segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

50 - O Mundo é realmente pequeno!

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O Joaquim da Mota Longo, Joaquim Arenga para os amigos, num anexo do seu quintal onde passa o dia a exercitar-se!

À minha direita, o Joaquim Arenga e mulher. À esquerda, o Zé Xanandoa.

O casal Joaquim e Maria Mota Longo.

Com o José Gonçalves (Xanandoa) em casa do Joaquim, seu sogro.

Prestando ouvidos aos relatos históricos do Joaquim Mota Longo.

Com o Albino ao centro e o nosso já conhecido amigo Melim.

Ou será que a pertinaz curiosidade e inquietude do Homem, o fazem parecer pequeno?

Prometi no post anterior que não deixaria por muito tempo os meus amigos e visitantes sem notícias da passeata. E quem promete contrai dívida! Por isso aqui vai mais um texto, levezinho como se impõe, para deleite, espero eu, daqueles que aí bem longe do foco dos acontecimentos seguem com interesse as peripécias do giro. E porque a todos agradam, eis mais algumas histórias verdadeiras relatadas na primeira pessoa, sendo o meu papel o de simples escriba que as passou a letra de forma, perdoem o lugar comum.
Há muitos anos, mais de quarenta, tinha eu um amigo de ao pé da porta chamado José Gonçalves, conhecido entre a malta pelo “Xanandoa” devido à colagem que alguém fez entre a sua maneira de ser e a de uma certa personagem da série televisiva que passava na época. Era um rapaz um tanto reservado quando se tratava de alinhar nas macacadas próprias da cambada jovem dos anos 60/70, que se podiam resumir em duas palavras: Gajas e gajas! Penso que o traço fundamental da sua personalidade seria uma “timidez controlada” o que paradoxalmente o tornava o amigo entre os amigos.
Veio a tropa e o Xanandoa foi contemplado com guia de marcha para Moçambique. Eu fiquei a coçá-los por mais uns tempos, com a vantagem de ter um concorrente a menos no que tocava às “piquenas”. Até que chegou a minha vez de saborear umas merecidas férias de canhota na mão nas matas e bolanhas da Guiné. Daqui nasceu um desencontro que duraria muitos anos. O Xanandoa passou à disponibilidade mas não conseguiu adaptar-se àquela espécie de morte lenta que aguardava a maioria dos graduados milicianos regressados do ultramar. Deitou contas à vida contas à vida e, dado que tinha um primo instalado no Brasil no ramo da confecção e tecidos, aviou a mala e rumou a um novo mundo, indo bater à porta do Albino que o lançou no negócio. Desde então apenas nos encontrámos uma vez aquando de uma viagem relâmpago que fez à família após o falecimento dos pais. Palavras de quase circunstância e a promessa de que o visitaria no Brasil, marcaram esse nosso encontro. E passaram mais uns anos até que …
Tendo planeado este périplo com passagem por Campo Grande onde eu sabia vagamente que o meu companheiro de juventude se estabelecera, contactei a Graciete, irmã do meu amigo, a quem saquei o número de telefone do mano. O resto adivinha-se! Os abraços e as “ainda” viris palmadas nas costas, sublinharam a mútua alegria deste reencontro. Visitei o seu estabelecimento, localizado numa das mais nobres avenidas do centro da cidade, assim como o do primo Albino, inteirei-me do seu sucesso a nível empresarial, soube que casou, descasou, teve filhos que prosseguem carreiras independentes e frutuosas. Mantem uma relação filial com o sogro, sr. Joaquim da Mota Longo, outro conterrâneo que vim aqui conhecer, natural da Charneca, Pombal.
Ao inteirar-se da nossa próxima partida, o José Gonçalves ficou inquieto, quase nervoso. Tinha as suas razões e entre elas avultava o forte desejo de nos apresentar, a mim e ao Luís, ao senhor Joaquim seu sogro. O que acabou por acontecer e, a pretexto de um lanche, acabaria por nos proporcionar uma noite memorável.
O Joaquim, – vou usar o tratamento familiar -, quase na casa dos noventas, habita uma vivenda típica de gente abastada, com piscina e tudo, numa área residencial de primeira, na periferia da cidade. Recebeu-nos em calções e postura descontraída, tipo ó meu dá cá um bacalhau já que és da minha terra, abraço forte e jorros de cordialidade. A seu lado, a esposa D. Maria sublinhava com um sorriso tímido cada gesto do marido.
