas voltas pelo nosso lindo rectângulo, do qual tenho algumas fotos, tão boas que nem parecem tiradas por mim. Qualquer dia mostro-as.
O tempo foi passando e sem darmos conta, íamos completar 25 anos de casados. Estávamos então em 1997.
Para festejar, resolvemos ir ao “estrangeiro”. O mais “estrangeiro” a que tínhamos ido, foi ali em Vilar Formoso ao passarmos para o outro lado do meco que assinala a fronteira entre Portugal e Espanha.
Tinham-nos dito que as Ilhas Canárias eram muito bonitas, quase tanto como a Madeira e os Açores, pelo que resolvemos ir dar uma escapadela.
Fui à Agência de Viagens, não sei viajar doutra maneira, marquei o Hotel, em Tenerife, em função das estrelas dele e do meu dinheiro, respectiva passagem de avião, e lá fomos numa altura que incluía o dia de aniversário do nosso casamento e dos anos da minha mulher. Por acaso ela nasceu no dia em que havia de casar 24 anos mais tarde. Coincidências.
Viagem muito agradável até que o Comandante da aeronave anunciou a chegada ao nosso destino. Vou tentar descrever o que vi, ou melhor, não vi.
Pela janela do avião vislumbrava-se uma área enorme de não sei quantos quilómetros (ou milhas) de nuvens, e de repente no meio das ditas, o pico de um monte a furá-las.
O avião continuava a perder altitude para fazer a aproximação à pista e eu a tentar ver os hotéis, piscinas, casas chiques, praias de areia dourada e tudo o mais que eu julgava ir encontrar. Mas nada, só paisagem lunar. De repente no meio do deserto viu-se um aeroporto. Bem ao sul da Ilha, tão ao sul que quase o faziam no mar. Pousámos no meio do deserto, literalmente, esperando que estivessem à nossa espera. Convém dizer que no nordeste da ilha há outro aeroporto próximo da capital, Santa Cruz de Tenerife.
Estávamos já no interior do Aeroporto Rainha Sofia, assim se chamava este, quando alguém exibia um cartaz com o meu nome.
O ar estava sufocante, mesmo não havendo sol. Estava completamente desiludido.
Metidos num autocarro lá fomos a caminho de... nem eu sabia de quê.
Andados uns quilómetros, começou a aparecer a “civilização”. Quem havia de dizer que debaixo daquelas nuvens todas, se iria encontrar aquela aglomeração enorme de hotéis para todos os gostos e carteiras. Gente de todas as nacionalidades e cores, vestidas, ou despidas, da maneira mais adaptada ao clima tórrido que se fazia sentir. O nosso destino era a Praia das Américas e o Hotel Las Palmeras.
O Hotel tinha uns jardins muito bonitos com vegetação predominantemente tropical.
A Praia das Américas é uma zona projectada para o turismo. Toda a noite tem movimento. As esplanadas dos cafés e hotéis têm música a toda a hora. Juro que “vi e ouvi” os Platters a cantar o “Only You”. Também “vi e ouvi” os Beatles ao vivo e a cores, ali mesmo à mão. Pintores mais ou menos audazes pintam a spray, a carvão e a óleo. Charretes puxadas a cavalo levam turistas a passear por umas quantas Pesetas (ainda não havia chegado a era do Euro), para nós portugueses muitas.
Estão disponíveis autocarros de graça para levar os turistas aos pontos de interesse, devidamente publicitados. Cada autocarro tinha o seu destino. Estou a lembrar-me de um horto onde fomos só com cactos, onde também se podia andar de camelo.
Os hotéis situados à beira-mar têm saídas nas traseiras que dão directamente para um passeio em cimento que corre ao longo da praia de... godo. Areia, nem vê-la naquela zona. Este passeio era pejado de pequenos restaurantes e vendedores ambulantes, africanos a maioria, pelo que dava para se dar umas boas caminhadas, comprar umas bugigangas ou comer qualquer coisa.
Uma noite fomos ver um espectáculo à Pirâmide de Arona com a actuação do Gran Ballet Clássico Espanhol, coreografado por Carmen Mota. Inesquecível.
Nesta sala de espectáculos cabiam largos milhares de pessoas e estava praticamente esgotada.
Outra noite, coincidente com o dia de aniversário do nosso casamento, fomos ao Casino ver um espectáculo de variedades, com direito a champanhe tudo.
Nas outras noites, quando não havia programa, passeava-se e ouvia-se música ao longo das ruas.
Juntámo-nos com uma senhora que andava acompanhada da filha e do namorado, alugámos um carro e assim pudemos dar umas voltas pela Ilha.
Visitámos o Parque das Águias, onde presenciámos os voos das ditas que iam para tão longe que dava a ideia de que tinham ido embora para sempre, mas ao fim de algum tempo regressavam, em voo picado com uma precisão impressionante, à mão do seu domador. A seguir, vimos um elefante a fazer habilidades no meio da multidão, parte de que gostei menos, porque o paquiderme podia estar mal disposto naquele dia e atacar alguém.
Seguimos depois para o Loro Parque, espécie de Jardim Zoológico, onde se podia ver espectáculos de ilusionismo, golfinhos, papagaios amestrados, uma flora fabulosa e animais, ditos selvagens, de toda a espécie.
No Parque tinha ainda um aquário que era uma maravilha, com tubarões que se passeavam num enorme tanque de água, em vidro que fazia um túnel por cima dos visitantes. Perdi-me com a máquina de filmar a registar aqueles movimentos vagarosos e elegantes daqueles bichinhos, mesmo, mesmo por baixo deles. Pudemos ainda ver outros peixes de menor porte em diversos aquários mais pequenos.
Um dia tentámos ir ao cimo do famoso Pico Teide, o tal que consegue furar as nuvens, mas chegámos tão tarde e a fila para o teleférico era tão grande, que nos limitámos a olhá-lo cá de baixo e continuar viagem.
Seguimos então para Santa Cruz de Tenerife, uma cidade típica da beira-mar, ventosa e cosmopolita. Lembro-me que na altura jogava no Clube de Futebol local, o Domingos Paciência, meu vizinho e actual treinador do Braga FC.
Outro dia bem ocupado, foi um que passámos a navegar ao largo da Ilha, a bordo de um navio com o casco em fibra de vidro, com almoço e lanche a bordo. Pude ver e filmar os golfinhos que nos acompanhavam, que brincando passavam de estibordo para bombordo, e vice-versa, por baixo do navio.
O que é bom, acaba sempre, e lá chegou o dia do fim das férias e de voltar à realidade. Regresso ao Porto e ao trabalho.
Um dia destes trago mais uma perigosa aventura, acontecida em mais uma viagem organizada a algures onde haja um hotel com quarto e banho privativo.

