terça-feira, 22 de setembro de 2009

27 - Por trilhos das Terras de Granito

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Fotos de: Paul0 Santiago

Novo trilho nas Terras de Granito.
Por: Paulo Santiago
Hoje, 20 de Setembro de 2009, foi aberto o Trilho das Terras de Granito, situado na freguesia de Macieira de Alcoba, concelho de Águeda.
Nesta freguesia com 110 habitantes, situada perto do Caramulo, predomina o granito, sendo as habitações construídas na íntegra com esta pedra.
O percurso pedestre Terras de Granito, tem cerca de 8,5km, é circular, e deve-se iniciar junto da Igreja Paroquial de Macieira de Alcoba. A dificuldade, apesar de umas subidas, é média/baixa, e demorei 2,00 horas a percorrê-lo. Os primeiros 700 metros são planos e em caminho pavimentado, depois flecte para a floresta e começam as subidas até à Urgueira, com passagem por Hortas Velhas, onde apenas existem ruínas de antigas construções. Junto à Urgueira, o trilho passa pela ermida da Nª Sª da Guia e pelo Forno Comunitário, construído em finais do séc xix. A este forno, com uma entrada da altura de um homem, e que tem de arder oito dias e oito noites para aquecer, estão ligadas
algumas lendas e histórias. Devido a estas histórias, em 1906,veio uma ordem régia que proibiu a romaria da Sª da Guia, e assim até 1998 não se voltou a acender o forno. Em 1999, no 3º Domingo de Agosto, e sempre neste dia nos anos seguintes, voltou a acontecer o" Milagre da Urgueira"...o pão de milho com centeio é colocado e retirado por um homem que vai dentro do forno, tarefa realizada com as próprias mãos, indo trajado com um fato de burel, lã e linho, e leva um cravo na boca.
A partir da Urgueira, o percurso é feito em descida suave, até chegarmos novamente ao ponto de partida: Igreja de Macieira de Alcoba.

domingo, 20 de setembro de 2009

26 - K3 ou Saliquinhedim (Guiné- Bissau)

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No avião: Da direita para a esquerda, Rui Pedro, Juan e Manuel Neves.

Interlúdio no prgrama da viagem aos Bijagós

Nos dois dias seguintes à nossa chegada, sábado e domingo, aproveitámos para descansar, conhecer melhor a cidade (Bissau) e fazer o roteiro do “onde comer e o que visitar”. Logo no início da semana partiríamos para o K3, uma tabanca situada a cerca de 3 km a sul de Farim na margem esquerda do rio Cacheu, à qual me ligam laços que vêm desde o tempo em que aí cumpri uma parte da minha comissão militar. Restavam-nos ainda dois dias de folga para preparar a viagem aos Bijagós.
Durante meses, fui enviando caixas com ajuda humanitária (roupas, calçado, brinquedos, material escolar e medicamentos) expedidos a conta gotas nos contentores do nosso amigo Manuel Neves, empresário do ramo exportador com negócios na Guiné, tendo ficado armazenados nas suas instalações de Bissau até ao momento da entrega. Para esse efeito, o Manuel Neves colocou ao nosso dispor, graciosamente, uma das suas carrinhas na qual carregamos cerca de 1000 kg em artigos diversos repartidos pelos 50 volumes vindos de Portugal
No parque de estacionamento do hotel "24 de Setembro": Carrinha carregada com a ajuda. Ainda na imagem, Júlio Yá, o condutor e Juan.