Já á volta da mesa, a minha ilimitada curiosidade quanto a figuras que representam pedaços de História viva como é o caso do Joaquim, levou-me a abusar da sua natural paciência e bonomia, colocando-lhe pergunta sobre pergunta, às quais respondeu sempre com o maior detalhe e visível satisfação. Fiquei assim a saber que chegou ao Brasil com mulher e filhos, sem vintém, há mais de cinquenta anos. Depois de uma breve passagem pelo Rio como caixeiro viajante de uma renomada casa de tecidos de São Paulo, acabaria por ser desterrado para o Mato Grosso do Sul, devido à animosidade de um colega, quando o estado era mesmo mato e do grosso. Área de negócio, manteve-se; tecidos por atacado e a varejo.
O Joaquim desse tempo foi, como muitos portugueses que aqui chegaram, um ícone do pioneiro dotado pela natureza ou pela necessidade de uma boa dose de aventureirismo. Tanto quanto um fura vidas, foi também um fura matos, pois ser caixeiro viajante nesse tempo e por estas redondezas, significava viajar dias e noites a fio em carros pouco confiáveis, por estradas de terra que ora ficavam submersas, ora desapareciam engolidas pela vegetação. Do seu ferramental faziam parte uma corda para desatascar o automóvel à força de boi quando era o caso, uma serra capaz de traçar uma árvore caída na picada ou ajeitar madeira para um improvisado pontão e ainda combustível e farnel para o que desse e viesse. Numa dessas viagens, contou ele, a estrada apresentava ao longo de toda a sua extensão aqueles pequenos sulcos a que os brasileiros chamam “costela de vaca” e que produz a conhecida e desagradável vibração de toda a estrutura do automóvel. Por ela viajou quilómetros e quilómetros até que o radiador … caiu! Indicaram-lhe então um “jeitoso” que poderia compor o dano. Era um homem já entrado na idade. Na vastidão do território, vivia num lugar tão remoto que não foi fácil dar com ele. Recolocou o radiador na posição adequada e enquanto executava o serviço foi-se abrindo com o Joaquim a quem confidenciou a sua profunda tristeza por se ter auto-condenado a uma vida de ermita. Muitos anos antes envolvera-se com outros numa tramóia que ficou conhecida pelo caso Alves dos Reis. Prestes a cair nas malhas da justiça, fizeram-no abandonar o país à socapa e assim chegou ao Brasil com o compromisso de nunca revelar a sua verdadeira identidade nem por qualquer via comunicar com a família. Esta, segundo ele, já o teria dado como morto havia anos. Dos outros, nada mais soube.
Noutra ocasião, pessoas amigas e entre elas clientes seus residentes lá onde judas perdeu as calças, pediram-lhe boleia para um sujeito que por ali aparecera uns dias antes e se revelara tão boa pessoa que conquistara a amizade geral. De início, o Joaquim ficou radiante com a possibilidade de viajar com companhia. Mas cedo se apercebeu que essa companhia não era assim tão boa. Em desespero e pressentido que o seu companheiro não passava de proeminente ladrão, começou a queixar-se da magreza dos lucros do seu negócio, acabando por “formalizar” o pedido de um empréstimo com que pudesse ao menos comprar o combustível necessário para chegar até casa. Com esta estratégia terá desincentivado o bandido do seu jeito quase certo de encostar a peixeira à barriga ou o “45” à cabeça da vítima. Soube pouco depois que o seu passageiro era conhecido pelo “Mão Branca”, devido a uma lesão de vitíligo que lhe descorava a pele de uma das extremidades. Reputado criminoso, responsável por diversos assassínios a sangue frio, procurado por todas as polícias do país, viria a ser encurralado e abatido pelas autoridades após mais um crime. Desta feita, a vítima fora um rico negociante de diamantes que com avultada quantia dentro de uma pasta se dirigia ao seu avião particular com o objectivo de efectuar pagamentos aos garimpeiros. Conta o Joaquim, que morreu com a pega da pasta na mão depois de esta lhe ter sido arrancada pelo facínora.
As histórias não acabariam por aqui, mas dado que esta já vai tão longa, faço um notável esforço de contenção (!), para não correr o risco de vos aborrecer até ao tutano.
Juan_jovi@sapo.pt

