domingo, 4 de outubro de 2009

34 - Estava de gritos!

.
Cozinha exótica

Disseram-me que o Marques faleceu. Mal o conhecia, mesmo assim foi com pesar que recebi a notícia. Quem ma deu não soube precisar a data do falecimento, terá ocorrido há cerca de três anos. O senhor Marques era beirão, tinha família na região da Guarda, um filho segundo me contaram, mas desde a partida para S. Tomé na década de cinquenta, quase não tinha contacto com o país nem com a parentela. Exilara-se e pronto. Quando o visitei como seu cliente na cidade de S. Tomé, ia ele nos setenta e tais, ouvi-o repetir uma espécie de cartilha que declamava entre gracejos sem sentido e por certo, mágoas escondidas. Dizia ter chegado àquela antiga colónia portuguesa no dia não sei quantos de Abril de 1955 para aí cumprir serviço militar. Depois, atraído pela beleza da Ilha e pela doçura das catorzinhas, foi ficando … ficando … até se esquecer completamente que era português e um dos raros brancos a quedar-se por aquelas paragens após a independência da colónia.
Também não recordo exactamente em que ano, nem acho que isso seja importante, surgiu o convite para uma viagem a S. Tomé. O Henrique Vilhena, distinto ortopedista, colega e amigo de há muitos anos, encontrava-se em S.Tomé ao abrigo de um programa de cooperação na área da saúde. Como já tinha perto de dois anos de estadia, achou que podia ser o nosso cicerone e daí o convite a alguns amigos, oito à partida de Lisboa, nove com ele, a lotação completa de um jipão no qual percorremos estradas e caminhos daquele belo país.
Ficámos alojados no hotel Baía de onde partíamos todas as manhãs para um pesado programa de visitas, regressando à capital para almoço. É aí que entra o senhor Marques, proprietário e gerente da maior xungaria onde pus os pés até ao dia de hoje.
Num canto de um autêntico armazém de ferro velho, onde obsoletas peças de automóvel, algumas de modelos há muito desaparecidos de circulação, emparelhavam em carunchosas prateleiras com pacotes de arroz e garrafas de óleo alimentar, havia duas mesas corridas cobertas por oleados mais sebosos do que as botas de um cardador, onde servia os clientes do seu prestigiado restaurante.
A ementa não variava muito, andava sempre à volta do chicharro frito com salada de tomate ou um arrozeco malandro a saber a carochas. Mas o que era curioso, é que o peixe daquelas latitudes parecia ter várias cabeças, tão raramente nos caía uma posta no prato. Deliberou-se então passar logo de manhã pelo tasco do Marques e deixar-lhe um adiantamento e a recomendação para que fosse à praça comprar algum do excelente peixe que se cria naquelas águas. Mas a coisa não resultou, a única mudança foi a do nome do nadante e a avaliar pela composição da travessa, íamos de mal a pior. Até que alguém se lembrou de tramar o velho, e num determinado dia, juntamente com o habitual adiantamento recebeu a recomendação expressa para comprar frangos para uma cafriela, pois o pessoal estava saturado de peixe. Chegada a hora do almoço, toda a gente sentada e a salivar com o cheirinho que vinha do barraco nas traseiras que servia de cozinha onde uma avantajada africana exercitava os seus dotes, aparece o Marques todo pesaroso com a informação que nessa manhã não tinha aparecido um único galináceo à venda no mercado da cidade! Mas, “como os senhores já devem estar cansados do peixito, resolvi arranjar um leitãozinho à Bairrada que está de gritos”.
Vem o leitão para a mesa e num abrir e fechar de olhos, o pessoal esfarrapa o petisco sem sequer se interrogar porque é que, ao contrário do peixe, o leitão de S. Tomé … não tinha cabeça! Ao meu prato foi ter uma aba de costelinhas que experimentei sem grande entusiasmo. O sabor não era mau, sabia a alho e pimenta, mas também não era o agradável sabor do leitão a que as minhas papilas se habituaram desde criança, já que cresci numa região onde se assa um leitão com a mesma facilidade com que se faz um frango de churrasco. Mas aquelas costelinhas, que estranho … em vez de espalmaditas como as dos bácoros nacionais, eram arredondadas como um lápis de madeira!?
Bem, quem comeu, comeu, quem não gostou não se coibiu de atazanar os companheiros com a probabilidade de terem comido macaco.
No dia seguinte, mais ou menos à mesma hora e no mesmo local, estando o meu grupo de regresso às cabeças de chicharro, entram dois engravatados cavalheiros tipo caixeiro viajante, que interrogam o Marques acerca das prescrições do cardápio.
- Olhem, se os senhores quiserem, posso-lhes servir peixe frito com arroz e salada como estes senhores estão a comer. O peixinho está bom ou não está, ó dr. Vilhena?
- Não está mal ó Marques. Olha, já que vais fritar mais, aproveita e vê lá se nos trazes um reforço.
O Marques fez-se desentendido em relação à proposta do Vilhena e percebendo que os recém chegados clientes conferenciavam sem chegar a acordo quanto ao chicharro, adianta:
- Mas se os senhores quiserem também lhes posso servir coelho!
- Coelho … como?
- À caçador, responde o finório.
- Seja então, vamos no coelho.
Com o pretexto de que ia transmitir o pedido à cozinheira, o Marques desapareceu por detrás de uma cortina que subtraía aos olhares curiosos dos clientes o que se passava na cozinha e no pátio anexo. Ouviu-se vozear em surdina, ruídos de remexer ou arrastar e de súbito, caim … caim … caim, um choro pungente e abafado, cada vez mais débil até que se extinguiu.
Estávamos de saída quando os nossos companheiros da mesa ao lado, depois de se banquetearem com o pão e azeitonas das entradas se atiravam aos fumegantes pedaços de coelho, que nas palavras do Marques estaria também de gritos!