Da esquerda para a direita: Manuel Neves, Rui Pedro, Sarifo e Juan.
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Na manhã de segunda-feira, tomámos o pequeno almoço bem cedo e partimos rumo ao K3. À frente, seguia a Ford Transit conduzida pelo Júlio Yá tendo como ajudante o Sarifo, ambos funcionários do Neves. À rectaguarada, o Mercedes do M. Neves onde eu e o Rui Pedro seguíamos à boleia. Primeira paragem no controlo de Safim onde os guardas de serviço à barreira de corda se interessaram pelo conteúdo dos caixotes. Depois de curta conferência chega-se à conclusão que o melhor é contribuir com uma pequena propina, o que nos permite fazermo-nos de novo à estrada. A nossa pequena caravana avança no seio de um trânsito intenso, cruzando com inúmeros veículos de todos os tipos e buzinas afinadas. Quase sempre a velocidade excessiva para o estado do pavimento, demandam a capital. Nas cabines ou caixas de carga, apertadas como sardinhas em lata, pessoas de todas as idades e etnias vão em busca da consulta médica que lhes pode melhorar a saúde ou salvar a vida, ou do trabalho mal remunerado que não encontram no mato. Algumas fazem-se acompanhar pelos parcos bens que esperam comercializar na grande cidade. Carregam sacos de carvão, molhos de lenha, hortícolas, mancarra, dendém e mangos que hão-de render bom dinheiro. O suficiente, talvez, para comprar aquela roupa, o rádio ou os óculos dos seus sonhos.
O dia apresenta-se particularmente bonito, com uma luminosidade que realça os diversos tons de verde da paisagem a contrastar com o negro do alcatrão esburacado mas ainda assim, transitável. O rádio de bordo sintoniza uma emissora FM que debita ininterruptamente música africana, ritmos frenéticos que convidam o corpo a agitar-se. Ao longo da estrada e na proximidade das aldeias que vamos deixando para trás, humildes bancas de comerciantes informais apresentam os seus produtos: cigarros vendidos à unidade, barras energéticas, rebuçados, sabonetes, refrigerantes à temperatura do chá. Segundo as placas, estamos no itinerário certo; Cumeré de má memória, antigo complexo militar português, terá sido o derradeiro local de reunião dos valorosos comandos africanos antes do seu fuzilamento, Nhacra, Mansoa. Esta cidade, a segunda ou terceira urbe mais importante do país, fervilha de agitação. São dez horas da manhã e o seu mercado popular ao ar livre oferece de tudo um pouco; além dos omnipresentes montinhos de carvão, mancarra e mangos, vêem-se cestos de pão, peixe seco, carne, vegetais, tendas de roupas e bancas de música em cassete e cd. Retomamos a marcha e pouco depois atingimos a povoação de Cutia, porta de entrada para as tabancas do Morés, outrora um bastião do PAIGC. Fazemos uma rápida visita ao torreão em alvenaria que noutros tempos serviu de abrigo a uma pequena guarnição militar portuguesa que tinha por missão controlar o movimento de guerrilheiros através de carreiros que se cruzavam na proximidade. Em Mansabá, estamos em plena região do Oio. Uma serração de madeiras, vários estabelecimentos comerciais, escola e posto de saúde, centralizam a actividade de uma população predominantemente rural que pratica uma agricultura de subsistência, cria gado e tem nas matas de cajueiros a sua principal fonte de rendimento.
Após a independência, o cajueiro veio substituir consideráveis extensões da floresta tradicional guineense. Trata-se de uma árvore de médio porte que produz um fruto composto de uma parte carnuda e doce envolvendo a semente ou castanha. A castanha de caju é muito valorizada nos mercados internacionais, dada a quantidade de produtos e subprodutos que dela se podem extrair, desde os óleos para a indústria de cosméticos, sabonetes, perfumes até aos bagaços utilizados na composição de rações para animais. Aos produtores é garantido um preço mínimo, mas todos os anos por volta do mês de Abril, atraca ao porto de Bissau um navio vindo da Índia carregando sacos de arroz que se destina a ser trocado quilo por quilo por castanha de caju. Fica assim garantida a subsistência das famílias quanto ao seu principal alimento, o arroz, servindo o excedente para adquirir outros produtos de primeira necessidade.
A nossa última tirada leva-nos ao Bironque, um antigo destacamento militar em plena selva onde estive integrado numa força empenhada na protecção dos trabalhos de reabertura do eixo Mansabá-Farim. A menos de meia dúzia de quilómetros revisitei Madina Fula, outro destacamento idêntico e com as mesmas funções do anterior, agora uma florescente tabanca onde se reagruparam populações dispersas pelo mato durante anos. À vista, 150 km percorridos a partir da base em Bissau, temos a tabanca do K3 também chamada Saliquinhedim, o nosso destino.
Num casamento indígena em Madina Fula, o Rui Pedro com duas crianças ao colo posa atrás da noiva de véu branco na foto.
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A população, que nada sabia acerca desta visita, está ocupada nos seus afazeres. Como em qualquer outro local de África, a curiosidade natural da criançada leva-as a aproximarem-se de nós. Algumas reconhecem-nos imediatamente de uma visita anterior, por isso partem em grande alvoroço regressando com uma autêntica multidão de adultos que sempre esperam por qualquer tipo de ajuda vinda de Portugal. Aos pequenos distribuem-se bombons, esferográficas, brinquedos. Com alguma dificuldade conseguimos que os miúdos se mantenham em fila para que a distribuição se faça de forma ordeira. Quando passamos aos itens reservados aos adultos, rapidamente reconhecemos a nossa incapacidade para concluir a missão. As pessoas, ávidas pelo seu quinhão de roncos (presentes), não aceitam as mais elementares regras de disciplina. Atiram-se umas sobre as outras, disputam peças de roupa ao rasgão, empurram-se, caem, espezinham-se, tentam apoderar-se do conteúdo do furgão. O quadro torna-se dolorosamente tenso e perigoso, há que tomar medidas para evitar um acidente que poderia colocar-nos em palpos de aranha. Por isso, decido encerrar a distribuição logo após a abertura dos primeiros volumes.O Idrissa é um dos três elementos do comité responsável pelo governo da tabanca. A sua residência fica próximo do local onde nos encontramos estacionados e vai servir de armazém para a mercadoria restante. Determino que seja esse comité a fazer a distribuição pelas famílias de acordo com a dimensão do agregado e suas necessidades, tendo o processo decorrido pacificamente segundo a informação que me chegou

