segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

54 - La Paz: Imagens de um city tour.

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Após uma caminhada de quatro horas e meia a pique, atingimos o ponto mais alto da cidade. Ficámos a saber que nos encontrávamos no Bº do Sagrado Coração, uma vasta área comercial e residencial situada num planalto a 4060 metros de altitude. Na foto, obtida num parque desta zona, o Luís posa ao lado de uma escultura do Che feita de pedaços de metal recuperados da ferralha.
No miradouro do Sagrado Coração, junto a uma escultura representativa de Jesus Cristo.
Uma vista do mesmo miradouro.

Uma vista da cidade de La Paz a partir do miradouro do Sagrado Coração. Repare-se no formigueiro urbano constituído por milhares de habitações construídas com tijolo cozido, não rebocado, que praticamente não contrasta com a cadeia montanhosa que rodeia a cidade.
A escalada. Nas costas do Juan, note-se o tipo de carreiritos que têm de palmilhados por quem quer chegar ao topo da Serra, como os paceños denominam a elevação onde se encontram as antenas retransmissoras.

Um alto ou bairro popular situado num ponto elevado da cidade.

Outro alto. Ao fundo o pico coberto de gêlo do Illimani ou águia dourada.
Aqui, o Luís reabastece arrecadando uma sandes de pollo num restaurante de rua.

Um mercado domingueiro ao ar livre, num bairro popular.

Centro. Igreja de S. Francisco em frente da qual aterrei vindo directamento do aeroporto, a meia hora de carro, no dia da chegada (4 Dez).
A avenida onde se encontra o nosso hotel (Columbus).

No hotel, às voltas com o Magalhães tentando pôr a escrita em dia para não defraudar as expectativas dos meus seguidores!

Num restaurante de nível superior (situado no primeiro andar!). À mesa com o Martin e o Luís.

Interior do mesmo restaurante. Parece e é, uma casa de antiguidades!

Varanda do mesmo restaurante onde a tabuleta nos diz muito aproriadamente "Aqui onde o ontem é hoje".

A Feira das Bruxas. Rua comercial onde se pode aquirir uma mézinha tradicional para qualquer tipo de encrenca, seja ela do corpo ou da alma.

Uma rua comercial da Baixa onde se vende sobretudo artesanato.
Na foto de baixo, uma vista do Vale da Lua a norte de La Paz.
No Vale da lua. Este campo de futebol fica a 4000 metros de altitude!

O Vale da Lua é um parque natural onde grandes massas de arenito esculpidas pela água das chuvas e ventos, assumem formas Gaudianas a fazer lembrar a Sagrada Família de Barcelona.

A entrada do parque Vale da Lua.



Um almoço com consequências ...


No post anterior, tínhamos ficado a acompanhar a noite eleitoral através da TV no quarto do hotel Columbus em La Paz. Referi também que esse dia (6 Dez. 2009), tinha sido particularmente duro em termos físicos já que tínhamos decidido – e cumprido! – o objectivo de atingir o ponto mais alto da cidade à cota de 4060 metros a partir do seu centro, através de um exercício de caminhada. A meio da tarde estávamos de regresso, esfalfados e famintos, sem o consolo de ter por perto nem que fosse um modesto restaurante, encontrando-se todos encerrados por determinação governamental por ser dia de eleições. Encontrámos um numa rotunda muito próximo do hotel, modestíssimo, onde se vendiam chorizitos grelhados no carvão ao ar livre, pão e coca-cola. Para não me alongar, direi apenas que tão frugal refeição me pareceu um banquete. A mim, não ao meu sócio Luís! O dito chorizito tinha de facto a forma do enchido conhecido por nome semelhante entre nós. Quanto ao conteúdo, bem … não correspondeu. Tratava-se de uma massa pastosa de carne picada como se fosse para hambúrguer, bastante condimentada, completamente crua no interior e que se esborrachou mal a apertei ligeiramente dentro do papo-seco. Acerca do animal de onde proveio, enigma total dado que por estas paragens se come cerdo e gado vacún, para além de bichos um pouco estranhos como iaque, llama, vicunha etc. Esta descrição quase exaustiva da nossa merenda não teria o menor cabimento, não fossem as consequências que poderiam ter sido desastrosas para o desenrolar futuro da nossa viagem. É que o amigo Luís não tardou em apresentar sinais evidentes de intoxicação alimentar que ocultou com todo esmero, enquanto pôde. Só no dia seguinte me confessou que tinha passado a noite de levanto devido a uma real caganeira e a uma não menos majestática vomitadeira! Recorrendo à farmácia de urgência que sempre me acompanha, propus-lhe o tratamento adequado que iniciou de imediato assim como hidratação abundante e dieta sem resíduos. A fase aguda da maleita cedeu em vinte e quatro horas, deixando no entanto uma anorexia moderada que levou o Luís praticamente ao osso. Contudo, a minha máquina não recalcitrou! Porque tive mais sorte com o meu quinhão? Ou porque já cá moram os sete alqueires e meio da dita que cabem a cada um de nós e or isso já estarei imunizado? Não pensem os amigos que só entrámos em restaurantes chunga. Também frequentámos alguns de nível superior (situados no primeiro andar!), como aquele cuja fotografia se reproduz, onde o Luís sempre aberto a experiências gastronómicas acabou por rejeitar o belo bife de llama que encomendou, por lhe saber a fígado de porco! Houve outras aventuras de faca e garfo que ficarão para calenda apropriada.
Antes de terminar, quero reportar o excelente city-tour em que tivemos oportunidade de visitar os locais mais turísticos de La Paz na companhia do nosso guia e motorista, senhor Martin, detentor de vasta cultura geral e grande profissionalismo, que bastante nos ensinou acerca dos aspectos mais marcantes da vida social, política e económica do seu país.
juan_jovi@sapo.pt