CV



sábado, 5 de setembro de 2009

17 - Alma de Viajante

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Lago Baikal: wwwrussianspy.org


Catedral de Kazan, S. Petersburgo: wwwwikimedia.org


Sibéria: www20minutos.es


Há cerca de três meses decidi contratar uma empregada à hora para fazer umas limpezas lá em casa. Uma prospecção rápida, mostrou que apesar da tão propalada crise e consequente desemprego, não era fácil encontrar mão de obra nacional disponível. Virei-me então para a Mariska, uma bela ucraniana que trabalha no café onde costumo tomar a bica da manhã e perguntei-lhe se conhecia alguma amiga (assim como tu …!), fluente em português, disposta a assumir o lugar. Não prometeu nada, mas ofereceu-se para indagar. Esperei três ou quatro semanas até que resolvi questionar a Mariska quanto à falta de notícias. Disse-me que a espera se devia ao facto de andar à procura de alguém que fosse da sua inteira confiança. Por acaso ou talvez não, nessa mesma semana recebo uma chamada, mais ou menos nestes termos:
- Bom dia …olha senhor J. fala Svetlana, mulher para trabalhar horas nas limpezas.
Como tenho uma colega russa chamada Svetlana, perguntei-lhe se era realmente ucraniana.
- Não, eu sou de Rússia! Pode chamar Svetlana ou Svêta que é nome mais pequenino (diminutivo).
- Então e onde é que estás? Tens transporte? Sabes onde eu moro?
- Sim, tem carro mas não conheço casa. Estou com Mariska, no café.
- Muito bem, aguarda um momento que eu vou ter contigo.
Fui ao seu encontro. Ao chegar, apercebi-me que havia várias mulheres na cavaqueira, de pé, junto ao balcão. Falavam uma língua “lá daqueles lados” e riam muito. Algumas eram lindíssimas como são quase todas as mulheres do Leste, e estavam todas muito bem “arranjadas”. Rezei baixinho para que a minha futura empregada fosse uma delas!
Aproximei-me e perguntei:
- Bom dia, qual das senhoras é a Svetlana?
A risota acabou, e lá do meio do grupinho, sai-me um pisco … um pinto molhado!
- Sou eu, diz uma rapariguinha com o dedito indicador no ar.
Apresentei-me e, pelos olhares, percebi que aquelas malinas estavam num descomunal gozo com a pobre cachopa. A causa da boa disposição das colegas prendia-se sem dúvida com insinuações maldosas sobre a futura convivência da Svêta com o patrão.
A minha empregada tem o corpo de uma adolescente. É uma mulher de trinta e tal, perto de 40anos, de estatura média a puxar para o franzino. Tem cabelo louro, com um corte pelo pescoço e uma franja espetada para a frente que ela compõe com um sopro. Os olhos são de um azul tão intenso, que eu suspeito serem reflexos das águas do lago Baikal.
É casada com um motorista de longo curso e vive há oito anos em Portugal. Tem dois filhos, a mais velha com oito anos, sofre de paralisia cerebral e o mais novo de quatro, nasceu cá. Profissionalmente, não lhe reconheço grande virtuosismo na área das limpezas, o que me despertou uma certa curiosidade quanto à sua profissão na Rússia. Esquivou-se delicadamente à resposta esclarecendo que não veio para Portugal por causa do dinheiro. Disseram-lhe que encontraria entre nós condições para uma melhor qualidade de vida do seu filho deficiente (frequenta uma Cerci), por isso não hesitou em abandonar a sua cidade natal, situada a trezentos quilómetros a nordeste de Moscovo, a caminho da Sibéria.
Mas a Svêta é também uma personalidade muito curiosa. Nem sempre aparece à hora combinada. Se se atrasa, já conheço o refrão:
- Olha senhor J., noite de ontem muito bom …calor. Nós gosta muito de dar voltinha. Meninos brinca, brinca … Manhã de hoje muuuuiinto sono!
Chega de malita (carteira) na mão, vestida de calça de ganga, T shirt e chinelo de enfiar o dedo. Arruma o seu Audi no jardim e muda de roupa. Uns trinta segundos depois, aparece-me de calças de ganga, T shirt e chinelos de enfiar o dedo! Tudo um pouco mais usado, é certo. Acompanho-a aos “pontos nevrálgicos” da habitação a requererem os seus cuidados e, sumariamente descrimino-lhe as tarefas do dia. A partir daí, a Svêta eclipsa-se! Desloca-se pelos três pisos da casa sem fazer o menor ruído. Não fala, apenas sussurra, e raramente se deixa ver. Quando tal acontece, vislumbro-a ao fundo de um corredor ou no limiar de uma porta com dois ou três baldes numa mão, um feixe de vassouras debaixo do braço e uma resma de panos do pó ao ombro. Não empeça, não colide, não toca em nada, e os seus passos não se ouvem. Parece uma sombra, só o desgraçado do aspirador a denuncia!
Nas raras vezes em que nos cruzamos, observo-lhe o rosto afogueado e a franjita da testa transpirada. Faz-me lembrar a conhecida figurinha tradicional da Rússia, a matrioska. Quando precisa da minha atenção para qualquer assunto, aborda-me silenciosa e invisível com um toque no ombro.
A semana passada, senti um desses toques subtis. Virei-me e na minha frente, a Svêta, com ar muito sério, diz-me num quase murmúrio:
- Olha senhor J., (o olha senhor, inicia todas as frases), dizer que mês de Setembro, férias, não trabalha.
- OK, Svêta. Vais então até à Rússia … e já têm data marcada? Vão de avião certamente. …
- Nããão. Vamos na carro!
- Como assim? Então tu não sabes que já existem voos directos para a Rússia?
Aí, um sorriso franco iluminou-lhe o rosto. Com uma expressão doce e paciente de quem tenta ensinar qualquer coisa a um burro, replicou:
- Sim, sabe muito tempo. Mas viagem na carro, três dias … férias muito bom. Umas vezes vai por Alemania, outras por Áustria ou República Checa, já foi também por Polónia e Eslováquia … Três dias (faz o sinal com os três dedos da mão), muito bom!
Gosta muito ver paisagem, fala com pessoas, prova comida deles …muito bom … muito bom!