sábado, 5 de dezembro de 2009

49 - Campo Grande, capital do MS

Hotel Gaspar, um ex-líbris de Campo Grande. O meu hotel na cidade.

Com o amigo Melim, co-director do hotel Gaspar.

Os quatro estarolas à saída do restaurante Maçarico em Nova Porto XV. Da esquerda para a direita: Luís, moi,Virgílio e Oliveira. Tudo gente com idade para ter juizo!

Este é do bom, mas não é para todos ... !

A arara, um dos símbolos do MS, aqui a servir de cabine telefónica.

O relógio da cidade, junto à Pr. Ary Coelho

Aqui, o "mano" do Jack Nicholson cuida da preparação física para trepar a cordilheira andina!

Antiga estação ferroviária de Campo Grande desactivada nos anos noventa, ninguém sabe bem porquê. Através da linha trans-pantaneira chegavam à capital do estado, pessoas e mercadorias vindas de localidades longíncuas, inclusivé da Bolívia. Uma parte da via encontra-se actualmente em recuperação com fins turísticos, sendo possível viajar de Campo Grande até Miranda.

Uma panorâmica da cidade de Campo Grande.

Antiga estação central dos correios.
Na Capital do Boi!

Aqui estou de novo para mais um parlapiézinho com os meus amigos, viajantes de sofá e revista uns, autênticos papa-léguas outros, (com quem teria muito que aprender!) querendo aqui deixar também uma palavrinha de grande estima para os eternos apaixonados pelos passeios de longo curso, mas … militantemente agarrados às encolhas.
Como devem ter reparado, alterei o título do último post para o actual que me parece mais consentâneo com o desenrolar das operações, que continuam a sofrer de elevado grau de improviso. Na comunicação anterior fiquei-me por anunciar o avanço da "brigada" até Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Partindo de Bataguassu, primeira cidade do estado na divisa com S. Paulo (como por aqui dizem), foi uma viagem de apenas quatro horas e meia em autocarro super-pullman, moderadamente cansativa e algo monótona. A paisagem persistentemente verde, de um verde que já cansa, nada mais pode oferecer para desfastio do “viajeiro” senão cornos, milhares (milhões?) de cornos de boi que aqui ou além se agitam na busca do capim mais fresco e tenro. A chegada a Campo Grande, em 28/11, fez-se sob um calor sufocante e humidade elevadíssima a lembrar-me que aqui quem manda é o senhor Trópico, um gajo que deve ter feito tirocínio nas cafurnas de Lucífer. A meio da tarde caiu um aguaceiro violento que refrescou um pouco a atmosfera, transformando ruas e avenidas em momentâneos riachos de cor barrenta. Instalei-me no Hotel Gaspar, um ex-líbris da cidade co-administrado pelo Sr. Melim, um amigo madeirense que conheci há uns anos aquando de uma visita à minha terra, Pombal. Deixem-me que vos fale um pouco desta instituição campograndense. Trata-se do primeiro Grande Hotel como ostentava no seu nome, construído no estado de MS. Inaugurado em Agosto de 1956, não havia outro que o igualasse em requinte, nem faltava o elevador que conduzia o hóspede ao seu alojamento que podia situar-se no quinto piso … um arranha-céus para a época! Pois esta bem conservada “relíquia” da hotelaria local mantém-se ainda hoje na posse da família do fundador, tendo como directora a Chris, neta do falecido Sr. Gaspar, coadjuvada pelo seu pai Sr. Melim.
A cidade de Campo Grande é uma cidade certamente com histórias mas sem História, dada a sua juventude de apenas 109 anos. Para além de capital política e administrativa onde se concentram os principais órgãos do estado, Campo Grande oferece uma variedade de produtos e serviços aos fazendeiros da região que aqui se deslocam para tratar de seus assuntos. Mas, assim me pareceu, o palpitante coração desta cidade encontra-se no seu campus universitário, afamado pela qualidade dos cursos que aqui se ministram.
Cerca de quarenta e oito horas após a minha chegada, eis que recebo um SMS do Luís, informando-me que estava a caminho. E não era mentira, fui esperá-lo ao terminal rodoviário onde chegou pelas 14h45 do dia 30 de Novembro. A pé, sob uns pingos de chuva grossa, em escassos quinze minutos estávamos no hotel Gaspar para a última noite na capital do MS. No dia seguinte partiríamos de “ônibus”, rumo a Corumbá, the last frontier, banhada pelo grande rio Paraguai, na divisa com a Bolívia.
Resta-me prometer que amanhã haverá mais.
Antes de encerrar o quiosque, mais duas fotografias que ficaram para trás. Esta, mostra o Juanito posando junto ao monumento ao imigrante. A seguinte, mostra um trecho do córrego (ribeiro) Segredo, uma espécie de vala de esgoto que atravessa o centro citadino no sentido leste-oeste. É pena