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

53 - De Santa Cruz a La Paz.

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"Columbus", o nosso hotel em La Paz.



La Paz, Plaza de Armas. Na foto de cima, Igreja de Nª Sª de La Paz. Nesta, pode observar-se ao fundo, anexo à Igreja, um edifício com a bandeira hasteada onde o Presidente tem o seu gabinete de trabalho.

Pl. de Armas. Ao fundo, o edifício do Congresso.

Pl. de Armas. À esquerda, a fachada da Basílica de Nossa senhora de La Paz, padroeira do país.

O Luís junto ao Monumento da Pl. de Armas.

La Paz. Uma rua comercial do centro histórico.

Outra rua da cidade de La Paz.

La Paz. Viela da cidade velha.

O Luís com o nosso guia Martin numa rua de La Paz, que dá acesso ao Museu etnográfico.

Museu etnográfico de La Paz. Nesta fotografia, uma cholita (jovem solteira), usa o sombrerito ligeiramente inclinado sobre a testa dando assim indicação aos eventuais pretendentes de que se encontra descomprometida. Esta jovem viveria numa zona baixa dada a cor clara do vestuário que se torna mais escuro à medida que a região de origem sobe em altitude.

Museu etnográfico de La Paz. A foto representa uma chola, mulher aymara casada. Usa um sombrerito feito por medida (para que não caia), numa posição perfeitamente horizontal relativamente à testa. Note-se a característica manta tecida à mão a partir de materiais muito resistentes e indeformáveis em que entra a lã de vicunha, iaque ou lama. A mulher ata as pontas da manta sobre o peito transformando-a numa espécie de alforge no qual transporta os filhos pequenos, as compras ou os produtos que vende na praça ou na rua. As mãos devem manter-se permanentemente livres.

Traje de um varão Inca.
La Paz. Pormenor da Casa-Museu do patriota Pedro Murillo.

La Paz. O centro e os altos.

La Paz. Miradouro de Kelly.

La Paz. Vista panorâmica a partir do miradouro de Kelly.

La Paz. Nesta foto pode observar-se o espinhaço montanhoso da cordilheira andina rodeando a cidade. Ao fundo avista-se uma das antenas que nos serviu como ponto de referência durante a escalada até ao miradouro do sagrado Coração.
La Paz, outra vista a partir do miradouro de Kelly.
La Paz, uma vista da cidade com um grande plano do seu Estádio.