O início da confusâo...
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Partimos então em direcção a Farim com a esperança de encontrar sítio para almoçar. Chegados à margem do Cachéu, da antiga jangada que fazia a travessia de pessoas e viaturas, nem rasto. Ficam os carros, embarcamos nós numa piroga com motor fora de borda que em pouco mais de cinco minutos nos despeja na outra margem, onde a aguardam outros passageiros que fazem daquele um próspero negócio. Mal chegados, apercebemo-nos de imediato que a cidade florescente de há três décadas e meia, está moribunda. Há muito que o alcatrão desapareceu por completo das ruas que são agora pavimentadas a pó ou lama de barro vermelho. A dignidade dos antigos edifícios públicos desmorona-se como as suas paredes por falta de manutenção. Resistem as tabancas tradicionais cobertas a capim, algumas ainda ostentam as velhas chapas de zinco corroídas pela ferrugem. Não há comércios e muito menos restaurantes. Os nossos companheiros guineenses partem à procura de algo que possa enganar o estômago até ao regresso à civilização. Sob um sol implacável, o calor é sufocante. À sombra de um renque de mangueiras tentamos ingerir umas sardinhas de conserva de origem marroquina que os nossos ajudantes descobriram não sei como. Intragáveis para o paladar luso, fico-me pelo pedaço de pão de boa qualidade e um gole de cola morna. De regresso a Bissau, passamos de novo pelo K3 onde é notável o ambiente de festa com imensas pessoas a saudarem-nos à beira da estrada. Páro para deixar uma palete de refrigerantes que será repartida por todos, ao dedal, literalmente.
A população do K3 na hora da despedida.

O Rui Pedro despede-se da miudagem

Latagão ao colo da irmã.