Tem alma de viajante, minha empregada russa!
Prometeu-me que nas próximas férias eu poderia acompanhar a família. Aguardo ansiosamente o seu regresso. E o verão de 2010.

PS: Pouco depois de ter escrito este texto, falei com uma filha a quem a Svêta também presta alguns serviços. Disse-me que a nossa empregada é licenciada em economia e o marido é engenheiro de rodovias.

Juan



sexta-feira, 4 de setembro de 2009

16 - A minha primeira Viagem - II

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C.V. - "Os meus pais e eu"

C.V. - Igreja matriz de Azurara

Não tenho por hábito comentar os posts de outros participantes. Mas, para dar força a uma ideia que explicitei anteriormente em que convidava os visitantes a descobrirem o Homem através dos seus escritos, esta pequena história merece uma referência especial. Por trás de uma aparente singeleza, o seu autor consegue em dois ou três parágrafos, mostrar como uma família pode ser pobre em recursos materiais e abundar em felicidade. Estão de parabéns os pais se ainda forem vivos, a esposa e os filhos do Carlos por poderem contar com o seu amor e carinho.
O editor, Juan

A minha primeira viagem

Por: Calos Vinhal


Teria pouco mais que 8 meses de gestação e ainda estava no quentinho da barriguinha da minha mãe.

O meu pai, ainda solteiro, havia “emigrado” em Dezembro de 1945 de Azurara, freguesia do concelho de Vila do Conde para Matosinhos em busca de uma vida melhor. Um familiar da minha mãe tinha-lhe arranjado um modestíssimo emprego como funcionário público na “Junta”, assim era conhecida na época a entidade que administrava os Portos do Douro e Leixões, mas muito bom para quem não tinha nenhum meio de subsistência. A minha mãe, sua namorada, ficou em Azurara à espera de melhores dias para se poderem casar.

Mais tarde, em 1947, os meus pais casaram e ficaram a viver num quarto, em Matosinhos que o meu pai já ocupava em solteiro, propriedade de um senhor que eu ainda conheci, o senhor Alexandre, também funcionário da Junta, onde eu terei sido concebido. Vida difícil, a deles, como a de quase toda a gente naquele tempo, estávamos (estavam eles) no pós guerra. Havia imensa falta de emprego, de géneros alimentícios, as pessoas, em virtude das privações, eram doentes e não tinham dinheiro para se tratarem. O meu pai ganhava pouco e a minha mãe não tinha emprego, como a esmagadora maioria das mulheres naquele tempo, destinadas à função de donas de casas. Imagine-se as dificuldades por que passavam, ainda por cima longe da família,

Apesar de tudo, fui-me desenvolvendo de acordo com as leis da natureza, até que chegou a data em que eu tinha de conhecer o mundo. Como naquele tempo não havia Maternidades, nem para fechar, as crianças nasciam todas em casa, das avós preferencialmente, que pela prática, tinham adquirido conhecimentos quase empíricos que as habilitava a assistir aos partos das mulheres mais novas, filhas, noras ou simplesmente vizinhas. A ideia era eu nascer na casa da minha avó materna, em Azurara, sendo a função de parteira destinada à minha avó paterna que tinha sido mãe já 11 vezes.