PS: Dizem as más línguas que o melhor peixe ou carne que entrava no restaurante do Marques, ia direitinho para a barriga de duas catorzinhas de quem ele se ocupava na altura da nossa viagem. Nunca vi as raparigas, mas garantiram-me que viviam no primeiro andar, por cima do estabelecimento.
Contaram-nos mais tarde que o homem, useiro e vezeiro nestas maroscas, esteve condenado a apodrecer na prisão por ter servido béu-béu ao presidente Miguel Trovoada. Salvou-o o Bispo, que o foi buscar ao fim de três dias de calabouço. Até agora, não pude confirmar o relato.
Numa reportagem televisiva, tive oportunidade de ver o senhor Marques de visita à sua terra, integrado numa comitiva que viajou com o patrocínio da Secretaria de Estado das Comunidades.

Juan

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

33 - Viajar em seviço

.
Foto: Lisboa, zona portuária.

Um testemunho
Entre as profissões mais desgastantes tanto a nível físico como psicológico, estão aquelas que obrigam a frequentes deslocações, por vezes entre continentes. Existem imensos estudos que demonstram a influência muito perniciosa para a saude resultante do jet lag, que consiste na transposição de vários fusos horários no lapspo de apenas algumas horas. Qualquer um de nós que tenha passado pela experiência de uma semanita de férias num país da América do Sul, por exemplo, conhece bem a neura dos dias da chegada, depois de uma noite mal dormida e dos sonos trocados. Mas aquilo de que poucos se darão conta, é dos danos que o exercício destas profissões provocam a nível das relações familiares. Relatos como o que se segue, ouvi-os inúmeras vezes da boca de colegas de trabalho com muitos anos de mar. Invariavelmente, detectei uma mágoa oculta, profunda, por não terem podido dedicar mais tempo aos filhos e sobretudo, por não terem usufruido mais da companhia dos garotos quando eram pequenos, agravada pelo sentimento de se sentirem estranhos na sua própria casa. Se em muitos casos a cicatrização não deixa sequelas, outros há em que os estragos se tornam irreparáveis, levando à total desagregação familiar.

Eis o texto do e-mail do amigo Santos Oliveira:

JUAN

Sei (decerto sei, apenas porque estou convencido de tal) como está o teu sentir.
Ontem não havia Postado nenhum Comentário, porque me passou o filme todo pela mente e o que poderia ter dito nem sequer poderia (por razões de ética), expressar o mínimo do que acabei por dizer (lê, escrever).
Do empurrãozito, não te livraste, nem te livrarás. Eu disse que estou aqui e vou manter tal afirmação e postura.
Queres (conseguirás???) entender o que é o tipo de trabalho do tipo do que eu tive (que gostava e gosto) em que dedicava umas boas 12 a 14 horas por dia, mesmo sabendo que jamais teria uma compensação material adicional, privando com Dirigentes da Empresa, em sítios diversos, estudando modos e métodos, planeando estratégias e nunca sair para conhecer os lugares onde estava? Nem sequer havia disposição para tal, Amigo.
Aeroporto, Hotel, Trabalho, Banho, Dormir (pouco), Trabalho mais Trabalho, Estratégias e Conclusões, Aeroporto, Casa, Família... tudo de enfiada?
Que achas que tenho para narrar? Que estava cansado? Que tinha sono?
Agora, tenho pena das noitadas que não fiz mas sentia-me arrasado física e psicologicamente, até pelo "chamamento" da família lá por casa.
Aconteceu, tinha a minha filha uns doze anos, que, num sábado, por mero acaso almoçando em família, ela se voltou para a minha mulher e disse textualmente:
"Mamã. Hás-de dizer-me quem é este senhor que vem cá comer, de vez em quando, e parece morar aqui connosco?".
Foi a maior (única)"pancada" que a minha Filha me deu. Doeu. Doeu muito, podes crer.
Mas acho que o teu Amigo aprendeu a não ver a Filha apenas a dormir.
Na verdade chegava com ela a repousar e saía antes de ela acordar. Depois disso, penso não haver acontecido nada de semelhante, pelo menos comigo por cá em Portugal, com as excepções de um a dois dias de longe a longe.
De violências destas para uma criança, chegou.
Hoje, ela ri-se, mas acrescenta que foi o que sentiu naquela altura.
Mas tenho imensas alegrias com o que consegui criar e com o que daí descendeu. Tenho uma Filha exemplar e dois Netos de sonho, apenas um tanto longe...
Não é por falta disso que o coração fraqueja de tempos a tempos.
São mais as emoções, as frustrações por que se passa, as descobertas de falsos caracteres, os sofrimentos que sinto nos outros e que sou impotente para remediar, etc.