O bando dos reguilas do K3

Preparando-nos para atravessar o R. Cacheu em piroga.
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De novo en route, definham as expectativas de chegar à capital a tempo de jantar, começamos a pensar nas alternativas possíveis. Em Mansoa está a decorrer uma espécie de mostra de actividades económicas. Num recinto bem iluminado por um gerador, há diversos stands e começam a juntar-se visitantes. Dado que de comes e bebes não se avista nada de jeito, pé no acelerador e aí vamos de novo já que a esperança de encontrar algo aberto ainda não morreu. Vamos engolindo quilómetros e buracos perfeitamente camuflados pelos reflexos da laterite que nos roubam a noção da profundidade. Damos por eles porque a suspensão e as nossas costas não param de se queixar.
Chegamos a Safim cerca das dez da noite, ainda não é muito tarde. Mas se os Deuses não estão loucos, devem ter alguma coisa contra nós! Ao longo da estrada, em que a única luz é a dos nossos faróis, apercebemo-nos da presença de magotes de pessoas caminhando despreocupadamente, ora pelas bermas ora pela própria faixa de rodagem. No ar, o cheiro intenso a cachaça de caju obtida artesanalmente através da fermentação e destilação do fruto doce, põe-nos de sobreaviso quanto à possibilidade de alguém vir estampar-se contra o carro. O Mercedes reduz a velocidade até pouco mais da marcha a passo, e a Ford que segue logo atrás, faz o mesmo. Subitamente, um vulto atravessa a estrada em passo de corrida. Ouve-se um estouro enorme e um vulto rebola à frente do capot. É tudo aquilo de que me apercebo e, como sigo ao lado do Neves que encosta imediatamente, saímos para prestar assistência à vítima … que se põe de pé ainda antes de chegarmos à sua beira! É uma tia, como aqui se designam as mulheres grandes ou idosas. Está visivelmente nas graças de Bacco; perdida de bêbeda, dá dois passos, cambaleia e é preciso ampará-la para não agravar os estragos. Não se queixa, limita-se a cuspir saliva tingida de sangue misturada com alguma aguardente do excesso de carga. Numa avaliação sumária parece ter perdido alguns dentes ao embater com o maxilar contra o friso do tejadilho. O estrondo que ouvimos ficou a dever-se ao espelho retrovisor que, tendo sido forçado até ao limite, regressou à posição inicial com grande impacto por força da sua mola.
A mulher parece estar sozinha, mas apercebendo-se que a situação lhe podia render uns trocos, aparece um rapazote armado em chico esperto. Dizendo-se sobrinho da velhota, tenta negociar em seu nome a adequada indemnização e para isso, instala-se com a tia no banco traseiro, ao lado do Rui Pedro. A mulher não pára de mandar escarretas pestilentas para o ar. Algumas ficam presas ao forro do tejadilho, outras vão aterrar em cima do Rui que estoicamente suporta o vexame sem um pio. Já em andamento, a sinistrada parece recuperar um pouco da bebedeira. O sobrinho, convencido que os brancos não entendiam crioulo, incitava a anciã a pedir uma boa maquia.
- Eles são brancos, têm dinheiro por isso podem pagar bem, dizia ele.
Mostrou-se muito contrariado quando lhe dissemos que não pretendíamos negociar nada e que o nosso destino seria em primeiro lugar a esquadra de polícia e depois o hospital. O atordoamento da senhora dissipou-se um pouco mais, conseguimos perceber que residia com um filho no bairro militar situado na periferia de Bissau. Embora representasse sério perigo, entrámos no bairro, altas horas sem réstia de iluminação e lá conseguimos chegar à fala com o filho. No início, muito agressivo e exigente quanto a compensações, logo amansou quando lhe fizemos fazer saber que a única razão pela qual estávamos ali, era para que pudesse acompanhar a mãe à polícia e ao hospital.
Cordato e mais interessado nos CFA’s do que na dentuça da mãe, e perante a determinada recusa desta em deixar-se tratar, acabou por aceitar 15 mil francos e não se falou mais no assunto.
Com grande alívio, pusemo-nos a caminho do centro onde chegámos já passava da meia noite. Faltava resolver a questão do jantar. Feito o roteiro dos possíveis restaurantes ainda abertos, o desânimo foi total, nem vivalma. Propôs o Neves que fossemos a determinada cervejaria onde habitualmente serviam um balde de pipocas a acompanhar a bebida. Depois de uns goles e longa espera, veio a informação de que as ditas estavam esgotadas.
Dizem que quem se deita sem ceia toda a noite esperneia. Confirmo!
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Juan

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

25 - Caminhar nos Pirinéus - II

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PS: G~elos eternos em Gavarnie.

PS: Jagudi (abutre).

PS: Espectáculo com aves de rapina.

PS: Águia americana.
Caminhada nos Pirinéus, 2ª parte.
Por : Paulo Santiago

Nem só de caminhadas se vive nos Pirinéus, também é preciso comer, e...beber. Água de alta montanha excelente, muito fresquinha, e à noite, um Bordeaux de estalar a língua, isto quanto a bebidas...(nunca gostei daquela francesice de água com Ricard)...Comidas, estamos na zona dos patos, há pâtés óptimos, enchidos e presuntos convidam à degustação, carnes de borrego e bovino de boa qualidade.
Visitas interessantes a efectuar. Na estrada de Bagnères para La Mongie e Col do Tourmalet, encontramos umas grutas, Les Grottes de Médous, que valem uma visita, principalmente devido a umas curiosas formações que se encontram numa das salas, que, segundo a guia, não têm, ainda hoje, uma explicação científica muito capaz. O percurso subterrâneo tem cerca de 1000 metros a pé, seguindo-se 200 metros de barco.
Outra visita a não perder é ao castelo de Beaucens, junto à estrada para Lourdes. Trata-se de um castelo medieval, onde nos dias de Verão, a determinadas horas, se realiza um espectáculo com aves de rapina, e outras exóticas. Os picanços e rapanços que o Falcão Peregrino, a Águia Americana e outras aves fazem sobre os assistentes são perfeitos...não se esquece.
E, para terminar, mais uma caminhada. Vamos até Gavarnie, povoação onde termina a estrada e o estacionamento da viatura é pago (€ 4,00/dia). Comecemos a andar pelo Cirque de Gavarnie, um glaciar classificado como Património Mundial da UNESCO. Impressionante, aqueles gelos eternos que nos rodeiam. Na povoação, estamos em Agosto, faz muito calor mas à medida que vamos subindo em direcção à Brecha de Rolando, começa a arrefecer e já de polar vestido, o frio aperta. Com equipamento apropriado, através da Brecha de Rolando, pode-se passar para o Monte Perdido em Espanha, dormindo uma noite no refúgio que existe naquela brecha. Fica para outra altura...