Matosinhos e Azurara distam entre si um pouco menos de 25 quilómetros, distância que hoje se faz em pouco mais de 20 minutos, mas naquele tempo era preciso apanhar um lento comboio em Matosinhos, ir até à Senhora da Hora, sair deste e esperar por outro, um pouco menos lento, que vindo do Porto, Trindade, ia para a Póvoa de Varzim. A estação de Azurara ficava duas paragens antes do fim da linha.
Da estação do caminho de ferro até casa da minha avó ainda era um bom bocado a pé, pelo que imagino hoje a dificuldade que a minha mãe terá tido para percorrer a distância já que estava “no fim do tempo”.

Nasci nos fins de Março de 1948, e como não aparentava grande saúde, fui baptizado logo a 12 de Abril, não fosse morrer e não me serem franqueadas as Portas do Paraíso. Não esqueçamos que naquele tempo, quem morresse antes do baptismo, ia para uma coisa chamado “Limbo” (nem Inferno, nem Purgatório) à espera de deferimento para aceder ao Céu. Felizmente que hoje, graças a um “Decreto” do Papa Bento XVI, qualquer criança que morra sem ter sido baptizada, vai direitinha para o Paraíso. Desculpem este à parte.

Nesse mesmo fim de semana regressámos já os três, nos mesmos comboios, mas em sentido inverso, naquela que seria a minha primeira viagem, aconchegadinho ao peito da minha mãe, para enfrentar a vida e contar, ou descontar, os anos que conseguimos somar, ou subtrair.

OBS:- Na foto que envio da Igreja onde fui baptizado, onde hoje é a escadaria, ficava a casa onde nasci e de onde saiu a minha mãe para casar com o meu pai.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

15 - A minha primeira Viagem - I

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Arqº pessoal: O meu passaporte "novo" já me permitiu dar umas voltinhas pela Europa.

Arqº pessoal: Face do doc. que prorrogava a autorização de estadia.
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Dans ma valise en carton
J’ai mis ma vie en chanson
Un bout de châle tout fleuri
Un bout de ciel et d’accent du pays
...................................
Linda de Suza - La valise en carton

