segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

58 - Machu Picchu, finalmente!


A nossa expedição ao Machu Pichu aproximava-se dos finalmente.
Partindo de Cusco, Cuzco, Qusqu ou Quosqo (em língua quechua), teríamos que percorrer uma distância de cento e tal quilómetros até ao local das ruínas, havendo várias formas de o fazer. Uma delas seria entregarmo-nos nas mãos de uma agência turística entre as muitas que pululam na região e se dedicam especificamente a esse negócio. A brincadeira andaria pelos 220 dólares por cabeça mas privar-nos-ia do prazer da organização que é um dos aliciantes neste tipo de viagem/aventura. Decidimos por isso fazê-la como independentes, sendo essa a opção preferida por quantos demandam o lendário sítio arqueológico, segundo informação do funcionário do posto de turismo que consultámos à chegada ao aeroporto de Cusco. E aqui, mais duas ou três hipóteses se colocavam: Comboio, táxi ou autocarro? Partindo de comboio da estação de Cusco (v. foto no post anterior), a viagem seria muito demorada o que na prática implicaria uma pernoita em Águas Calientes. E para rentabilizar a viagem de táxi faltavam-nos dois partners, pelo que a solução encontrada foi a seguinte: Viajaríamos de Cusco até Urubamba, cerca de 70 Km, pela viação de Urubamba, daqui até Olantaitambo num transporte local (10 minutos), de Olantaitambo até Águas Calientes, num comboio turístico expresso (1h30), propriedade de uma empresa privada, não fazendo por isso parte da rede ferroviária nacional peruana. Finalmente, o último troço com a duração de cerca de 15 minutos, em moderno autocarro de uma linha que percorre constantemente o trajecto entre o sítio arqueológico, não acessível a viaturas privadas, e o respectivo terminal junto ao mercado e estação de Águas Calientes. Delineado o projecto, havia que operacionalizá-lo, a começar pela recolha de algumas informações complementares, tais como horários, refeições, custos e moeda a utilizar nos diversos pagamentos, visto que em muitos locais apenas aceitavam a moeda local, o sol, ou dóls. USA, quando as nossas reservas estavam em Reais do Brasil e Euros.
No dia 9 de Dezembro, ainda não tinham batido as seis da manhã e já estávamos a pé. Estava escuro e um frio intenso quando nos pusemos a caminho da rodoviária situada ao fundo da rua Ponte Rosário. Passada larga e apressada para aquecer, não levou mais do que um quarto de hora até chegarmos à beira de um autocarro que ao lusco-fusco nem deu para perceber que o veículo não pertencia à empresa que havíamos consultado na véspera! Prensados entre populares peruanos encasacados ou simplesmente embrulhados em cobertores, alguns nos braços de Morfeu, arrancámos para uma das viagens mais belas que fiz até hoje.
A manhã clareou seca e com um sol magnífico a incendiar uma paisagem indescritível onde sobressaía a alvura dos picos nevados reflectindo os raios dourados do sol matinal. Lagos e lagoas de um azul cristalino, intercalando belas várzeas, muito férteis a julgar pelo viço das culturas, sucediam-se, ocupando maior extensão à medida que perdíamos altitude. Rolando a uma velocidade que me pareceu excessiva para o traçado de uma via típica de montanha, estreita e cheia de curvas e contracurvas, a nossa camioneta de tromba avançada ia largando e recebendo passageiros em cada povoado que atravessava e nalguns entroncamentos, tal qual as velhas carreiras do Portugal da minha infância e juventude. Às tantas, eram mais os passageiros que viajavam apinhados como sardinha em lata no exíguo corredor do que aqueles com direito a lugar sentado, pelo que alguém gritou: “Isto é um abuso, isto é um abuso … “, ao que motorista e condutor fizeram ouvidos de mercador. Momento digno de registo foi aquele em que o jovem cobrador teve que voar literalmente sobre as cabeças dos passageiros sentados, periclitantemente empoleirado sobre as espaldas dos assentos a fim de proceder à recolha dos poucos soles que custava cada passagem. Para sorte nossa, esta empresa viajava até Olantaitambo e por um pequeno adicional não necessitámos fazer qualquer transbordo.