Abrantes Santiago

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

24 - Viagem aos Bijagós - 1ª parte

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Aeroporto Internacional de Bissau. Foto: adbissau .org

Mercado de Bandim. Foto: tamboresafricanos.org

Vendedoras de ostras em Quinhamel. Foto:4.bp.blogspot.com

Piscina do Hotel 24 de Setembro. Foto: cart1525.com

Viagem à Ilha de Bubaque, arquipélago dos Bijagós.

Há viagens e viagens e há aquelas que ficam registadas na nossa memória. Pelos bons ou maus motivos, ou por ambos, como foi o caso desta deslocação aos Bijagós.
O arquipélago dos Bijagós é constituído por cerca de uma centena de ilhas e ilhotas situadas no oceano Atlântico, ao longo da costa da República da Guiné-Bissau de cujo território fazem parte integrante. Dado o estado de “pureza” em que se encontram, a Unesco classificou-as como Reserva Ecológica da Biosfera em 1996. Entre as ilhas mais importantes, salientam-se a Caravela, Formosa, Galinhas, Maio, Orango, Roxa e Bubaque, tendo sido esta última, o destino da minha viagem.
No seu conjunto, haverá pouco mais de uma dúzia de ilhas habitadas. As outras, ou são visitadas sazonalmente ou possuem mistério ( feitiço), e como tal, são consideradas sagradas pelos Bijagós, etnia que dá o nome ao arquipélago. Estas ilhas possuem uma riqueza natural excepcional, tanto a nível de recursos naturais como a nível cultural. Praias virgens, de águas cristalinas, cálidas brisas agitando palmeirais a perder de vista e a riqueza da sua fauna e flora, fazem delas um lugar paradisíaco, destino de sonho para qualquer viajante.
Numa passagem anterior pela Guiné, enquanto militar em serviço naquela antiga província ultramarina portuguesa, ouvira falar da ilha de Bubaque por ser muito frequentada por camaradas que ali gozavam a sua licença, por vezes na companhia das esposas que para o efeito se deslocavam desde a metrópole. Com o tempo, a povoação de Bubaque tornou-se numa requintada estância de férias que passou a acolher também, para além da hierarquia militar, altos dignitários ligados ao governo provincial bem como o jet set da colónia. Ali não faltava nada, desde um excelente hotel tipo resort, o Hotel Bijagós, que teve a sua época áurea no final da década de sessenta, altura em que foi ampliado com diversos bungallows, tal era a procura, uma danceteria anexa para mais de mil pessoas, um soberbo bar-esplanada debruçado sobre a praia e um conjunto de outras estruturas vocacionadas para o turismo. Havia também alguns edifícios administrativos de grande porte, vilas ao estilo colonial e residências de abastados comerciantes de origem europeia. De tudo isto, o que podemos encontrar hoje são apenas vestígios.
Os abastecimentos faziam-se através de ferry com o que de melhor e mais fresco chegava da Europa. Para maior comodidade e conforto dos turistas e visitantes, um aeródromo situado próximo do extremo sul da ilha transportava-os desde Bissau e outras localidades do território continental. O transfer para o hotel, fazia-se em autocarro próprio, cujos restos mortais ainda por lá sobrevivem.
Como se adivinha, os aliciantes para visitar os Bijagós eram muitos e a vontade, imensa e antiga.
Com o Rui Pedro, meu companheiro nesta viagem, planeei um itinerário em que numa primeira etape seguiríamos até Bissau num voo da Tap, deixando para segundas núpcias o esquema da deslocação até às ilhas, dada a falta de elementos informativos.
Embarcámos em Lisboa numa sexta feira tendo viagem decorrido sem acontecimento digno de registo. Excepto à chegada, quando o Rui não foi dentro por um triz! Mal acabara de pôr o pé em terra, rapou da filmadora e toca a captar umas vistas do aeroporto e material por ali estacionado. Foi quanto bastou para, uns metros à frente, ter uma comissão de boas vindas a aguardá-lo. Valeu-nos um amigo que nos acompanhava, o Manuel Neves, pessoa muito conceituada no meio policial local que rapidamente sanou a situação.
Numa corrida de cerca de vinte quilómetros feitos de táxi até ao “24 de Setembro”, o nosso hotel, o meu sócio pôde sentir o bafo de África. O sol a pique, uns amenos trinta graus e a humidade na casa dos cem por cento, tiram o alento a qualquer branquelas que por ali se atreva. O trânsito é infernal e pauta-se por regras de algum código não aplicáveis noutro continente. Não descortino porque é que em Portugal não se faz a troca automática de uma carta de condução guineense por uma nacional. Quem consegue mexer-se naquele caos, está apto a conduzir em qualquer parte do mundo. Ali, vale tudo, menos colidir. O que só não acontece mais vezes graças aos bons espíritos. Mas quando a batidela acontece, é a vítima que sai do carro, pede desculpa ao atrevido que lhe amolgou o guarda lamas e convida-o a seguir viagem!