O tempo começava a escassear. Os dias de folga em São Paulo e Bataguassu iriam custar-nos a reformulação do plano de viagem de modo a chegarmos a Cusco até à data limite de 8 de Dezembro, devendo contar já, nessa data, com os indispensáveis 3 ou 4 dias de aclimatação à altitude. Iríamos por isso curto-circuitar o trajecto deixando para segundas núpcias preciosidades como Cochabamba, a capital do chaco, Sucre e Potosi. Tomada a decisão, voamos com a Aero-Sur de Santa Cruz para La Paz, a capital boliviana, onde chegámos pelas 14 horas de 4 de Dezembro. Foi um voo tranquilo, feito sob condições atmosféricas excepcionalmente favoráveis o que nos permitiu visualizar toda feérica beleza da cordilheira andina com picos cobertos por neves eternas, gargantas profundas cavadas entre escarpas nuas e lá no fundo, pequenos vales de um verde luxuriante acompanhando o curso de rios ou bordejando pequenos lagos alimentados pelas águas do degêlo. Na quase monocromática paisagem, predomina o tom ocre matizado pelo branco resplandecente dos glaciares. Numa cortesia do comandante e sua tripulação, fizemos um sobrevoo em círculo sobre a cidade com uma fantástica aproximação ao Illimani, um cume nevado com mais de cinco mil metros de altitude que parecia estar ali á mão. Este pico domina a região de La Paz e o seu nome significa numa língua local águia dourada porque, explicaram-nos, quando tingido pelos raios do sol poente, o seu contorno sugere uma refulgente águia preparando-se para levantar voo. O desembarque fez-se sem sobressalto, mas mal havíamos percorrido as primeiras dezenas de metros do túnel que nos conduzia à área de recuperação de bagagens e já estávamos sem fôlego! Bem nos tínham avisado de que devíamos tomar uma infusão à base de folha de coca a que os locais chamam soroche. Segundo eles, ajuda a combater o mal da altitude que aqui se cifra pelos quatro mil metros. Não estávamos sós nesta incapacitante miséria, outros em condição idêntica, pura e simplesmente detinham-se a cada passada, davam pequenas palmadas sobre o tórax ou abanicavam a mão em leque à frente do nariz. Para maior desconforto, estando nós vestidos com T shirt e calções, um aguaceiro gélido abateu-se sobre a área do aeroporto no momento em que procurávamos transporte para o centro da cidade situado à distância de uma meia hora de carro. Claro que havia táxis disponíveis cujos condutores disputavam a atenção dos eventuais clientes, mas por norma adoptámos o transporte público como meio para os transfer.
Pela módica importância de cinquenta cêntimos de euro cada, tomámos assento numa viatura a que os brasileiros chamavam pirua (já não existem) e assim chegámos ao centro, tendo apeado frente à Igreja de S. Francisco. Uma curta mas esfalfante caminhada a pé - era a subir e de mochila às costas! -, conduziu-nos até à Praça do Estádio em cuja proximiade encontrámos alojamento, tendo ficado instalados no hotel Columbus, situado na rua Illiani a poucos metros da referida praça.
Vista de cima, La Paz é uma cidade no mínimo estranha! Imagine-se a cratera de um extinto vulcão ou um enorme lago que em dado momento evaporou, deixando em seu lugar uma gigantesca depressão no solo com mais de quatrocentos metros de profundidade situada a três mil e seiscentos metros de altitude. No fundo deste buraco imaginário temos o núcleo histórico da cidade rodeado por menos de meia centena de prédios modernos de maior volumetria. É a zona mais quente e húmida, onde se situam os edifícios do governo, blocos de apartamentos, comércio formal e sedes das multinacionais. Temos depois, localizados a meia encosta, os bairros nobres, constituídos por vivendas de excelente qualidade, mais ou menos ajardinadas, pertença de gente com evidentes sinais exteriores de riqueza. Segue-se uma espécie de anel viário que faz a transição com os Altos, nome dado aos bairros populares que trepam encosta acima até ao planalto situado a mais de quatro mil metros. São centenas de milhar de habitações, algumas bastante precárias, outras abrigando famílias de classe média ou média-alta, tendo em comum o facto de nenhuma se encontrar rebocada ou pintada! Motivo: Logo que a obra fica concluída, o município lança sobre o imóvel um imposto que muitos munícipes consideram incomportável. Como medida defensiva e talvez como forma de protesto, ninguém conclui a construção. O visitante não avisado, ficará perplexo ao contemplar de um dos vários miradouros da cidade este oceano de paredes e telhados de cor única, a do barro cozido.