Hei! Onde já vou!...

Recebe o maior abraço do Mundo, do
Santos Oliveira

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

32 - Carta aberta

.
Arqº pessoal: Pico nevado nos Andes.

Arqº pessoal: Valparaíso, Chile.

Arqº pessoal: Porto pesqueiro de Valparaíso.

Arqº pessoal: A zona das "Docas" de Buenos Aires, Argentina.

Arqº pessoal: A "Casa Rosada", sede da presidência da República Argentia.

Caros visitantes e amigos,

Quando há cerca de dois meses me lancei nesta aventura que foi dar vida a um Blog subordinado ao tema das viagens, referi de forma bem clara que o seu primo movens era um certo estado de necessidade. Aludia então a uma situação que afecta muitos dos que se consideram ou dizem viajantes. De facto, e pelas razões mais diversas, muitas pessoas que apreciam as (grandes) viagens, acabam por fazê-lo em regime solitário, o que é uma pena, pois retira prazer a uma experiência que para ser vivida em pleno deve ser partilhada. Paradoxalmente, um passeio pela Net, revela-nos a existência de muita gente que gostaria de se aventurar por outros trilhos que não apenas os que se encontram expostos nas montras das agências de viagens. E não se atreve, por lhe faltar o apoio e a experiência de um viajante ou, no limite, de uma companhia confiável.
Julguei então ser possível através deste sítio e com a colaboração dos aficcionados, juntar as pontas de uma espécie de cadeia por forma a constituir grupos interessadas em iniciar algum tipo de relacionamento, criando laços de confiança mútua entre pessoas de todos (agora já não se pode dizer ambos!) os sexos, idades, formação académica, estatuto social, se é que isso interessa a alguém, e assim darmos início a alguns projectos.
Continuo a pensar da mesma forma e, tendo em conta o número de visitantes, o meu optimismo sai até reforçado. Naturalmente, considero que este espaço é nosso. Tal como uma casa sem mobília não tem alma e não pode ser considerada um lar, também este não é um sítio para falar, discutir e projectar viagens se não puder contar com a vossa opinião, histórias e fotos das vossas viagens, e tudo o mais que queiram enviar-me para publicação. Basta remeter o material para juan_jovi@sapo.pt e ele ficará disponível para toda a comunidade.
Entretanto, e por sugestão do Paulo Santiago, especialita em trekking, rappel, escalada, cannyoning e tudo o que sejam actividades de ar livre em contacto com a natureza, bem podíamos aproveitar este tempo fabuloso que tem feito, antes que apareça o general Inverno. Desfrutar de saudáveis práticas de lazer, ao mesmo tempo que nos vamos conhecendo e quem sabe, ganhando confiança para outros voos, seria óptimo. Mas nada impede que nos fiquemos por um simples almoço de convívio, para o qual se pedem sugestões quanto a data e local.
A terminar, está na altura de começar a alinhavar a próxima grande viagem da Primavera. Este ano, estou a pensar fazer um tour pela Europa, praticamente inexplorada para a maioria dos portugueses. Sem esquecer que o bom tempo está a chegar ao hemisfério sul; que tal uma escapadinha? Quanto a pormenores … mostrai primeiro o vosso interesse! Para o suceso da empresa, leiam e divulguem o sítio.
Abraços às carradas,

Juan

terça-feira, 29 de setembro de 2009

31 - Cannyoning.

.
PS: A maioria são mulheres!

PS: Caminhando...

PS: Saltando...

PS: Fazendo rappel.

Por: Paulo Santiago

Com o calor que se tem sentido apetece fazer cannyoning...e o que vem a ser essa "coisa"? É a pergunta que alguns farão. Explicação rápida: Cannyoning, como o nome dá a entender, relaciona-se com "cannyon", desfiladeiro e consiste na descida de um rio de média ou alta montanha, caminhando, saltando ou fazendo "rappell".
Em Portugal conheço três rios excelentes: o Teixeira, na zona de Oliveira de Frades, o Fafião e o Arado no Gerês.
A actividade é feita obrigatoriamente com fato isotérmico (surf), porque mesmo em pleno Verão, a água destes rios é bem fria. Este ano fiz um cannyoning com os meus filhos, no dia 16 de Agosto, no rio Arado, e com a pressa do regresso não fizemos uns alongamentos no final da actividade. Daqui resultaram algumas dores musculares durante dois ou três dias, para eles, com vinte e poucos anos, e para mim, com sessenta e um. Acontece que estando na água, o fato nos protege do frio, depois saímos e caminhamos pelas rochas, e graças ao fato, os músculos aquecem fortemente. Depois, voltamos a saltar para a água e os músculos arrefecem, são estas mudanças bruscas que no final têm de ser compensadas.
As fotos (não foram tiradas este ano) falam por si...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

30 - E o mar aqui tão perto!