Abraços do

juan_jovi@sapo.pt

sábado, 28 de novembro de 2009

48 - De São Paulo ao Mato Grosso do Sul

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A bordo do voo da Ibéria, Madrid - S. Paulo.

Em Barajas, Madrid, aguardando o voo de ligação.

Livros de contabilidade de uma fazenda à portuguesa.

O Luís, de vara na mão, colhendo mangas numa rua de Panorama.

Cenas de um casamento: Aguardando a noiva, Inês, na Igreja de Nª Sª da Saúde no Bº de Sta. Cruz em S. Paulo.

A caminho de uma fazenda.

Pormenor do arsenal de um Peão.

O Luís tratando da saúde a um Mc Crispy em Barajas.



Fachada da residência-base de S. Paulo.

Paragem para distribuição de água.

Igreja de Nª Sª da Saúde no bairro de Stª Cruz em S. Paulo, onde no sábado 21/11, se realizou o casamento da Inês, filha dos propritários do Terra Nova.
Fachada do hotel Terra nova em Bataguassu, MS.

Na praia, gigantesca albufeira artificial no curso do rio Paraná em Presidente Epitácio.

Perdido na selva!

Pormenor da artilharia de um Peão.

Posando para a foto ... não é fácil distingui-los!

Preparando o jantar na Fazenda Pombal.

Num trecho de mata nativa no estado de Mato Grosso do Sul.

Operação Machu Picchu (cont.)

Caros amigos e visitantes;

Em primeiro lugar quero dizer-vos que tenho sentido a falta das vossas visitas e comentários. E garantir que, se o Kurt tem andado arredio em notícias, é por boas razões. O que se tem passado explica-se de uma penada. Desde a chegada ao Brasiu, o nosso quotidiano virou um perfeito fandango. Os compatriotas daqui, fazem questão de receber as visitas nos conforme. Um amigo apresenta nóis para outro amigo e este para um terceiro. Ao fim dji um tempinho, você já bateu papo com metade da portuguêsada daqui, almoçou com parentes que nem conhecia, tomou tira gosto em casa de brasileiro, visitou fazenda, montou a cavalo, esfolou borrego, bebeu no córrego, esteve presente em casamento e boda dji ouro e até recebeu proposta pa noivá! E cadê o projecto Machu Pichu? Quasi tá indo para o cano, né?