Verdadeiro formigueiro humano, o alto tem as suas avenidas, ruas e vielas, possui hospital e centro de saúde, abastecimento de água, saneamento e luz eléctrica. Nas suas artérias mais largas realizam-se feiras e mercadinhos semanais, mas há também comércio formal, correios e ciber-cafés. Os transportes são quase monopólio de candongueiros que apregoam os vários destinos a partir de carrinhas tipo furgão que circulam de porta aberta, onde é possível meter 14 passageiros numa viatura de 8 lugares e condutor! Também circulam pequenos autocarros municipais de tromba avançada, bastante antigos, pintados com cores garridas.
Mais acima, a uma ou duas centenas de metros da margem da depressão, ficam as habitações mais humildes. Aqui não há nada, nem mesmo ruas ou caminhos, apenas carreritos onde os pés resvalam no pavimento saibroso escalavrado pela chuva. Os telhados são de chapa de zinco ou materiais recuperados a partir de qualquer escombreira. O cheiro nauseabundo denuncia a ausência de rede de esgotos ou simples latrinas. Os seus habitantes são mais esquivos evitando o contacto com estranhos. A ligá-los ao planalto, existem a certos intervalos alguns lanços de escadaria em cimento. Cada um destes degraus não terá mais do que 20 centímetros de altura e representa para pessoas não habituadas à altitude obstáculos de difícil transposição, exigindo um esforço comparável ao do alpinista quando escala os picos mais altos do planeta. Para que tenham uma ideia da dificuldade, dir-vos-ei que no dia 6 de Dezembro, dia de eleições em que o país literalmente parou como é tradição para que os cidadãos possam votar em segurança, eu e o Luís decidimos subir a um destes altos. Do ponto onde iniciámos a escalada à cota de 3600 mts até ao miradouro do Sagrado Coração situado nos 4060 mts, a distância rondará os 2Km. Necessitámos de quatro horas e meia para o percorrer e só não houve desistências porque atingido um ponto de não retorno, onde nem o socorro seria possível, houve que apelar até ao limite das nossas forças e continuar, um degrau a cada cinco minutos, e assim atingimos o planalto. Experiência a não repetir! Para nossa surpresa, além das torres de telecomunicações que nos tinham servido como pontos de referência durante a escalada, deparámo-nos com uma importante área comercial e residencial, restaurantes, hotéis e uma portagem de auto-estrada, aquela que liga o aeroporto ao centro da cidade. Como só os veículos prioritários, os da imprensa e dos observadores internacionais estavam autorizados a circular, tínhamos pela frente o problema do regresso, que a ser feito a pé e desta feita por estrada (30Km), conduziria à hecatombe! Dirigi-me aos agentes da polícia de trânsito que na área da portagem controlavam os raros veículos que passavam com grandes dísticos afixados nos para-brisas, expliquei-lhes a nossa delicada situação e obtive autorização para pedir boleia no único carril (passagem) em serviço. Em menos de dois minutos estávamos a bordo de uma pick-up do jornal La Prensa que se dirigia em serviço de reportagem a uma mesa de voto situada a menos de cinquenta metros do hotel Columbus. Foi a confirmação do lema “a sorte protege os audazes”, perdoem-me a imodéstia.
Seriam umas cinco e meia da tarde, estávamos em casa e havia apenas uma última questão por resolver, a do onde jantar, já que tínhamos sido avisados que todos os estabelecimentos da cidade capazes de nos prestar esse serviço estariam encerrados, incluindo o restaurante do hotel. Nessa manhã, tinha reparado nos vendedores ambulantes de comida instalados junto à rotunda da Praça do Estádio onde desembocava a rua do nosso hotel. Com os seus fumarentos e olorosos grelhadores a carvão a atraírem a clientela, para lá nos dirigimos e debaixo de um pequeno toldo de plástico que uma rabanada de vento não tardou em mandar pelos ares, tomámos um opíparo lanche ajantarado constituído por uma sandes de frango mais um chorizito grelhado entalado num papo-seco e umas goladas de coca-cola à temperatura do chá. Uma benção para quem, depois de um esforço tremendo, nada tinha ingerido desde o pequeno almoço desse dia. O resto da tarde e parte da noite, dedicámo-la ao tema das eleições que seguimos pela TV, tendo-se confirmado bem cedo mais uma folgada vitória do presidente Evo Morales. rwesto da história virá a seguir. Até lá, queiram aceitar as minhas cordiais saudações e votos de Feliz Ano Novo.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