.
Mapa indicando a localização de algumas das melhores praias da Costa de Prata.

Praia da Leirosa.

Praia do Osso da Baleia.
.
Inês, 7 anos.

A inês e a irmã, Carolina, 5 anos. Sâo primas da Mariana.

O avô Juan com a Mariana, 6 meses.

O avô com a Carolina ao colo.

A Mariana molha os pézitos no mar pela primeira vez.

Bom tempo!

Ontem fui à praia, e no dia anterior também! Facto perfeitamente irrelevante não fosse o pretexto para falar de algumas das melhores praias da Costa de Prata. E já agora, porque não, apresentar as minhas netas à comunidade.
Neste Outono de cores e temperaturas estivais, uma ida à praia melhora o astral, faz bem à saúde e é como que um prolongamento das férias. Claro que esta é uma situação que não deixa de ter o seu reverso. Será que as primeiras chuvas de Outono não estão já a fazer falta à agricultura? E as barragens onde se armazena o precioso líquido, como é que estão quanto a níveis? Este aparente prolongamento do Verão, tem algum significado pernicioso em termos climatológicos? São dúvidas de resposta fácil para os entendidos, talvez, que de qualquer modo não me retiram o prazer de gozar este bom tempo, como a maioria das pessoas o classifica.
Voltando às praias, tenho o privilégio de residir a uma distância de trinta minutos de carro das seguintes:
- Cabedelo, Hospital, Cova, Gala, Costa de Lavos e Leirosa, todas no concelho da Figueira da Foz;
- Osso da Baleia, a praia do concelho de Pombal;
- Pedrógão e Vieira, no concelho de Leiria.
Dizer qual a melhor, é impossível. Todas têm os seus frequentadores indefectíveis que lhes reconhecem virtudes que outras não possuem. Para mim, a proximidade da residência, a excelente qualidade da água e os areais limpos e suficientemente extensos para que não tenha de estender a toalha debaixo do chapéu do vizinho, seriam razão bastante para não ir a banhos para outras paragens. Mas há pelo menos outra razão, a temperatura da água! Como é sabido, as águas da costa oeste são acentuadamente mais frias do que as do Algarve por exemplo, e nisso encontro uma vantagem.
Uma grande percentagem da nossa população com idade acima dos quarenta a quarenta e cinco anos, sofre de insuficiência venosa profunda, uma patologia do foro circulatório que se caracteriza pelo aparecimento de nódulos e rolos vasculares a nível dos membros inferiores. São as chamadas varizes, tão inestéticas quanto incomodativas, chegando mesmo a ser incapacitantes. As queixas mais comuns consistem na sensação de cansaço, pernas pesadas, dormência ou ardor e nos casos extremos, prurido, exsudação, flictenas e úlceras. Pois bem, há um bom par de anos, quando um quadro bastante avançado quis tomar conta dos meus andantes, resolvi iniciar um tratamento conservador, que não só fez regredir completamente a sintomatologia como devolveu às minhas extremidades a aparência de tempos idos.
Para os interessados, aqui vai a descrição do tratamento que tão bons resultados me proporcionou. Tão simples quanto expor os membros ao sol durante 15 a 20 minutos e depois, mergulhá-los subitamente na água do mar, caminhando numa zona de rebentação com água pela coxa, durante um quarto de hora. Repetir tantas vezes quantas o horário de trabalho o permita, e quanto mais fria estiver a água, melhor. E pronto, logo no primeiro ano, os efeitos benéficos podem sentir-se por largos meses. Mas atenção, pessoas com patologia do foro ósteo-articular, não costumam dar-se bem com o frio nos ossos. Do mesmo modo, os insuficientes coronários (angina de peito), também não devem expor-se a alterações bruscas de temperatura.
Depois não me venham cá dizer que não avisei!
São duas as praias onde gosto mais de chapinhar. A da Leirosa, que é também a praia da minha juventude e de tudo o que eu lá vivi, situada junto à fronteira sul do concelho da Figueira da Foz. É uma vila (aldeia?) pequenina, habitada por gente que antigamente se dedicava à pesca – arte de xávega –, e hoje alberga duas das maiores unidades industriais dedicadas à produção de pasta de papel. A proximidade da Figueira da Foz e Leiria, assim como a existência de boas vias de comunicação, EN109, A17 e IC8, trouxeram-lhe algum desenvolvimento e cosmopolitismo. Mas é sobretudo nos dias solarengos de Inverno que o pequeno burgo se torna irresistível para um passeio de domingo à tarde. Dezenas de automóveis estacionam ao longo da sua marginal e, enquanto alguns dos seus ocupantes ouvem música baixinho ou dão asas aos avanços de um namoro mais febril, outros deliciam-se com lufadas de ar marítimo a cheirar a maresia, e um sol esplendoroso de uma luminosidade ímpar, com a Figueira e a Serra da Boa Viagem no horizonte.
A praia do Osso da Baleia, é a minha praia, porque “Osso da Baleia é sinónimo de sossego. O único areal do concelho de Pombal fica quase perdido na Mata Nacional do Urso, rodeada de dunas e árvores. Em estado quase virgem, não abdica das condições básicas, como vigia, bar e casas de banho, no entanto não tem quaisquer hotéis ou restaurantes perto. A qualidade da água do mar é certificada pela bandeira azul. Com um extenso areal, há até espaço para nudistas (in sairmais.com)”
No passado dia 4 de Junho, foi a primeira praia a hastear a Bandeira Azul na presente temporada. O secretário de estado do turismo, João Ferrão, presente na cerimónia, apontou-a como exemplo de preservação ambiental e expressou a sua satisfação por não existirem quaisquer construções num raio de vários quilómetros.
Que mais posso acrescentar? Apenas o convite para que visitem o meu concelho e a nossa praia.
Daqui endereço a todos uma cordial saudação de boas vindas.