Para meter conversa e saber as últimas da politiquice doméstica, instalo-me ao lado do condutor do velho Mercedes 200 pintado a azul e branco. Marca e modelo dominam o mundo dos carros de aluguer na cidade, condenados à canibalização logo que deixam de estar aptos ao serviço.
Sinto a camisa numa sopa, colada às costas do assento. Através do vidro aberto, o meu camarada vai sorvendo o cheiro de África e da cachaça de caju, transportado em lufadas de ar quente e muito pó. Para mim, esta curta viagem é sempre uma romagem de saudade. Brá, depósito de adidos, quartel dos comandos, antigo aeroporto e base aérea, o hospital militar … quantas recordações para os milhares e milhares de jovens que, tal com eu, cumpriram uma parte do serviço militar naquele território.
A chegada ao Bandim marca a entrada na cidade de Bissau. É um mercado de rua, ao ar livre portanto, onde tudo se vende, onde tudo se pode comprar. Frutas, legumes e cereais, carne e peixe com e sem moscas, mobílias e electrodomésticos, ouro, prata, jóias e moeda estrangeira, vestuário, calçado e material escolar, artigos a preços simpáticos para a carteira do cliente, pobre na maioria das vezes. A sua ala principal ocupa várias centenas de metros ao longo da artéria que liga a capital ao aeroporto. Do lado poente, ficam os bastidores deste grande mercado equivalente ao Roque Santeiro de Luanda, constituídos por um labirinto de ruas e ruelas invariavelmente sujas e malcheirosas, onde se apertam como sardinhas em lata, representantes das quarenta e tal etnias do país. As mulheres são o retrato de África, terra-mãe da humanidade. Trajando as cores do arco íris, exprimem-se nas línguas de Babel. Carregam o essencial para alimentar a família e muitas transportam vida nova no ventre, às costas ou pela mão. Pode dizer-se que no Bandim pulsa o coração do povo guineense.
Dentro da cidade, ruas largas embora em mau estado, bordejadas a mangueiras, deixam fluir um trânsito menos caótico permitindo-nos chegar ao Hotel sem dificuldade. Na recepção, um staff primoroso auxilia nas formalidades e encaminha-nos até aos alojamentos. Estes são constituídos pelo que resta de um vasto complexo de edifícios de apoio ao antigo clube de oficiais, uma espécie de barracões cobertos a lusalite e ventilação natural, onde se acomodava o pessoal de passagem. Eram tão medonhamente quentes e desconfortáveis que os residentes temporários lhes chamavam ”o Biafra”. Hoje, depois de algumas obras de remodelação, oferecem aceitável nível de conforto tendo em conta os padrões do país. Impera o nacionalíssimo banho balanta de púcaro e alguidar, suprindo as falhas de água na torneira. Pelas paredes acima a necessitarem de rolo e tinta, bicharada exótica dá as boas vindas aos recém-chegados. Móveis desconjuntados e o ar condicionado cheio de ressonâncias e a debitar calorias, completam um quadro indubitavelmente tétrico para o turista, familiar e aconchegante para o viajante, amante destas paragens.
Depois de uma borrifadela rápida para retirar o salitre do suor agarrado à pele, desfazem-se as malas à procura da vestimenta adequada, roupas leves de algodão, calções, T shirt e sandálias. Em poucos minutos estamos a caminho de Quinhamel na região do Biombo, a cerca de 40 Km de Bissau. O nosso destino é o restaurante da D. Henriqueta e seu marido, o Ti Aníbal. Um barraco situado na margem de uma bolanha, rodeado de frondosas e centenárias mangueiras sob as quais se alinham mesas e bancos corridos, este é o melhor local para saborear as deliciosas e fresquíssimas ostras da bolanha. Passadas pela chapa quente e servidas em quantidade industrial, são uma entrada forte para o menu que se segue; peitos de rola e bifinhos de gazela grelhados aux épices. A noite termina em beleza com uns drinques na Baiana, no centro da cidade, e uma visita a um dancing bem frequentado!
Fim da primeira parte e conclusão: Não é preciso muito para um homem ser feliz. Já as mulheres , não sei...
Juan