52 - De Corumbá a Santa Cruz de la Sierra.

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Aguardando a partida do "Trem da Morte" em Puerto Quijarro, Bolívia.

Viajando no ferrobus para santa Cruz de la Sierra.

O interior da carruagem que afinal não era tão má como o nome fazia supor.
Junto a Crumbá, na divisa entre o Brasil e a Bolívia.
Aguardando o voo de Santa Cruz par La Paz que se encontra com duas horas de atraso. Enquanto isso, o Luís não perde tempo e actualiza-se lendo o último número da Veja, adquirido no Brasil.

No aeroporto de Santa cruz. Mochilita ao lado e a Veja a repousar. Olhem-me só para aquele ar de prosperidade!

Uma vista panorâmica da cidade de Santa Cruz de la Sierra, obtida a partir do miradouro da torre da igreja de S.Lourenço.
Terminal rodo-ferroviário de Santa Cruz, onde desembarcamos após 16 horas de viagem no trem da morte, vindos de Puetro Quijarro junto à fronteira com o Brasil.

No centro da cidade ainda existem algumas destas casas centenárias a recordar-nos como terá sido Santa Cruz na época da sua fundação.

Aqui, o Luís refresca-se no bar do hotel Copacabana.

Igreja de S. Lourenço, fronteira à Plaza de Armas em Santa Cruz, construcção dos séc. XIX e XX.
O "nosso" hotel em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia.

Aldeia rural boliviana da região entre Puerto Quijarro e Santa Cruz.