Pois bem, como eu não quero que vos falte nada, aqui vão as primeiras notícias acerca do “empreendimento”. Eu e o meu amigo Luís Ferreira embarcámos nesta aventura num voo da Ibéria que partiu de Lisboa cerca das 21h00 de 17/11. Quarenta e cinco minutos depois chegávamos a Madrid. Depois foi só engolir um Mac Crispy, percorrer quilómetros de corredores entre os terminais de Barajas e “saltar” de um avião para o outro que nos trouxe até S. Paulo. Viagem longa e algo cansativa, mas menos aborrecida do que seria se tivéssemos viajado durante o dia. A meio do trajecto, uma passageira foi acometida por um treco dos diabos e dado que à pergunta se havia algum médico a bordo ninguém piou, lá entrou o Juan de serviço. Vai-se tornando habitual e se correr sempre tudo bem como até aqui, ainda acabo a viajar à boleia!

Chegada ao aeroporto de Guarulhos, S. Paulo, pelas 8h00 de 18 de Nov. onde após desembaraço das formalidades do SEF e Alfândega, nos juntámos a um casal amigo, o Manuel da Cecília e mulher (ela é a Cecília!), que nos aguardava no átrio do aeroporto. Conduziram-nos até ao Parque Novo Mundo, um bairro de S. Paulo, onde tivemos o privilégio de usufruir em regime de exclusividade, de uma bela moradia, a “casa do senhor Fernando”, que ainda nem tive o prazer de conhecer, apesar de se encontrar a residir em Portugal.
Tendo como ponto de partida esta “base” situada praticamente no coração da cidade, iniciámos o roteiro das visitas e festejos que se prolongou por nada menos do que uma semana. Aproveitando as deslocações para revisão da matéria dada sobre transportes públicos nesta grande metrópole, fizemos um sassarico pelos arredores utilizando a sua excelente rede de Metrô, ônibus e comboios regionais. Num destes passeios demos uma saltada até Campinas com janta, pernoita e almoço do dia seguinte em casa de amigos de velha data, a família Meira.
Quando eu já nem me lembrava do que me tinha trazido a este país, eis que o meu “sócio” Luís saca o seu plano secreto e “orienta” outra estadia, desta vez em Bataguassu, no Mato Grosso do Sul. Foram mais de 700 Km feitos de uma tirada e vejam só, à boleia de outros dois grandes amigos, os senhores Oliveira e Virgílio, do Éden Bar de Campinas, que por coincidência tinham uns afazeres lá para aqueles lados. Foi uma viagem tão prazenteira que nem demos pelo passar do tempo. Às onze da noite estávamos em Bataguassu petiscando uma saborosa tilaia frita num restaurante típico, acompanhada, pela minha parte, com muita água e guaraná. Querem ver que ainda vou engripar outra vez?

Fomos recebidos pelo casal Joaquim e Cecília (outra Cecília), tios do Luís, que nos proporcionaram uma estadia inolvidável. O hotel Terra Nova de que são proprietários, situado no coração da cidade (Bataguassu), é uma verdadeira preciosidade. De dimensão e estrutura “familiar”, é gerido pela Cecília, pessoa de uma sensibilidade invulgar, alma de poetisa e também exímia artista plástica com formação académica de nível superior nessa área. Se o Joaquim, seu marido, foi o arquitecto como gosta de nos lembrar, a Cecília decorou cada recanto do hotel com trabalhos de pintura de sua autoria que, a meu ver, bem mereciam figurar numa exposição ao lado de “profissionais” reconhecidos.
Como não há mal que sempre dure nem bem que não acabe, hoje pela manhã tive que dar corda aos sapatos e de ônibus, cheguei pelas 15h00 a Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Têm caído fortes aguaceiros que revigoram o capim de que o gado se alimenta. Através da janela do autocarro pude observar uma paisagem monótona, em tudo semelhante à pampa Argentina, onde milhares e milhares de rezes da raça nelori pastoreiam livremente. Também se avistam vastos campos de soja, a cultura da moda por estas paragens. Criação de gado e culturas industriais como a da soja, cana do açúcar e oleaginosas não podem deixar de ter o seu impacto no meio ambiente. Mas este é um país imenso, com uma população de 200 milhões de pessoas que encontram no sector primário a principal fonte dos seus recursos.