Acabava de completar 18 anos. Terminado o liceu, tinha decidido com o acordo dos pais fazer um interregno visando angariar fundos para prosseguimento dos estudos. Muito cedo, tinha ingressado no mundo do trabalho e das responsabilidades, coisa bastante comum na minha geração. Aos cinco ou seis anos já ajudava a tratar dos gados e fazia pequenos trabalhos no campo. O trabalho do menino é pouco, mas quem o desperdiça é louco, ouvia dizer à minha mãe. Após concluir a quarta classe, sentia-me “um homem” e era tratado como tal, não só pelo núcleo familiar restrito, mas por toda a vizinhança. A dureza do trabalho foi aumentando com a idade até atingir os limites do insuportável. Os meus pais geriam uma pequena tasca á moda antiga, onde se vendiam também mercearias, tractol para os motores de rega e camisas de nailo (nylon). Possuíam ainda uma exploração leiteira que causou grande sensação e curiosidade em toda a região, dado que por ali nunca se tinham visto vacas malhadas a preto e branco (turinas). Naquele tempo, a polivalência já não era novidade nenhuma para mim. Empregado de mesa, cozinheiro, merceeiro, trabalhador rural e vendedor ambulante, eram actividades a que me dedicava com toda a naturalidade e em simultâneo. Nas poucas horas destinadas ao repouso, afincava-me no mister de estudante aplicado. Por isso, emigrar e ir à procura de um trabalho melhor remunerado que aquele que eu tinha, não era apenas uma aventura, era um desígnio bem calculado.
O destino era França. O meu pai já lá tinha feito um curto estágio no ano anterior e trouxera boas referências. Os franceses eram gente boa, a simpatia dos patrões era inexcedível e ia ao ponto de cumprimentar os seus trabalhadores com um aperto de mão, e acima de tudo ganhava-se bem. No batimã (bâtiment = construção), a maçonaria (maçonnerie = pedreiros), é que estava a dar. Um obrieiro (ouvrier = trabalhador) era embochado (embaucher = admitir, contratar) ao preço três francos e meio / hora, - cerca de oito cêntimos de euro! -, mas podia fazer uma boa folha de peia (feuille de paye = folha de pagamento, salário), se o toliê (taulier = patrão) desse horas extraordinárias ou trabalho à tacha (à la tâche = de empreitada). Um excelente ordenado rondava as cento e vinte mil balas (balles = fracos velhos = cêntimos de franco), cerca de seis contos mensais, dez vezes o salário de um trabalhador em Portugal! Isto para os maçons (maçon = pedreiro), porque os manobras (manoeuvre = servente) não passavam das sessenta a setenta mil balas por mês.
Era com isto que eu sonhava acordado numa manhã gélida de Janeiro de 1966, quando recebi ordens para ir à Junta da Emigração situada na rua da Junqueira em Lisboa, levantar o meu passaporte, “válido para França via Espanha, exclusivamente”. Ainda sinto uma certa emoção ao recordar aquele caderninho de capa azul com a minha fotografia no interior. Tenha-se em conta que, viajar com passaporte, não era para todos. Eram necessários conhecimentos e havia que distribuir alvíssaras em presuntos e garrafões de azeite, por certas pessoas bem colocadas. Já dizia o meu pai: Quem não tem padrinhos, morre mouro! E quem não tinha padrinhos, recorria ao passaporte de lapin (passaporte de coelho = atravessar a fronteira clandestinamente ou a salto).
Chegou o dia, finalmente. Não recordo a data com precisão e para confirmá-la já não tenho o meu velho passaporte que entreguei no Consulado Geral em Paris, rua Édouard Fournier, 16ème arrondissement (16º Bairro), em troca de outro novo. Sei que foi no princípio de Fevereiro, dois ou três dias após o falecimento da minha avó paterna. Comigo viajava o meu pai e um irmão dele, o tio António que, embora mais novo, era já um veterano da França. Aos seus bons ofícios devíamos as contratas (contratos de trabalho) que nos permitiam emigrar legalmente. A azáfama dos preparativos, ao estilo dos filmes italianos de então, seria hilariante nos dias de hoje mas levada muito a sério naquela época. Na bagagem seguiam poucas "malas de cartão", mas muitos quilos de chouriço, nacos de presunto e toucinho, não sei quantos salamins de feijão, alqueires de azeite e muita aguardente bagaceira para combater o frio, já que as roupas eram poucas e de fraca qualidade. Tudo isto envolvia uma certa dose de astúcia para que as autoridades não procedessem ao arresto das mercadorias em Andaia (Hendaye). Por exemplo, as vasilhas de dez litros onde era transportada a aguardente à candonga, eram exactamente iguais àquelas onde seguia o azeite, produto de circulação livre e legal. Para que os funcionários da alfândega não dessem com o gato, o latoeiro e artífice da marosca, soldava em comunicação directa com o bujon (bouchon = tampa, rolha), um tubo que ia até ao fundo, tubo esse que era cheio com azeite e rolhado. Depois, virava-se a vasilha ao contrário e enchia-se com aguardente e só então o fundo era selado. Se os fiscais metiam o nariz e mandavam retirar o bujon … dava-se o milagre, saía azeitinho, do bom! Quanto às garrafas de vinho do Porto e enchidos, em caso de fiscalização, uma parte era consensualmente apreendida a favor dos guardas e respectivas famílias para que a parte restante pudesse seguir até Paris.
O largo da estação em Pombal ia ficando composto com dezenas de homens que, de trouxa aviada, arribavam nas camionetas da carreira, taxis ou até em carroças puxadas por muar. Vinham cedo para não perderem o Sud Express que chegava por volta das onze da manhã. Alguns faziam-se acompanhar por familiares que queriam despedir-se e ao mesmo tempo davam um cu de mão (coup de main = ajuda), fazendo passar a traquitana através da janela, directamente do cais de embarque para o compartimento do comboio onde o franciú d’Alcochete tinha lugar reservado. Os atrasos eram habituais e a espera tornava-se exasperante. O frio obrigava a bater palmas e, só a custo, um estranho sapateado permitia manter os pés mornos. Para os mais inconformados com a meteorologia ou de coração mole, encontrava-se ali à mão a adega Valadas com os antídotos apropriados. Um tintol ou branquinho, tirados directamente do casco e a fazer camarinhas no copo, mais um jaquinzinho frito ou uma bela patanisca de bacalhau a servir de lastro, e ficava um homem como o aço!
Com uma infernal chiadeira de freios precedida de um silvo que a mim me pareceu mais um uivo sinistro, o comboio lá se imobilizou na linha. Rapidamente colocámos as bagagens nas prateleiras por cima dos assentos e instalámo-nos. A jeito, entre pernas, ficou apenas o cesto do farnel, a botelha (bouteille = garrafa) da água e uma bota (recipiente em couro, muito usado em Espanha para transportar vinho que se esguicha directamente para a boca).
Uma espécie de coice seguido de um solavanco da carruagem, e nem foi necessário ouvir o apito do bandeirinha para eu perceber que tinha começado a minha primeira grande viagem pela Europa, que iria durar cerca de três anos.
O tempo escoava-se lentamente, os ponteiros do relógio pareciam ter adormecido. De vez em quando sacudia o pulso e encostava o meu longines ao ouvido para lhe sentir o coração a bater. Pampilhosa, Celorico, Guarda. A contemplação da paisagem rude e austera, não aliviava o peso do tédio que aparentemente se apoderara da composição. A vozearia e risadas das primeiras horas, dera lugar a um silêncio modorrento entrecortado de sussurros.