Outro povoado rural da mesma região.
Hoje, 24 de Dezembro e véspera de Natal, é tempo para dirigir a familiares e amigos uma palavra que expresse toda a estima e carinho que nutrimos por eles. Aqui vai um pensamento especialmente fraterno para os que se encontram em viagem, por razões de trabalho, lazer ou aventura, e que ao contrário de nós não têm a possibilidade de gozar dos prazeres do corpo e da alma próprios desta quadra, no aconchego dos seus lares. Para todos, os meus sinceros votos de Boas Festas e que o próximo ano permita a concretização dos vossos sonhos em todas as áreas, particularmente no que diz respeito às viagens! E à laia de prenda para o sapatinho, envio-vos mais este texto acompanhado de uma dose extra de fotografias.
No último contacto ficámos às portas da Bolívia numa cidade brasileira de Mato Grosso do sul chamada Corumbá, na margem esquerda do rio Paraguai. Do outro lado temos a pequena povoação de Arroyo Concepción, onde se situa o posto fronteiriço boliviano com as respectivas instalações aduaneiras e de controlo da imigração (passaportes). São instalações estratégicas com “ambiente” próprio que é de todo o interesse conhecermos antes de as franquearmos quando tal é possível, naturalmente. Observando atentamente como é que a coisa funciona, podem evitar-se alguns contratempos no momento de solicitar a almejada autorização de entrada, materializada pelo carimbo no passaporte. Com esse intuito, eu e o Luís tomámos um autocarro local na manhã do dia 2 de Dezembro cerca de quinze minutos depois fomos despejados conjuntamente com algumas dezenas de outros passageiros na boca de um carreirito que lhes evita diariamente a chatice e demora próprias dos controlos formais. Esse caminho flanqueia o posto policial a escassas dezenas de metros e é do perfeito conhecimento das autoridades, não receando estas qualquer perigo ou ameaça resultante da movimentação transfronteiriça das populações locais que se deslocam livremente na sua ida às compras ou para efeitos de trabalho. Feito o reconhecimento, ficámos a saber como se processava a fiscalização de bagagens (inexistente) e a verificação de documentos.
A pé e sob uma chuvinha molha tolos, percorremos os cinco quilómetros que nos separavam de Puerto Quijarro, em cuja estação adquirimos os bilhetes para o famoso “trem da morte” no qual embarcaríamos pelas dezoito horas desse mesmo dia, rumo a Santa Cruz de la Sierra. A designação dada a este comboio não apresenta qualquer relação com a realidade actual e terá a sua origem, segundo alguns, no elevado número de trabalhadores vítimas de acidente durante os trabalhos de construção da linha. Dizem outros que as mortes foram causadas pela epidemia de dengue que grassava na região afirmando uma terceira teoria que o nome se deve aos inúmeros assaltos e homicídios que ocorreram nas suas carruagens durante os primeiros anos de funcionamento. Facto é que viajamos num tipo de transporte "expresso" que não tem equivalência no nosso país, pois trata-se de uma composição designada por “ferrobus” (máquina +1carruagem), capaz de fazer o trajecto de Puerto Quijarro a Santa Cruz em cerca de dezasseis horas, quando o comboio normal necessita de vinte e seis horas para realizar o mesmo percurso. O nosso ferrobus estava limpo, tinha aquecimento, item não negligenciável quando se atravessa a espinha oriental da cordilheira andina durante a noite, refeições servidas no lugar, assento reclinável até à posição de semi-cama, música e cinema num monitor de dimensões generosas. Se exceptuarmos os saltos e abanões a que fomos sujeitos devido ao deficiente estado da via, até se poderia dizer que a viagem tinha sido agradável.
Às dez da manhã de 3 de Dezembro chegámos ao moderno terminal bi-modal de Santa Cruz. Chovia e o calor era de novo intenso, condições meteorológicas prevalecentes no chaco, região plana e de baixa altitude que vai até e para além de Cochabamba. A parte da viagem onde a orografia era mais acidentada foi feita durante a noite mas, ao alvorecer, começámos a distinguir o mesmo tipo de cercas e de grandes manadas de bovinos que já se tinham tornado familiares desde a entrada no Mato Grosso (Brasil). Disseram-nos que estes seiscentos quilómetros de boas terras que percorremos não têm mais do que uma dezena de proprietários, sendo o mais importante o grupo norte americano Cargill, o que faz destas fazendas propriedades gigantescas. A região parece gozar de certo grau de prosperidade comparativamente com o restante território boliviano, o que juntamente com disputas de natureza étnica tem alimentado fervores autonomistas que conduziram ao referendo realizado em simultâneo com as presidenciais de 6 de Dezembro, não obtendo o Sim mais do que 27% dos votos. Recorde-se que nestas eleições que seguimos ao pormenor a partir do nosso hotel em La Paz, Evo Morales saiu vencedor com mais de sessenta por cento dos votos.