No momento em que redijo este texto, são duas horas da manhã. Aguarda-me um pesado dia de trabalho pelo que tenho que abreviar! Estou instalado no hotel Gaspar situado no centro, propriedade de um português meu conhecido, o Sr. Melim. O Luís vai ficar mais um dia ou dois com os tios Joaquim e Cecília, devendo dar à costa entrtanto para ambos atravessarmos a fronteira com a Bolívia em Corumbá, que fica a um pulo daqui. Depois seguiremos para Santa Cruz de la Sierra, La paz e Cuzco. Darei notícias mais tarde. Até lá, sonhem com viagens e de preferência, pratiquem. Com o frio que aí faz, vão pensando como será andar por aqui, aconchegados por um bafo de uns trinta grauzinhos à sombra, de chinelo no dedo, calções e T shirt!
Juan_jovi@sapo.pt

terça-feira, 10 de novembro de 2009

47 - Objectivo: Machu Pichu!

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Machu Pichu, imagem da Net.

Caros amigos e visitantes;
De regresso ao “serviço activo”, aqui estou para vos dar conta dos últimos desenvolvimentos em matéria de planeamento da próxima “expedição”. Tal como anunciei em post anterior, através do qual enderecei convite a eventuais companheiros de aventura, tenho estado profundamente embrenhado nos preparativos da próxima viagem que englobará a região do Pantanal Brasileiro, a Bolívia, o Peru e, eventualmente a Colômbia. De tanto ver e rever possíveis itinerários traçados em mapas, até os olhos me doem! E mesmo assim, há decisões que só poderão ser tomadas localmente. São aquelas que têm a ver com possíveis cortes de circulação rodoviária ou encerramento de fronteiras relacionados com o mau estado da pavimentação de estradas e pontes, geralmente afectadas por grandes enxurradas nesta altura do ano, em que as chuvadas chegam a ser cataclísmicas. Depois foi o estabelecer de algumas “bases” de apoio, incluindo as residências de amigos e conhecidos de outras andanças, ao longo de um percurso que terá cerca de 12000 Km, só no continente sul-americano. Nos últimos dias dediquei-me a fazer algumas pesquisas sobre o Notebook mais indicado para manter o contacto e proceder à sua aquisição. Actualmente encontro-me na fase de arrumação da mochila seleccionando os ítems indispensáveis à realização do projecto. A primeira manga Lisboa – Madrid – São Paulo está prevista para a próxima semana. O dia do embarque não está ainda definido devido à greve do pessoal da Ibéria. Em São Paulo, cidade de mil encantos e de que nunca me canso, ficarei uns dias a descansar das 13 horas de voo, aproveitando para visitar mais alguns ícones da arte e cultura mundiais que esta grande metrópole tem para oferecer. Seguirei depois por via rodoviária para Campo Grande, capital matogrossence do sul esperando entrar na Bolívia pela fronteira de Corumbá, seguindo depois para Santa Cruz de la Sierra e La Paz. Se tal não for possível, terei de prosseguir para Cuiabá, capital do estado de Mato Grosso, procurando atingir a partir daqui a mesma cidade de Santa Cruz. Como terceira alternativa, tenho hipótese de voar de Campo Grande para Rio Branco no Acre e entrar directamente no Peru pelo posto fronteiriço de Assis, seguindo depois para Puerto Maldonado e Cuzco. Não vos incomodarei por ora com mais pormenores pois espero fazer um relato circunstanciado sobre as peripécias de cada troço que enviarei para o Kurt sempre que tenha Internet disponível e à borla, já que o preço do roaming é incomportável.
Então até breve, e para todos um abraço do,
juan_jovi@sapo.pt

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

46 - Bonança!


Imagem da Net.
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Ao 12º segundo dia de hibernação forçada a que a desgraçada gripe me condenou, começo a sentir e a responder ao apelo das teclas. Meio combalido, reitero aos amigos e visitantes a vontade de continuar a elaborar sobre viagens e seus projectos. Agora que o Inverno está para assentar arraiais, os destinos prazenteiros que o hemisfério sul nos oferece tornam-se irresistíveis. Cheiros, cores e sabores, paisagens de sonho, vibrantes comunidades humanas e até o ruído da passarada, são um consolo para o corpo e a alma que se reforça a cada nova visita. Disso e de outras coisas constará o esboço do próximo raide a que deitarei mãos dentro de dias, e que através do Kurt trarei ao vosso conhecimento.
Até lá,
juan_jovi@sapo.pt

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

45 - Quem anda à chuva, molha-se!