terça-feira, 15 de setembro de 2009

23 - Madeira : European Golden Oldies Rugby Festival

PS: Recepção aos "atletas" e acompanhantes na quinta da Magnólia ... a cambada esgotou almudes de bière.

PS: Reparem nesta beleza lituana, protegida pelo Luís Caldas (comité Olímpico), Santiago (Bairrada) e Pinto de Sousa (CDUP).

PS: Nos Stars de Moscovo, havia jovens de 70 anos (calções amarelos).

PS: Sábado houve folga nos jogos e o almoço foi em Porto Moniz. Vista das Piscinas naturais.


Antiguidades em acção!

Um apontamento de: Paulo Santiago.

Em 19 de Junho de 2008, pelas 15.00 horas, aterrei no Aeroporto do Funchal, acompanhado pelos meus companheiros/amigos do Rugby Clube da Bairrada. Íamos participar no European Golden Oldies Rugby Festival.
Era uma 5ª feira e ao fim da tarde houve recepção na Quinta da Magnólia para as 42 equipas participantes e respectivos acompanhantes. Na 6ª feira começaram os jogos e não havendo qualquer classificação, apenas existe o prazer de jogar.
Vinte e uma equipas jogaram no Marítimo, as restantes jogaram na Ribeira Brava. No 2º dia de jogos, domingo, houve troca de campos. Na 6ª o Bairrada jogou com o Gelezinis Vilkas da Lituânia e com o Dedy Russian Stars de Moscovo. Estes amigos moscovitas, mal o jogo acabou presentearam-nos com ...caviar e vodka...
No Domingo jogámos com o CR Évora e com o Cascais. À noite, no porto, jantar para todos os participantes, atletas e acompanhantes. Como sempre, uma grande festa...

Abrantes Santiago


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

22 - Caminhar nos Pirinéus I

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PS: Pic du Midi de Bigorre.

PS:Humm...não estou nada parecido. Alguém me diz onde é o jogo?

PS: Paisagem. Foto tirada no Pico du Midi.

PS: Trilho para o Pic du Midi.

Um torneio de Rugby para veteranos, nos Pirinéus.
Por: Paulo Santiago.
Tenho prazer em caminhar, cansar as pernas. Já ultrapassei, há anos, a fase acelerativa, aquela em que um gajo se excitava agarrado ao volante puxando os HP; agora só um cavalo...eu
Há um ano, Agosto / 2008, fui até aos Pirinéus, melhor dizendo, Hautes-Pyrénées. Em 2005 tinha andado no lado de Spain; montei a base perto de Ainsa, um notável exemplo de preservação, percorrendo os trilhos do Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido, com uma subida à Pena Montanesa...não sei onde meti as fotos...voltemos a França...
Hautes-Pyrénées...montei a base no Camping Le Monlôo, em Bagnères-de-Bigorre, sendo esta cidade a melhor escolha. Fica no centro, um raio para Tarbes, outro raio para o Pic du Midi, outro para Lourdes, outro para Gavernie, outro para....
Vamos caminhar...comecemos, para aquecimento, pelo Tour de Serris, com início na aldeia de Beaudéan, situada a 4km de Bagnères. É um percurso circular com uma duração de 3.00 horas e um desnível de 360 metros. Depois podemos ir subindo, há imensos percursos assinalados, e chegamos a La Mongie … de carro. Temos de subir ao Pic du Midi de Bigorre, escolhendo uma de duas alternativas:
1) Utilizando o teleférico que sai de La Mongie e pagando 30€ ou
2) Vai-se no automóvel até ao Col du Tourmalet ( onde passam os ciclistas),estaciona-se e...pés ao caminho...2.30 horas a subir e 2.00 horas a descer, com um desnível de 700 metros. A parte final da subida, tem uma inclinação muito acentuada, o que exige um esforço suplementar, mas sabe bem. Chegados ao Pic du Midi, pode-se optar por descer no teleférico. Já experimentei as duas alternativas. Em Maio / 2007, fui a Tarbes participar num Torneio de Rugby para Veteranos (informo, para quem não sabe, maiores de 61 anos) e a organização ofereceu-nos um voucher (?) ao Pic. No Verão passado subimos e descemos a pé, eu e a minha mulher...
( continua)
Abrantes Santiago