Do terminal até à Plaza de Armas – note-se que quase todas as cidades fundadas na época da colonização espanhola têm a sua Plaza de Armas como nós temos o Rossio – não decorreram mais do que dez minutos de táxi. Aqui chegados, não foi difícil encontrar hotel, casa de câmbios ou restaurante. Afinal, estamos na segunda cidade da Bolívia, uma espécie de capital económica, dinâmica, culta e conservadora. Na sua Universidade são leccionados os mesmos cursos que encontramos em qualquer congénere europeia. Possui museus, casas de arte e cultura, galerias de exposições etc. É servida por dois aeroportos dos quais o deficientíssimo Trompilho trabalha com as linhas domésticas enquanto o moderno Viruviru está vocacionado para as ligações internacionais.
Instalados no Copacabana situado a uma das esquinas da Plaza de Armas, tivemos o privilégio de assistir a um comício político em tudo semelhante aos que se realizam cá no burgo, até na maledicência! Mas também apreciámos o bulício dos agradáveis fins de tarde nas praças e jardins da cidade, em que centenas de pessoas, dos mais jovens aos mais experientes, vêem para a rua gozando a frescura de uma brisa que sempre se segue a um repentino aguaceiro. Nestes locais não faltam os mini-espectáculos ao ar livre nem os vendedores ambulantes de gelados ou bebidas, que passam e tornam a passar sem contudo importunarem ninguém, nem mesmo apregoando os seus produtos.
A terminar, o relato na primeira pessoa de um percalço que poderia ter tido graves consequências não fora o alerta de um recepcionista/bagageiro do nosso Hotel. Pode também servir como chamada de atenção para outros e demonstra como os criminosos são capazes de se transfigurar na imagem da autoridade genuína para atingir os seus nefandos objectivos. Seguia eu quase a par com o Luís por uma das ruas do centro numa manhã de movimento particularmente intenso, quando o meu companheiro de viagem foi interpelado por alguém que a partir da janela de uma viatura 4x4 estendeu o braço exibindo uma identificação supostamente policial, conforme vim a saber pouco depois. Não querendo dar qualquer “confiança” ao interpelante, avancei alguns passos aguardando que o Luís se desembaraçasse do chatarrãoe me alcançasse. Não tardou porém que o meu amigo viesse ao meu encontro com este discurso:
- Venha daí porque ele diz que quer falar consigo …
- !?!?!?
Aproximei-me do jipe e indaguei:
- O que é que se passa?
Sem sair do interior do carro, o tipo começa a debitar uma treta mais ou menos intimidante reforçada pelo assentimento de um comparsa que entretanto se aproximou:
- Trata-nos com respeito porque nós também te estamos a falar com respeito!
Dito isto, exibe um cartão tipo multibanco onde constava uma identificação cuja autenticidade ninguém podia garantir ou negar, nem sequer a da própria fotografia. E continuou:
- Esta é uma cidade praguejada pelo narcotráfico e por isso, nós como autoridade, temos por missão identificar os estrangeiros que por aqui passam para nos assegurarmos que não estão ligados a qualquer actividade ilícita. OK? Os teus documentos?
O arrazoado tinha sido tão convincente que lhe passei o passaporte para as mãos. Entretanto, obedecendo a "ordens", o Luís já estava sentado no banco de trás do carro. Foi apenas quando o bandido me ordenou que entrasse também que um flash me passou pela cabeça e, recordando o alerta do Benito, saquei-lhe o passaporte da mão e ao mesmo tempo que ordenava ao Luís que apeasse, berrei:
- Polícia sem uniforme, não!
Recordando uma brincadeira dos meus tempos de garoto, “Ó senhor guarda, prenda-me aquele polícia!”, eu próprio gritei:
- Polícia, polícia, chamem a polícia, onde é que está a polícia …
Com este chinfrim, os gatunos não tiveram outro remédio senão pôr o pé no acelerador, entraram no caudal do trânsito e desapareceram. Só então reparei que o “coche”, aparentando ser novo, nem sequer exibia a placa de matrícula traseira.
Deste modo nos livrámos de um mais do que provável enxerto de porrada se não fosse coisa pior, corremos o risco de ficar sem os documentos e perder todos os haveres por meio de chantegem ou coacção directa.
Aqui fica de novo o alerta e mais uma vez o nosso muito obrigado ao Benito do hotel Copacabana.
Continuação de Boas Festas e agora também já são horas de eu ir às filhozes. Saudações do
Juan_jovi@sapo.pt