Juan

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

29 - A razão de uma Greve

.

Termina hoje à meia noite o segundo de dois dias de greve dos pilotos da Tap. Sei que esta greve tem por base uma disputa de natureza salarial entre sindicatos e administração, mas desconheço os argumentos de qualquer dos lados. À partida, a minha solidariedade pende para o lado dos pilotos. São pessoas responsáveis, ai de nós se não fossem, e se decidiram avançar para a guerra, foi porque acharam que tinham a razão do seu lado. O mesmo dirá o representante da administração, com o mesmo nível de seriedade. Entre os dois fogos ficaram, dizem, quarenta e dois mil passageiros e um coro de protestos. Uns, protestam contra os pilotos que consideram uma classe à parte, socialmente prestigiada e com remunerações acima daquelas que auferem profissionais de idêntico nível de diferenciação e responsabilidade. Outros sentem-se agastados com a manifesta (dizem eles) indiferença da empresa para com os contratempos e prejuízos que a situação lhes acarreta. E todos, temem que estes abanões mandem com a transportadora definitivamente para o charco. E nós, cidadãos e contribuintes, ocasionais utilizadores dos serviços da Tap air Portugal, o que é que temos a dizer?
Como não tenho procuração para representar quem quer que seja, só posso falar por mim. Então aqui vai a minha opinião, que de resto ninguém pediu, esquematizada em cinco princípios:
1º - Dado que o dinheiro dos contribuintes não pode almofadar as contas das empresas de transporte aéreo, este tem que ser um negócio rentável per si.
2º - Como qualquer outro negócio, deve ter uma gestão transparente e acima de tudo, competente. A sua administração não pode ser coito para boys cujas credenciais se resumem ao cartão do partido do governo.
3º - Há que acabar de vez com vaidades bacocas do género daquelas que suportam linhas altamente deficitárias, com o argumento de que é preciso manter a nossa presença etc. e tal. Não me admiraria se me dissessem que algumas dessas linhas e horários se mantêm por conveniência de determinados senhores.
4º - A Tap é um símbolo nacional, como a Torre de Belém ou o Mosteiro de Alcobaça. Em qualquer ponto do planeta, um escritório da Tap evoca território nacional, como se de uma representação diplomática se tratasse. Para a grande maioria dos portugueses, ela é a melhor e mais segura companhia aérea do mundo, e não deve ser alienada sob qualquer forma ou pretexto. Os nossos pilotos ficam logo abaixo de Deus e para fazer a manutenção dos aparelhos, não há mãos como as dos portugueses. Até a comidinha de puta que me servem a bordo, eu devoro de bom grado.
5º - Sendo a Tap uma questão nacional, tudo o que lhe diz respeito interessa aos cidadãos. Se as regras da concorrência dentro da EU não permitem a ajuda directa dos estados, havemos de encontrar uma forma de lhe restituir a saúde financeira e uma longa vida. Mas para isso, não é aceitável que alguns façam caretas ao tratamento. E quanto aos sacrifícios, se os houver, que sejam repartidos.
Analisemos agora as razões dos furibundos passageiros. Não têm razão! Naturalmente quando se está de armas e bagagens num aeroporto, com a legítima expectativa de que o contrato de transporte firmado com a empresa seja respeitado e tal não acontece, não há nervos que aguentem. Mas se pensarmos bem…
Não é verdade que vivemos num país democrático onde fazer greve (com regras), é um direito constitucional?
Não é verdade que a greve é a forma de luta mais extrema de que os trabalhadores se podem socorrer para fazer valer o que consideram ser os seus direitos? Qual seria a efectividade de uma greve no caso de ninguém sair magoado? Porque, meus senhores, declaração de greve é declaração de guerra. E as guerras fazem-se para provocar dor, destruição, sofrimento e angústia no campo adversário. Infelizmente, o sucesso deste combate está na extensão dos danos colaterais que uma das partes não quer nem pode evitar! Nesta guerra, as armas, são os braços caídos sendo as munições, a pressão e o clamor dos ofendidos e prejudicados, ou seja, os passageiros.
Está a decorrer neste momento uma conferência do G20. As notícias dizem que o ponto mais importante da ordem do dia, tem a ver com a discussão das remunerações das posições de topo nas administrações de empresas como bancos, seguradoras e participadas. Mesmo em Portugal, onde esses valores escapam frequentemente ao escrutínio popular, vozes se têm levantado, entre elas a do PR, contra a falta de razoabilidade de tais montantes quando comparados com o nível salarial médio dos restantes trabalhadores da mesma organização. A situação chega a ser obscena, quando a determinados figurões são atribuídos complementos astronómicos a título de prémios de gestão e outras alcavalas.
E na Tap, o que é que se passa? Será que há gente na administração, com os tomates no bem-bom, que nunca saiu de Lisboa a não ser em passeio e ainda por cima à borla, a ganhar n vezes o salário de um piloto?
Se não há, apelo aos senhores pilotos para que ponham a mão na consciência e aguardem pelo regresso das vacas gordas para exigirem o reforço do orçamento lá de casa.
Aos senhores administradores, tomo a liberdade de recordar que os bons exemplos vêm de cima e os sacrifícios são para repartir.
Aproveito para avisar que um dia destes vamos ter uma conversinha acerca das vergonhosas taxas de combustível, aeroporto e segurança com que somos massacrados. Quero saber quem é que se anda a abotoar com o bolo ou como é repartido, e quais as premissas que o justificam.
Juan