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Imagem da Net
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Pois é! Chegou com pezinhos de lã, dava a entender que não passaria de um ameaço. Abafei-me, abifei-me e dei um derrote no laranjal. Com o aproximar do fim de semana começou a pôr as garras de fora, principalmente ao nível da faringe. Parece que o tareco esteve a aguçar as unhas no meu gorgomilo. Recolhi a penates esperançado que o sistema imunitário daria conta do recado dado que, com a minha idade, pelo menos um primo do bandido já fez do meu canastro alojamento. E até parecia que estava a ficar melhorzinho, obrigado. Tanto assim que ontem (domingo) à tarde até fui ao Bodo das castanhas, uma festa e feira anual numa localidade próxima chamada Vermoíl. A retaliação não se fez esperar, passei a noite de levante e pela manhã estava feito num oito.
Não sei se é a dos porcos, das rolas ou dos grilos, nem me interessa, já que antes de mim, os familiares apanharam todos o mesmo cacimbo, fui o último resistente. Nesta espécie de paraquistão vou aguardar por melhores dias, o que até nem é só desvantagem. Tenciono aproveitar para dar início aos trabalhos de preparação da próxima viagem. Na verdade, o projecto já está meio alinhavado, falta entrar nos finalmente, ou seja nos aspectos mais concretos como o onde dormir, onde comer, de ônibus ou de avião etc.
Aproveito para dirigir o convite à comunidade, caso alguém me queira acompanhar, o nosso destino será o PERU. Bora lá?
juan_jovi@sapo.pt

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

44 - Shorts, bermudas, calças ou calções?