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

51 - De Campo Grande a Corumbá.

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Imagens de Corumbá.





Pessoal amigo e visitas, estou de volta, cheguei. Com a ajuda do Luís Ferreira, meu companheiro nesta aventura, o Machu Picchu é nosso! Ao cabo de um mês de viagem, nove descolagens e outras tantas aterragens, vários milhares de quilómetros por via rodo e ferroviária dos quais umas centenas à boleia, uma tentativa de assalto com sequestro e um furto consumado particularmente doloroso entre outras vicissitudes, eis-nos de regresso ao nosso querido rectângulo, de que vamos gostando mais a cada saída.
Imaginava eu, à partida, que através das novas tecnologias de que o meu novíssimo notebook é distinto representante, poderia actualizar este espaço, se não diariamente, pelo menos com a periodicidade necessária para que os interessados não acabassem por perder completamente o fio às nossas deambulações. Porém, o programa foi demasiado intensivo para que tal objectivo pudesse ser concretizado, ainda que os meios técnicos (Wi-Fi) fossem quase omnipresentes e estivessem disponíveis em tudo quanto era hotel, aeroporto, terminal rodoviário ou estação de CF, lanchonette etc. É que para além dos trechos em que nos fizemos transportar por meios “mecânicos” todo o reconhecimento topográfico das vilas e cidades por onde passámos, bem como a visita a locais de interesse foi feito “à lá patita”, de mapa na mão e mochila às costas. De maneira que, à chegada ao local de pernoita, geralmente tarde e a más horas, já não havia disponibilidade para mais nada que não fosse conciliar o necessário repouso para poder recomeçar o ciclo do dia seguinte, que não raras vezes teve início antes do nascer do sol.
Dadas as necessárias explicações para a compreensão desta prolongada falta de comparência, retomo hoje o trajecto no ponto em que o deixei, Campo Grande, capital do estado brasileiro do mato Grosso do Sul. Deixando o Gaspar, hotel nos onde nos havíamos instalado por quatro dias e três noites, partimos pelas 07h15 de 01 Dez. rumo a Corumbá, cidade situada na margem esquerda do rio Paraguai junto à fronteira com a Bolívia. O meio de transporte escolhido foi o autocarro dado que o comboio transpantaneiro apenas fazia menos de metade do percurso e em datas que não se coadunavam com a relativa urgência em “passar para o lado de lá”. Por outro lado, iríamos atravessar uma das mais belas regiões do planeta em termos de diversidade faunística, o pantanal brasileiro, e só um meio terrestre nos poderia proporcionar o tão desejado contacto visual com a bicharada. A este respeito e em abono da verdade, devo dizer que se a desilusão não foi total andou lá por perto. Graças a Deus, os animais não são tão estúpidos quanto muitos dos ditos racionais e por isso sabem defender-se de intrusos e curiosos como nós que, via de regra, nada de bom trazemos às suas existências. Por isso afastam-se com todas as pernas das movimentadas vias de comunicação, deixando-nos a ver … navios!
Os quatrocentos e tal quilómetros foram percorridos em cerca de sete horas e meia numa viatura em bom estado através de uma estrada asfaltada, com alguns troços deficientemente mantidos mas ainda assim perfeitamente transitável. Ao nosso lado, durante uma parte importante do percurso, corria a linha do comboio, o que serviu de triste consolo para o facto de não termos aguardado pela sua partida no domingo seguinte. Se através da janela do pullman não vislumbrámos mais do que água por todo o lado, um jacaré a apanhar banhos de sol, uma capivara que parecia estar-se cagando para nós e bandos de passarada de diversas cores e tamanhos, caso tivéssemos optado pelo “trem” nada teríamos visto de diferente. E a viagem teria sido mortalmente mais demorada e aborrecida.
Chegámos a Corumbá perto das três da tarde. A temperatura rondava os quarenta graus, a humidade e a transpiração colou-nos a roupa à pele mal abandonámos o conforto do ar condicionado do ”ônibus”.
Ainda no terminal, o Luís fez-se à bronca bronca! Apercebendo-se que era nesse local que funcionava o SEF lá do sítio, apressou-se a confessar o gravíssimo delito de ter esquecido em São Paulo o registo de entrada que lhe havia sido entregue pela polícia federal no aeroporto de Guarulhos. O jovem e diligente agente policial apressou-se igualmente a passar-lhe o consequente auto que obrigava o meu parceiro a liquidar no prazo de cinco dias a módica quantia de cento e sessenta e seis reais e oitenta e seis centavos. Entra Pacheco! No dia seguinte voltámos àquele departamento para solicitar o visto de saída para a Bolívia. A estratégia ia montada, atolámos o referido agente em paletes de simpatia, o qual, mediante uma cópia do tal papel enviada via fax a partir de São Paulo, rasgou o processo à nossa frente, limpou o registo na base de dados e perdoou a coima! Os brasileiros têm destas coisas para com os portugueses, o que me apraz registar na expectativa de que haja reciprocidade no tratamento dos brasileiros por parte das autoridades portuguesas. Da rodoviária seguimos de táxi para o hotel Santa Mónica, bem no centro da cidade. Uma curta viagem de pouco mais de cinco minutos que deu para perceber que a cidade já viveu melhores dias.
Não existem prédios de elevada volumetria ou arquitectura arrojada como em muitas cidades do interior do Brasil. O casario situa-se maioritariamente num anfiteatro natural sobranceiro ao rio, por esta altura ainda uma criança. Mil quilómetros a sul, o pachorrento Paraguai irá desaguar no Paraná, próximo da cidade de Corrientes, na Argentina. Ainda mais a sul, Paraná e Uruguai hão-de reunir-se no grande estuário do La Plata situado entre o Uruguai e a Argentina, uma espécie de portagem da extensa auto-estrada fluvial que a partir da costa atlântica penetra profundamente no coração da América do sul.
A zona ribeirinha de Corumbá é flanqueada por uma marginal com cerca de um quilómetro de extensão ao longo da qual podemos apreciar a traça de velhos prédios de estilo claramente “colonial”, datando alguns, certamente, do tempo dos portugueses. A maioria a necessitar de restauro urgente. Um passeio ao longo desta marginal deixa-nos adivinhar o que terá sido o intenso bulício de outrora com uma infinidade de embarcações de todos os tipos sulcando as águas do seu rio, levando e trazendo pessoas e mercadorias de lugares distantes onde só o barco podia chegar. Hoje, muito desse tráfego faz-se por via rodoviária e talvez devido à adesão ao Mercosur, até o velho edifício da Alfândega foi transformado em centro de congressos. Ainda assim, são muitas as embarcações no activo. Umas do tipo “bateau mouche” passeiam turistas levando-os ao interior da região pantaneira ou simplesmente umas milhas rio abaixo, o tempo de um almoço típico a bordo. Outras, mais prosaicamente, dedicam-se à pesca ou continuam a transportar pessoas e seus parcos haveres e quem sabe, algum pó, pois não podemos ignorar que algumas das mais importantes rotas do contrabando de cocaína passam por esta região.
E assim, dou por terminados os trabalhos de hoje. No próximo post farei a descrição da nossa entrada num país um tanto estranho, a Bolívia.
Até lá, cumprimentos do
Juan_jovi@sapo.pt