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

28 - Viagem aos Bijagós - 2ª parte

.
Mapa da Guiné onde se pode visualizar a ilha de Bubaque.

Juan, na praia.
Rui Pedro ao balcão do bar da esplanadado Hotel Bijagós (abandonado).

Edifício de arquitectura original que terá servido de residência de férias a um chefe de estado guineense (informação recolhida no local)

No resort do Fontes.

A piroga da nossa aventura.

O arrastão adaptado, pronto a iniciar a carreira entre Bissau e as Ilhas.
.
As peripécias de uma viagem marítima.
.
Cupelão de Baixo, Cupelão de Cima, Stª Luzia, Amura, Bandim, foram os bairros da cidade por onde deambulámos no dia seguinte à épica expedição ao K3.
O nosso próximo objectivo, há muito traçado, consistia na deslocação ao arquipélago dos Bijagós. Já sabíamos que a viagem teria de ser feita por barco dado não existir qualquer ligação aérea entre Bissau e Bubaque, a ilha que pretendemos visitar. Contaram-nos até uma história algo rocambolesca que fica aqui pelo preço da compra:
Em tempos não muito recuados, teria aparecido um audacioso empresário cuja nacionalidade não me foi revelada, que a bordo do seu pequeno avião supria a falta de transporte aéreo entre o arquipélago e o continete. O serviço revelou-se tão efectivo quanto imprescindível e no momento em que a avioneta teve a sua primeira avaria, não foi difícil desbloquear os cinquenta mil euros orçamentados para a reparação. Na posse da taluda, o nosso piloto deu à sola e até hoje. Investigação posterior terá revelado que o homem nem brevet possuía. São histórias típicas de África, nas quais é sempre difícil distinguir a verdade da ficção.
De passagem pela zona portuária, foi possível apurar o seguinte:
- Transporte regular (carreira) entre as Ilhas e o continente, não existe.
- Pessoas e mercadorias, viajam de e para os Bijagós em pirogas com cerca de 9 metros de comprimento por três de boca e motor a diesel inbord, ao sabor da tabela de marés. A duração da viagem é de cerca de quatro horas e custa à volta de 900 cfa’s por pessoa.
- Os pilotos são práticos que governam as embarcações pelo tino e de acordo com a experiência adquirida, auxiliados por uma agulha magnética.
- É possível fazer a viagem em lancha rápida em fibra de vidro, actividade a que se dedicam alguns operadores informais, mas o custo é incomportável para o nosso orçamento.
- A época em que vamos viajar é particularmente propícia a acidentes. Duas semanas antes, uma embarcação que fazia a travessia naufragou tendo-se perdido trinta e tal vidas.
- Atracado ao cais, encontra-se um arrastão adaptado para navegação de cabotagem que, segundo informação do capitão, espanhol, deverá entrar brevemente em actividade. Disseram-me que era propriedade de um emigrante cabo-verdiano disposto a meter mais duas unidades ao serviço, caso o negócio corra bem.
Na posse destes elementos, aprazámos a partida para a quarta feira seguinte, ao meio dia.
O bulício que precede os preparativos para a largada é indescritível. No pequeno cais, para além das pirogas com destino a Bubaque e Bolama, atracam também as embarcações da pesca local. Pescadores, intermediários e vendedores de peixe, atropelam-se no frenesim do negócio, procurando abrir caminho à força de buzinadelas das decrépitas viaturas que conduzem. Ali mesmo, com o chão de cimento do cais a servir de expositor, montículos de peixe acabado de descarregar é apreçado por donas de casa que procuram algo com que guarnecer a panela, ao menor preço possível.
A tudo isto, somam-se os táxis e toca-tocas, carrinhas de nove lugares onde por norma viajam o dobro dos passageiros e respectivas bagagens. Chegam também as camionetas que vêm descarregar as mercadorias despachadas. Porque as pirogas não transportam apenas os passageiros e sua tralha. No porão seguem também materiais de construção (cimento, telha e tijolos, chapas de zinco, tintas e ferragens etc.), leitos, colchões e outras peças de mobiliário, paletes de bebidas, mercearias, sacos de batatas e cebolas, enfim, tudo o que uma população necessita tendo como única moeda de troca, o óleo de dendém ou peixe seco. Estes produtos ocupam praticamente todo o espaço livre da embarcação, acomodando-se os passageiros sobre a carga, como podem.