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Imagem: kimrichter.com

Foto de: oglobo.globo.com

Dicas aos viajantes.
Reporte ao post nº 9 de 28/08/2009
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Ao assistir aos telejornais de hoje, notei com pesar o relevo dado aos últimos desenvolvimentos sobre guerra civil em curso nalgumas favelas do Rio de Janeiro. Muitos mortos e, estranhamente, parece não haver feridos ou presos! Dir-se-ia que as autoridades fazem o seu papel que basicamente, consiste em limpar as favelas e infundir o sentimento de segurança à população. Qualquer pessoa, a começar pelos próprios cariocas, aplaudirá todas as medidas visando a tranquilidade das pessoas e salvaguarda dos seus bens. Neste ponto estaremos todos de acordo, por maioria de razão aqueles que já foram vítimas de assalto, sequestro, intimidação ou outra forma qualquer de crime violento, e no Brasil eles são-no com muita frequência. A questão está no modo como o fazem.
É difícil aceitar que os responsáveis políticos, militares e policiais relacionem a onda de violência com ordens de serviço emitidas por comandos que se encontram engaiolados numa prisão de alta segurança no estado do Paraná. Enquanto os (pequenos) operacionais do crime vão sendo eliminados pela tropa e pela polícia, os seus chefes parecem ter mão livre para continuar a recrutar e dirigir o narcotráfico a partir da prisão.
Não estamos a falar de marginais munidos de sofrível escupeta, faca de mato ou seringa com sangue de galinha. Trata-se de pessoal aparentemente com formação militar, apto a manusear armamento sofisticado a ponto de derrubar helicópteros, capaz de se bater, taco a taco, com a força armada do Estado. Uma organização desta natureza exige uma logística pesada. Definir a hierarquia na cadeia de comando, operacionalizar uma rede de comunicações, garantir o remuniciamento, tomar decisões quanto à disposição no terreno e estratégias de combate, não são pêra doce nem mesmo para profissionais.
Como é que tudo isto acontece à luz do dia no país mais poderoso do continente sul-americano?
A conclusão só pode ser uma; embora com algumas perdas na infantaria, os barões estão a ganhar a guerra porque o seu poder estende-se muito para além do limitado espaço das respectivas celas. Nalgum ponto têm que existir "complacências" a alto nível. Não falo em promiscuidades entre poderes porque não sou investigador, não tenho provas e como tal, não tenho o direito de apontar o dedo a ninguém. Mas que a bota não bate com a perdigota, parece-me evidente.
Além disso, o que me importa é poder continuar a viajar pelo mais belo país do Mundo, como tenho feito, de Amapá até Pelotas. Sempre na maior tranquilidade e segurança entre o mar e a montanha, da selva amazónica à selva urbana. Conheci várias favelas e tudo o que encontrei foi gente boa, trabalhadora, preocupada em encher a barriga aos filhos e mandá-los para a escola. Não me senti mais inseguro do que em alguns bairros suburbanos do nosso país onde volta e meia se desenrolam batalhas campais e os habitantes mais antigos e pacatos se vêm forçados ao confinamento do lar ou ir morar para outro local. Ao invés, os habitantes das favelas amam o seu sítio e o espírito de comunidade que tão bem sabem cultivar. Nunca fui vítima nem sequer testemunha de qualquer acto de violência. Antes pelo contrário, os brasileiros são particularmente cordiais e atenciosos para com os portugueses. Meio a brincar, já me disseram que americano, inglês, francês … é tudo gringalhada, mas “português é dá família, rapais!”.
Todos, e não apenas o Saramago, sabemos que onde existirem dois homens, há probabilidade de sangue derramado, violência física e psicológica, inveja, cobiça e consequente apropriação de bens alheios. O viajante tem que ter em conta esta herança humana de modo a saber comportar-se em meio estranho, potencialmente hostil, culturalmente diferente do seu.
Em algumas partes por onde tenho andado, verifico amiudadamente que nem sequer há o mínimo respeito pela miséria e sofrimento dos povos anfitriões. Manifestações ostensivas de riqueza perante seres humanos que esgravatam o alimento no chão ou em lixeiras, não são apenas um insulto mas também um perigoso incentivo a qualquer forma de agressão.
Quem não presenciou a petulância de certos bandos de galhardos turistas, carregados de anéis, relógios e outras jóias de elevado valor, passeando-se entre pobres e famintos como se estivessem de visita à quinta?
Ao meu amigo visitante com tarimba nas viagens, nada tenho a ensinar. Aos outros, peço licença para sugerir o seguinte:
Não ofendas os indígenas com a tua abastança. Veste-te com simplicidade, come com frugalidade. Enfia o chinelo e o calção se fores à praia, atavia-te como toda a gente para ires ao restaurante, às compras ou assistir a um espectáculo. Na rua, cumprimenta as pessoas com quem cruzas, em particular os vendedores ambulantes que se dirigirem a ti. Oferece-lhes um aceno ou um sorriso e pede "por favor" sempre que precisares de alguma informação.
Respeita as instituições e autoridades ainda que te pareça que a sua formação fica abaixo do desejável. Esforça-te por aprender algumas palavras ou frases da língua local, e se estás com alguém da tua nacionalidade, evita falar em tom agressivo ou muito alto; ninguém precisa saber que és forasteiro e assim evitarás um mau encontro na esquina seguinte. Não abuses da câmera de filmar, guarda-a no bolso e se quiseres colher imagens, repara primeiro se existe algum dístico a proibi-lo. Se fizeres close-ups de pessoas em mercados, praças ou jardins, pede-lhes autorização e não esqueças que em quase todo o mundo é proibido filmar aeroportos, edifícios governamentais tais como esquadras de polícia, quartéis da tropa e tudo aquilo cujo recato o bom senso nos diz que devemos respeitar.
Quanto às jóias, o melhor é deixá-las em casa. E, por favor, se pertences a essa tribo de gente loura, perna esbranquiçada e à vista, sandália ou sapatão nº 45, casquette de tenista e sinais exteriores de riqueza, tem cuidado. Para todos os efeitos é como se fosses portador de um pirilampo a dizer … assalta-me … assalta-me!
Respeita sempre esta máxima de ouro:
Em Roma, faz-te romano!