Três da tarde, os meus companheiros de viagem, semi-anestesiados pelo santo líquor da bota, descalços e com os pés chulezentos apoiados no banco da frente, dormem que nem justos. Desperto-os com uns abanões, pois estamos a aproximar-nos de Vilar Formoso, terra de contrabandistas, despachantes, pides e guardas fiscais. Mal o comboio estaca, uma chusma deles toma de assalto as carruagens, atentos a qualquer comprometedora minudência que só faros bem treinados conseguem detectar no rosto ansioso de quem não está bem com a lei. Verificados os passaportes e os cantos esconsos onde algum clandestino pudesse ter-se aninhado, o comboio recebe autorização para prosseguir a marcha. Aproveitamos então para comer uma bucha e durante o resto da tarde, de nariz encostado ao vidro da janela observo a paisagem espanhola bem diferente da nossa, que agora e por comparação já me parece mais bonita. Por aqui é tudo muito plano (meseta ibérica), vêm-se apenas chaparros, gado de pelagem negra e algum verde à espera do verão que o há-de converter em restolho calcinado pelo sol. Vejo também, ao longe, pequenos e tristes lugarejos de aspecto lúgubre, que parecem ter sido construídos com materiais retirados de alguma escombreira. São habitações de aldeãos, na sua maioria trabalhadores de grandes fincas (herdades), transformadas em coutos de caça.
O primeiro dia de viagem chegava ao fim com um magnífico pôr do sol, lá para os lados da praia do Osso da Baleia. Em Fevereiro, a noite cai rapidamente e à chegada a Miranda del Ebro já não se via um palmo à frente do nariz. A estação estava às escuras e os poucos sinais de vida na proximidade, chegavam-nos através dos reflexos bruxuleantes das lanternas dos ferroviários que procediam a manobras e verificações de rotina. E os sempre omnipresentes trancos e solavancos do ferro contra ferro. Acomodei-me para passar pelas brasas, na esperança de que ao acordar, o Mundo se apresentasse mais risonho. Mas não, o dia amanheceu triste em Irum, na fronteira franco-espanhola. Uma borranha fria, tipo molha tolos a toldava-me a visão e o humor. Feita a mudança de comboio devido à diferença de bitolas, entrámos em território francês (Hendaye). Não tenho explicação para o facto, mas só ali tive a sensação de que estava realmente no “estrangeiro”.
Entre bocejos, e uns pedaços de broa com azeitonas, fui lendo as tabuletas; Bordeaux, Angoulême, Poitiers, Tours, Orléans …Eram seis da tarde quando chegámos a Paris-Austerlitz. Achei estranho, pois ouvia-se falar português por todo o lado, tantos eram os que chegavam quantos os que os aguardavam. Falsos taxistas portugueses e outros transportadores igualmente candongueiros, esperavam a chegada do comboio. Um portuga velhaco, sacou-nos uma fortuna para nos conduzir com armas e bagagens até uma pequena localidade na banlieu parisienne (arredores de Paris), chamada Villecresnes. Aí, à beira de um caminhito de terra batida e cu tapado chamado Chemim de Jolivettes, havia uma barraquinha tipo bidonville, construída com tábuas surripiadas das obras e coberta a papel goudronné (papel embebido em alcatrão), habitada por quatro chavais da minha idade. Mais modesta, não podia ser. A cama, uma tarimba de madeira com cerca de um metro de altura, suportava um colchão recuperado da poubelle (lixo, vazadouro) suficientemente largo para acomodar cinco homens deitados a par, todos machos! Os lençóis, dois cobertores de cor indefinida, já estavam ao serviço havia várias épocas encontrando-se praticamente impermeabilizados, capazes de se manterem de pé. Entre o lençol de cima e as duas mantas retalheiras que nos cobriam, várias camadas de papel obtido a partir de sacos de cimento devidamente espoados. E por cima de nós, o habitual chinfrim das ratazanas que num interminável ballet procuravam, também elas, algum calor para poderem cochilar um pouco. Lá fora só estavam dezassete graus abaixo de zero! Eram seres inofensivos e uma vez ultrapassada a repulsa inicial, conseguíamos conviver pacificamente, com a condição de ao alcance dos seus dentes não ficarem botas de cabedal ou baguetes de pão. Para evitar que lhes servissem de repasto durante a noite, a estratégia consistia em deixar o calçado e as sobras de comida suspensas do tecto, através de cordéis.
Quanto ao pai e tio, associados na liga dos okupas, tomaram conta de uma roulotte que se encontrava nas imediações e aí estabeleceram residência durante uns meses.
Mesmo a terminar quero deixar esta reflexão que, além der ser estritamente pessoal, não pretende servir de lição para ninguém.
1º À procura da felicidade, distraímo-nos correndo atrás de canas de foguete. E no entanto, a felicidade pode estar aí ao lado e é grátis. Apesar das condições deploráveis acima descritas, aquele foi um dos lugares da Terra onde fui mais intensamente feliz.
2º No nosso quotidiano de cidadãos de um país desenvolvido, a amizade, a fraternidade e a solidariedade, são bonitas palavras de circunstância que se usam em momentos escolhidos. Lá, onde até a vida pouco vale, tornam-se palpáveis, tão reais e consistentes como o pão que se come ou a água que nos mata a sede. E valem mais do que todos os tesouros do mundo juntos.
3º O diabo nunca é tão negro como o pintam e quando a coisa está mesmo preta, lembro-me sempre que a minha situação é melhor do que a de outros. Enquanto pernoitava com as ratazanas de Paris às quais emprestava um pouco do meu calor, era mil vezes mais afortunado do que muitos dos meus companheiros de diáspora que, em pequenos bandos de autênticos mortos-vivos atraídos pelas torres das gruas, deambulavam pela região à procura de trabalho. Escorraçados, sem roupa, sem comida, sem um tecto, alimentavam-se com lixo e dormiam dentro de manilhas de cimento sobre sacos de papel. “Lá fora”, repito, estavam dezassete graus negativos! Purgatórios destes podiam prolongar-se por semanas ou meses até uma alma misericordiosa os conduzir ao consulado para serem repatriados. As suas conquistas por terras gaulesas resumiam-se então a uma merenda dentro de um saco plástico, quinhentos escudos em dinheiro e um bilhete de regresso a Portugal, sem honra nem glória. Estes sim, tiveram uma aproximação imediata ao inferno.
A memória humana é curta e já ninguém se lembra das notícias dos jornais dos anos sessenta que davam conta do aparecimento ao longo da raia, ou nos carreiros dos Pirinéus, de corpos não identificáveis por se encontrarem “em avançado estado de decomposição”. Muitos compatriotas nossos embarcaram na senda da emigração e ficaram pelo caminho. Entre um a dois meses de esgotantes marchas a pé, de cabana de pastor em cabana de pastor, sempre de noite para não serem detectados pela polícia, alimentados com uma golada de Pedro Domecq e um pedaço de chocolate, expostos aos rigores do Inverno em climas de montanha, muitos sucumbiam ou eram simplesmente “deixados para trás”. Para não falar dos passadores desonestos, que depois de tosquiarem os seus carneiros (nome dado aos emigrantes clandestinos), espoliando-os de todos os valores que traziam consigo, os abandonavam como certos criminosos abandonam o seu animal. Outros foram vítimas dos carniceiros de forças da autoridade, nacionais e do outro lado, que não cito por respeito às instituições actuais. Atiravam a matar sobre quem tentava dar o salto, esquivando-se ao pagamento da respectiva “taxa”. Foram às dezenas, os que assim desapareceram, entre ele o filho do meu amigo Francisco G. de Alfaiates, abatido cobardemente quando tinha 25 anos. E muito mais teria para dizer, mas fica para um futuro post.
4º A primeira viagem foi também a mais importante da minha vida. A experiência da emigração fez de mim, sem qualquer dúvida, a pessoa que tenho sido. Aprecio a boa conta em que me têm amigos e familiares, mas acima de tudo, sinto-me muito bem na minha pele. Foi também uma excelente vacina contra erupções de natureza racista ou xenófoba e acredito, sinceramente, que aqueles que nos procuram com o intuito de fazer do nosso país a sua segunda Pátria, são da família. Porque Portugal, foi e será sempre uma grande família de emigrantes. Acarinhemo-los e exijamos às autoridades que façam o impossível para que eles e os filhos dos seus filhos nos adoptem. Tenho dito.