Quem vai ao mar avia-se em terra. Assim fizemos, o Rui Pedro e eu, ao decidir criteriosamente o que deveríamos levar dentro das mochilas nesta viagem de elevado risco. Pois, para além de um excelente colete salva-vidas para cada um, que tinha viajado connosco desde Lisboa – homem prevenido vale por dois –, nada, e até os sapatos foram substituídos por chinelos de enfiar o dedo, de forma a não constituir sobrecarga ou embaraço no momento da aflição se tal viesse a acontecer.
Na quarta feira, ainda não eram 11h30 e já estávamos instalados. Encontrei lugar a meia nau, sentado sobre uma espécie de banco corrido de borda a borda e pernas penduradas sobre o poço do porão. O Rui Pedro, a estibordo, rodeado de sacos de cebolas exalando um odor fétido a putrefacção que ele responsabilizou pelo desencadear do enjoo.
A manobra da largada decorreu normalmente e pouco depois estávamos a navegar num mar de senhoras sob um sol esplendoroso, praticamente sem vento. Era a bonança que precede a tormenta! Calculo que tenhamos navegado cerca de uma hora nestas condições, depois … Primeiro foi o vento, um vento suão de SE, moderado, que fazia com que o toldo de lona começasse a agitar-se ruidosamente contra a estrutura metálica de suporte. Não tardou a agigantar-se e em vez do flap, flap da lona, o que se ouvia era um silvo tão forte quanto o uivo do dragão de S. Jorge. O céu escureceu, ficou da cor do chumbo, anunciando um crepúsculo precoce. As primeiras ondas atingem a embarcação pelo través de estibordo e imprimem-lhe um movimento de rolling, ainda assim suportável, mas que começava a causar mal estar aos passageiros. Alguns começam a engodar! Subitamente, o ribombar de um trovão por cima de nós foi como que o sinal para que todos os elementos de um inferno tempestuoso se encarniçassem contra a frágil piroga e seus ocupantes. O vento soprando em rajadas violentíssimas rebentou com as peias que fixavam a capota à respectiva estrutura, a chuva fustigava-nos por todos os lados. Os tripulantes, empoleirados na borda e correndo o risco de serem projectados para o oceano, tentavam remediar os estragos. Vagas de mais de três metros atacam de proa e través, a barcoleta agitava-se num movimento complexo que pôs toda a gente a clamar pelo gregório. A chuva de tão intensa, deixa os pilotos às cegas; a guiá-los têm apenas a luz dos relâmpagos, agora contínuos. Percebo então porque é que não aproam à vaga para maior conforto dos passageiros e segurança da embarcação. Receiam perder-se, já que seguem um rumo fixo em cada um dos sentidos. Sem pré aviso, o desastre faz-se anunciar; num balanço mais forte, o lado de bombordo fica debaixo de água! Os receios passam a pânico quando três homens à proa e outros tantos à ré, formando uma cadeia de baldes, não conseguem dar vazão à água que a cada golpe do mar inunda o porão, tornando a embarcação mais pesada. O silêncio dos passageiros, na sua maioria Bijagós e habituados à monção, só é quebrado por uma espécie de litania que não entendo. Pergunto ao meu companheiro do lado, um natural das ilhas, professor primário de regresso em gozo de licença, o significado daquela espécie de murmúrio colectivo. Diz-me que sendo a maioria dos passageiros animista, imploram os espíritos, para que nos deixem chegar.
Foram três horas de verdadeiro calvário até começarmos a navegar ao abrigo das ilhas. Gradualmente, a meteorologia foi-se tornando mais favorável e a chegada ao cais de Bubaque dá-se pelas cinco horas da tarde, novamente com um tempo primoroso.
Percorremos as duas centenas de metros que nos separam do povoado subindo uma rua bastante inclinada, em cujas bermas as enxurradas abriram o leito de pequenos riachos que chegam a ser tumultuosos a cada bátega. Uma das primeiras casas é uma espécie de cantina onde se vende de tudo um pouco. Abastecemo-nos com pão e latas de atum para o lanche e partimos à procura de alojamento. Por mero acaso, dirigimo-nos ao resort do Fontes, logo ao dobrar da esquina. Recebe-nos com simpatia e diz-nos que por telefone recebeu informações de Bissau que punham em causa a possibilidade do nosso transporte chegar ao destino! Dado que é ele o responsável pelo único meio de comunicação existente na ilha, apressa-se a informar quem de direito que afinal tudo correu melhor do que o esperado. O Fontes é um homem simpático de cerca e cinquenta anos, antigo funcionário do Hotel Bijagós. Com o encerramento daquela unidade tentou a sua sorte e mandou construir quatro bungalows em alvenaria, de forma circular, semelhantes aos nossos moinhos de vento. Lá dentro, duas camas geminadas que se podem afastar, lençóis limpos, uma ventoinha de teto que só funciona do pôr do sol até às dez da noite. Na casa de banho, limpa e funcional, o chuveiro decorativo e o inevitável banho balanta, de púcaro e alguidar.
