A nossa expedição ao Machu Pichu aproximava-se dos finalmente.
No dia 9 de Dezembro, ainda não tinham batido as seis da manhã e já estávamos a pé. Estava escuro e um frio intenso quando nos pusemos a caminho da rodoviária situada ao fundo da rua Ponte Rosário. Passada larga e apressada para aquecer, não levou mais do que um quarto de hora até chegarmos à beira de um autocarro que ao lusco-fusco nem deu para perceber que o veículo não pertencia à empresa que havíamos consultado na véspera! Prensados entre populares peruanos encasacados ou simplesmente embrulhados em cobertores, alguns nos braços de Morfeu, arrancámos para uma das viagens mais belas que fiz até hoje.
A manhã clareou seca e com um sol magnífico a incendiar uma paisagem indescritível onde sobressaía a alvura dos picos nevados reflectindo os raios dourados do sol matinal. Lagos e lagoas de um azul cristalino, intercalando belas várzeas, muito férteis a julgar pelo viço das culturas, sucediam-se, ocupando maior extensão à medida que perdíamos altitude. Rolando a uma velocidade que me pareceu excessiva para o traçado de uma via típica de montanha, estreita e cheia de curvas e contracurvas, a nossa camioneta de tromba avançada ia largando e recebendo passageiros em cada povoado que atravessava e nalguns entroncamentos, tal qual as velhas carreiras do Portugal da minha infância e juventude. Às tantas, eram mais os passageiros que viajavam apinhados como sardinha em lata no exíguo corredor do que aqueles com direito a lugar sentado, pelo que alguém gritou: “Isto é um abuso, isto é um abuso … “, ao que motorista e condutor fizeram ouvidos de mercador. Momento digno de registo foi aquele em que o jovem cobrador teve que voar literalmente sobre as cabeças dos passageiros sentados, periclitantemente empoleirado sobre as espaldas dos assentos a fim de proceder à recolha dos poucos soles que custava cada passagem. Para sorte nossa, esta empresa viajava até Olantaitambo e por um pequeno adicional não necessitámos fazer qualquer transbordo.
Em “Olanta”, diminutivo usado pelos locais para designar a sua vila, tivemos oportunidade de passar por mais uma peripécia desta viagem quando decidimos tomar um pequeno almoço no mínimo pitoresco. Numa esquina da praça principal da terreola, uma velhota sebenta vendia uma mistela vagamente parecida com o nosso galão, e apenas no que à cor dizia respeito. Em cima do pequeno caixote a fazer de banca, atapetado a folha de jornal, uma pilha de pães espalmados de forma arredondada servia de conduto. Oferecia-os aos clientes com um pedaço de queijo autóctone encavalitado, muito acre, tragável apenas por apreciadores. Comi o pão, recusei o queijo e o que é um facto é que àquela hora da manhã (08h00), a bebida quente soube-me que nem ginjas.
De riquexó puxado por motoreta seguimos para a estação ferroviária onde chegámos em menos de 10 minutos. Aí, os controlos do costume, com identificação visual, fotocópia dos passaportes e títulos de ingresso no país como se de um posto fronteiriço se tratasse. Alguns minutos e oitenta e seis dólares depois, foi-nos dada autorização para abordar o comboio que nos levaria a Águas Calientes, numa viagem panorâmica com a duração de hora e meia. Connosco viajavam grupos de forasteiros de várias nacionalidades, todos acomodados em lugares reservados, num comboio não acessível aos indígenas, imaculadamente limpo, bastante confortável, assistidos por uma tripulação irrepreensivelmente uniformizada e muito atenciosa. O traçado da linha acompanha na sua maior extensão o canyon do rio Urubama, mas também contornámos desfiladeiros de causar tonturas, comtemplámos vales onde as omnipresentes searas de verdejantes milheirais entrecortadas por manchas de floresta e pastagens, conferem a esta região um toque de ruralidade humanizada que nós portugueses não estranhamos de todo.
Neste mesmo comboio, com partida de Águas Calientes às 19h15, haveríamos de regressar a Olanta depois de uma visita às ruínas para a qual os nossos sentidos foram mobilizados a cem por cento durante seis horas. Na viagem de regresso e após o jantar servido a bordo, tivemos o privilégio de assistir a um desfile de moda para o qual os assistentes de bordo se transfiguraram em manequins dignos de pisar qualquer palco da alta costura internacional. Sobretudo uma jovem peruana que depois de soltar os cabelos e trocar o uniforme pelos modelos que tinha a seu cargo apresentar, arrancou da assistência um ahh … ! de espanto e uma grande salva de palmas. A magana continua a visitar-me nos meus sonhos!
De Olanta a Cusco e dado o adiantado da hora, viajámos de táxi, tendo chegado ao hotel pelas onze e meia da noite, cansados mas de alma cheia. Vistoriar as mochilas e preparar a documentação, foram os actos com que terminámos o dia e preparámos a viagem de regresso a iniciar na manhã seguinte.
Adeus Cusco, até ao meu regresso!
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