Juan

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

14 - Caminhos de Santiago, 2006 - II

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P.S. - Com o belga Hubert, junto à catedral.

P.S. - Num trilho com a Maria.

P.S. - À mesa em Palas de Rei

P.S. - Isto é que é trabalho!
Por: Paulo Santiago

1 de Dezembro de 2006. Como era Feriado e Sexta-feira,"cravei" a minha mulher para me dar uma boleia até Portomarin, local onde parara em Agosto...Ela regressou no Sábado. À mesma hora, metia-me a caminho; chovia, quase torrencialmente e assim iria continuar durante os quatro dias de percurso. Na mochila, acrescentei, dois polares e um leve casaco impermeável.
As etapas saindo de Portomarin, para os interessados, são:
-Portomarin-Palas de Rei (24,30km)
-Palas de Rei-Arzúa (29,52 km)
-Arzúa-Pedrouzo (19,20 km)
-Pedrouzo-Santiago de Compostela (19,98 km)
No Inverno encontram-se menos pessoas, o que se torna numa vantagem. O convívio é mais fácil quando há menos gente e as noites, mais longas, são propícias à cavaqueira, bebendo uns copos (vinho, cerveja ou água) à mesa de uma tasca. Durante o dia, cada um segue ao seu ritmo. Sempre debaixo de chuva, cheguei a Palas de Rei quase ao escurecer. O Albergue, bem grande, estava ocupado por uma dúzia de pessoas. Apresentações feitas e, após um banho, mudar de roupa, lá fomos para a tasca.
Um intervalo, para dizer que hoje não lavei roupa, apenas por preguiça, havia tanque e uma máquina de secar que funcionava metendo uma moeda. Devo dizer também, substituíra os calções por calças, o que não foi boa escolha. Em saídas mais recentes, no Inverno, e a chover, os calções continuam a ser a melhor opção. Mais uma dica, quando chove e as botas ficam encharcadas, para as secar nada melhor que atafulhá-las com jornais, na manhã seguinte estão óptimas, e qualquer tasca ou café tem por lá uns jornais velhos.
Voltemos à mesa, vejamos quem se encontrava por lá. Um Português, moi-même, dois Belgas, duas jovens e belas Canadianas do Quebec, uma Alemã, a Maria, um Americano, uma Brasileira, estudante em Madrid, dois Espanhóis, sendo um Catalão e um Basco, por fim dois Franceses que formavam...um casal homo...interessante, vestiam de igual, incluindo pijamas e roupa interior (como sei? simples...dormimos numa camarata, vê-se tudo)...beijavam-se efusivamente pela manhã, quando saía cada um do seu beliche...Por falar em camarata, contava a Maria que, logo num dos primeiros dias (partira de St Jean Pied de Port) telefonara aos pais, tinham achado muito estranho ela ficar numa "caserna"com tantos homens...
Outra curiosidade, o John, americano, tirara um curso de Português no Brasil, e depois leccionou...Português...em Macau....e esta?...onde anda o Instituto Camões?
Dia 5 de Dezembro, pelas 12,30 horas, entrava na Catedral de Santiago de Compostela...
(haverá continuação)

Saudações
Abrantes Santiago

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

13 - O "Kurt" está de parabéns

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O autor com a neta Carolina ao colo.