Fornece-nos os talheres para o lanche e, a nosso pedido, vai à zona do cais comprar peixe fresco para grelhar. Por sugestão sua, terá arroz de tomate como acompanhamento. Como ainda tínhamos perto de duas horas de luz solar, aproveitámos para dar um passeio a pé pelas imediações e fazer algumas fotografias.
É noite fechada quando regressamos ao resort. À nossa espera, numa espécie de esplanada coberta a capim, o Fontes luta com a teimosia de um fogo desmancha prazeres, obstinado em libertar mais fumo do que calor. O seu filho, um rapazito de onze ou doze anos, procura animar o ambiente substituindo cassete após cassete num rádio gravador. Sentadas a uma das mesas encontram-se três jovens na casa dos vinte anos, muito produzidas, que nos vieram dar as boas vindas. Quando o peixe a saber a fumo vem para a mesa, são as primeiras a espetar o garfo. Alto aí, digo eu, e peço ao Fontes que traga uma nova travessa para onde trasfego um certa quantidade de arroz. Sem peixe! Provavelmente por discordância com o cardápio, as jovens retiraram-se em silêncio e a noite serviu efectivamente para dormir e descansar da terrível viagem.
Dado que a terra pouco mais tinha para oferecer ao visitante para além do que já havíamos visto, resolvemos partir no dia seguinte. Pelas 7h30, já com o pequeno almoço tomado, uma manhã escorrida e soalheira convidava ao passeio, que retomámos no ponto onde havia sido interrompido no dia anterior. Às 11h00 estávamos de novo no cais, aguardando ordem de embarque. A viagem Bubaque-Bissau fez-se sensivelmente com o mesmo número de passageiros, cerca de trinta, mas muito menos carga, apenas alguns cestos de castanha de coconote. Largámos, e tudo indicava que iríamos ter uma viagem em que seríamos compensados da tormenta do dia anterior. E assim foi, enquanto tivemos as outras ilhas à vista, que àquela hora apresentavam uma beleza luminosa, com praias de areia muito branca bordejadas de palmeirais e águas tépidas de cor verde turquesa. Porém, logo que entrámos em mar aberto, tudo se precipitou tão rapidamente que nem houve tempo para interiorizar a mudança. As condições de mar e de vento eram idênticas às do dia anterior, para pior. Mas, dado que a piroga estava muito mais leve, parecia que rodopiava como uma casca de noz numa prova de rafting. A certa altura apercebemo-nos que os nossos companheiros começavam a libertar-se de todos os seus haveres. Muitos chegam a descalçar-se e tiram algumas roupas. As mochilas que tanto eu como o Rui Pedro levávamos traçadas sobre o peito, começaram a chamar perigosamente a atenção. Olhares repreensivos davam-nos a entender que o nosso comportamento não era do agrado dos demais. Pela nossa parte, receávamos dar a conhecer a existência dos coletes salva-vidas, os únicos existentes na embarcação, por receio de que na iminência de termos que abandonar o barco nos viéssemos a transformar num cacho humano com destino ao fundo do mar. Quando um dos passageiros deitou a mão a uma das correias da minha mochila e fez tenção de a retirar, fui forçado a abri-la e mostrar o seu conteúdo, um colete salva-vidas cor de laranja. Pois apesar do delicado da situação, as pessoas que se encontravam à nossa volta sorriram, um sorriso apaziguador como quem diz, estes brancos têm esperteza na cabeça, e aí, percebemos que todo aquele aparente desconforto dos nossos companheiros não era mais do que preocupação com a nossa sorte no momento de saltar para a água.
Já com o ilhéu do Rei à vista, o vento pareceu amainar um pouco, mantendo mesmo assim uma intensidade tal que a manobra de atracação foi tentada e repetida durante cerca de uma hora, tal era a força com que nos afastava do cais. Ao pôr o pé em terra, sãos e salvos, tivemos a nítida certeza de que a nossa hora não chegou por um irrepetível golpe de sorte. Desta viagem, para além da simpatia e preocupação dos Bijagós para com o nosso destino, guardo a imagem de um cais onde se apinhavam centenas de pessoas que gritavam e saudavam os recém chegados, porventura duvidando de que se tivessem salvo, tais eram as condições de tempo e de mar.
Como não há duas sem três, vamos esperar pela terceira, já que a segunda aconteceu numa descida do Amazonas, de Manaus para Belém. Fica para um próximo post.

Juan