domingo, 13 de setembro de 2009

21 - Passeio à ilha da Madeira em carros antigos - Conclusão.

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Arqo pessoal: Chegada ao quartel dos B.V. de S.Vicente.

Arqº pessoal: Grupo de senhoras participantes no passeio.
Arqº pessoal: No bar dos Bombeiros para um cafézinho.

Arqº pessoal: Um sorriso que vale por mil palavras.

Arqº pessoal: Juan, o patrão do Blog. Vista da encosta norte da Ponta de S. Lourenço

Arqº pessoal: Chegada da caravana à Ponta de S. Lourenço.

Arqº Pessoal: Tempo de eleições. Uma inauguração com a presença de Alberto João.

Arqº Pessoal: Moderna Igreja da Camacha.

Arº Pessoal: Vista geral da vila de Machico.

Arqº pessoal: outra vista de Machico


Funchal, Hotel Monumental Lido, 11 de Setembro de 2009, quase meia noite.
Não há mal que sempre dure nem bem que não acabe. E o que é bom, acaba depressa!
No restaurante Real Canoa, está a decorrer o jantar de encerramento do passeio. Desenfie-me e deixei os companheiros à mesa para concluir este apontamento final.
É tempo de despedidas e agradecimentos. Em primeiro lugar, deixamos um grande abraço aos Bombeiros da Madeira, personalizados nas figuras dos senhores Xavier e Miguel do Destacamento de S. Vicente. Foram inexcedíveis quanto a cuidados para que tudo corresse bem. Devemos-lhe o sucesso do passeio e o privilégio de ter podido visitar locais que habitualmente não estão acessíveis a vulgares turistas. E quem melhor do que os Bombeiros conhece a sua terra?
De um ponto de vista mais pessoal, devo também uma referência carregada de especial carinho aos meus parceiros de aventura. Foram condescendentes, aturaram-me as maluqueiras e contribuíram largamente para que na hora da partida já bata a saudade e a vontade de repetir. Se não for antes, até para o ano, amigos!
Este último dia de visitas começou à hora habitual, nove da manhã. O pessoal mantém a exuberância do costume, mas … nota-se que todos sentem que o bem-bom está a chegar ao fim! Por auto-estrada, partimos em direcção a S. Vicente. De passagem revemos Câmara de Lobos onde chegamos num ápice. Pouco depois arribamos ao quartel do Xavier onde fazemos uma breve paragem para um cafezinho e visita às suas modernas instalações. Próximo destino, a vila de Santana onde temos almoço aprazado no restaurante Colmo. Antes, do alto da estrada marítima, contemplamos a bela povoação de Ponta Delgada, onde reside o nosso guia. Continuando em direcção ao almoço, avistamos Boaventura e Arco de S. Jorge. No miradouro de Cabanas, um vendedor de frutas abastece a caravana com especímenes exóticos de que nós, continentais, nem conhecíamos o nome e ainda menos o sabor, como por exemplo a pêra-melão ou o fruto da costela-de Adão. E a Madeira aqui tão perto!
Após um excelente almoço que primou pela qualidade do serviço, seguimos para a Ponta de S. Lourenço que com o seu ar rude e selvagem bem podia ser considerada um ex-líbris desta Ilha. Esta Ponta é uma espécie de estrema a partir da qual se avistam grandes extensões das costas norte e sul. Assim como o Pico do Funcho, que visitamos em seguida e de onde se pode confirmar visualmente esta curiosidade: A pista do aeroporto do Funchal é a única em todo o mundo que se estende por duas cidades, Santa cruz e Machico. É quase sol posto, mas ainda há tempo uma paragem na Camacha com visita a uma loja de artesanato.
Fim de dia, de trabalhos e de reportagem!

Juan