Os padrinhos e co-fundadores - faço questão! - deste Blog , Carlos Vinhal e Paulo Santiago, enviaram uma prenda ao “pequeno”. Ficou muito feliz e deseja partilhá-la com os visitantes, incentivando-os a participarem também, pelo modo que entenderem.
Não faço apresentações porque acho bem mais interessante que seja cada um dos seus leitores a descobrir a personalidade que está por detrás dos respectivos textos e fotografias. O que significa que esperamos por muito material deles, no futuro. Mas não deixo de levantar uma pontinha do véu para aguçar curiosidades. O Carlos, nortenho de Leça, é um gentleman que aprecia a boa comidinha, cá dentro e lá fora, cama confortável e nada de foles nos pés. Quanto a trabalhos de casa, nem pensar. Isso é com os guias, que também necessitam de garantir o seu emprego. Já o Paulo – olhem só para aquela bigodaça –, é duro como o cerne de um carvalho. Dá umas calcinhas a quem o queira acompanhar a pé, limpa o cu a um caco se não tiver alternativa e não se chateia nada se o jantar for apenas pão com chouriço, desde que a pinga seja boa. Tanto dorme na tarimba de um albergue como sobre a raiz de um castanheiro. Representam por isso os dois extremos do binómio Turista/Viajante.
Parabéns aos dois e obrigado.
Juan

12 - Caminhos de Santiago, 2006 - I

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P.S. - À saída de Astorga para Santiago de Compostela, com a mobília às costas.

P.S. - Troço florestal de um caminho de Santiago


P.S. - Fachada de Igreja em Sarria.
Por: Paulo Santiago
Nunca tinha ido para os lados de Astorga-Leon, os troços que conhecia do Caminho de Santiago eram:
-Ponte de Lima- Santiago, feito em 2000, em BTT, três dias até chegar às portas da Catedral.
-Valença-Santiago, no ano de 2003, a pé,durando 4 dias
Para este percurso a começar em Astorga,fui a um mapa do Camino, vi que eram 255 km até Santiago, e daí meti na cabeça...25,5 Km por dia, dá 10 dias...erro..
Como estava em pleno Verão, reduzi o conteúdo da mochila ao mínimo: 4 pares de meias para caminhada, de secagem rápida, 4 t-shirt técnicas, deixam passar a transpiração, 2 pares de calções, 3 boxer's, também de secagem rápida, 1 camisola, 1 poncho impermeável. A estas peças de roupa há que juntar, toalha, equipamento para higiene, saco- cama e uma pequena farmácia que terá de incluir agulha e linha para o caso de aparecer alguma bolha. Diminui-se o aparecimento de bolhas usando o velho Vicks Vaporub, untando os pés, logo de manhã antes de calçar as meias.
Em Astorga, onde existem belas ruínas romanas, arranjei a Credencial, onde se vão colocando carimbos diversos, e que dá para a admissão nos Albergues. Mentalizado e equipado, iniciei a caminhada em 9/08/06, tendo feito neste dia 22,65 km, ficando no Albergue de Rabanal del Camino, onde cheguei por volta das 13.00 horas. Durante a tarde, lavei meias, t-shirt, cuecas, e passado pouco tempo estava tudo seco. Convém sempre lavar, pode chover um dia ou dois, e nesses dias terá que se guardar conforme chegou.
O Caminho, nesta altura do ano, tem um movimento apeado e bêtêtista impressionante...conheci uma jovem belga, tinha partido de Roncesvalles, neste primeiro dia, e ao longo dos dias fui conhecendo pessoas interessantes...um exemplo, no dia 10, encontrei um holandês que à minha pergunta"vens de Roncesvalles"me respondeu"venho de Amsterdam, saí de lá em 8 de Abril" Tinha 61 anos...
No 2º dia, fiquei em Ponferrada, os primeiros 10 km, a seguir a Rabanal foram a subir, dos 1200 metros até aos 1500 do monte Cruz de Ferro, iniciando aqui a descida, 22 km até Ponferrada, situada a 400 metros de altitude. A descida parte um gajo, é um trilho de montanha, com muita pedra solta, onde é necessário grande esforço para não escorregar ...pisei as unhas dos dedos grandes dos pés.
Nos outros dias fui ficando em Villafranca del Bierzo ( tem um vinho tinto excelente), Cebreiro, Triacastela, Sarria, Portomarin. Aqui chegado...parei...faltavam cinco dias para Santiago de Compostela, e as férias estavam a acabar. Iria fazer estes cinco dias em Dezembro...ficam para outro dia.

Abraço
Abrantes Santiago

Foto 1-partida de Astorga
Foto 7-amanhecer saindo de Rabanal del Camino
Foto 22-Castelo dos Templários em Ponferrada ( em obras de recuperação)
Foto34- não encontrei eucaliptos...,carvalhos e castanheiros
Foto 55- que tronco...umas centenas de anos
Foto72- Igreja em Sarria
Foto60-Mosteiro de Samos ( entre Triacastela e Sarria)
Obs: as fotos não publicadas ficam em arquivo para acompanharem futuros posts.
Juan