Em “Olanta”, diminutivo usado pelos locais para designar a sua vila, tivemos oportunidade de passar por mais uma peripécia desta viagem quando decidimos tomar um pequeno almoço no mínimo pitoresco. Numa esquina da praça principal da terreola, uma velhota sebenta vendia uma mistela vagamente parecida com o nosso galão, e apenas no que à cor dizia respeito. Em cima do pequeno caixote a fazer de banca, atapetado a folha de jornal, uma pilha de pães espalmados de forma arredondada servia de conduto. Oferecia-os aos clientes com um pedaço de queijo autóctone encavalitado, muito acre, tragável apenas por apreciadores. Comi o pão, recusei o queijo e o que é um facto é que àquela hora da manhã (08h00), a bebida quente soube-me que nem ginjas.
De riquexó puxado por motoreta seguimos para a estação ferroviária onde chegámos em menos de 10 minutos. Aí, os controlos do costume, com identificação visual, fotocópia dos passaportes e títulos de ingresso no país como se de um posto fronteiriço se tratasse. Alguns minutos e oitenta e seis dólares depois, foi-nos dada autorização para abordar o comboio que nos levaria a Águas Calientes, numa viagem panorâmica com a duração de hora e meia. Connosco viajavam grupos de forasteiros de várias nacionalidades, todos acomodados em lugares reservados, num comboio não acessível aos indígenas, imaculadamente limpo, bastante confortável, assistidos por uma tripulação irrepreensivelmente uniformizada e muito atenciosa. O traçado da linha acompanha na sua maior extensão o canyon do rio Urubama, mas também contornámos desfiladeiros de causar tonturas, comtemplámos vales onde as omnipresentes searas de verdejantes milheirais entrecortadas por manchas de floresta e pastagens, conferem a esta região um toque de ruralidade humanizada que nós portugueses não estranhamos de todo.
Neste mesmo comboio, com partida de Águas Calientes às 19h15, haveríamos de regressar a Olanta depois de uma visita às ruínas para a qual os nossos sentidos foram mobilizados a cem por cento durante seis horas. Na viagem de regresso e após o jantar servido a bordo, tivemos o privilégio de assistir a um desfile de moda para o qual os assistentes de bordo se transfiguraram em manequins dignos de pisar qualquer palco da alta costura internacional. Sobretudo uma jovem peruana que depois de soltar os cabelos e trocar o uniforme pelos modelos que tinha a seu cargo apresentar, arrancou da assistência um ahh … ! de espanto e uma grande salva de palmas. A magana continua a visitar-me nos meus sonhos!
De Olanta a Cusco e dado o adiantado da hora, viajámos de táxi, tendo chegado ao hotel pelas onze e meia da noite, cansados mas de alma cheia. Vistoriar as mochilas e preparar a documentação, foram os actos com que terminámos o dia e preparámos a viagem de regresso a iniciar na manhã seguinte.
Adeus Cusco, até ao meu regresso!
juan_jovi@sapo.pt

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

57 - Cusco em imagens.

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Uma das portas de entrada de Cusco, junto ao seu centro histórico.

E a rua que se segue ao bonito arco da foto anterior.
Pintura mural representando os principais ícones da civilização Inca.

Obelisco situado num pequeno jardim da cidade no início da via que conduz ao aeroporto.

No exterior de um mercado de bairro ...

... e agora no seu interior ...

... e aqui, no mesmo mercado, na zona dos comedores, uma espécie de cantinas ou restaurantes populares onde se pode tomar uma refeição por cerca de um euro. Para nós o atractivo não foi o preço, mas o privilégio de conviver com os peruanos.

Panelas, panelões, caldeiros e alguidares com alguma javardice pelo meio. Ai se a nossa ASAE fizesse uma visita ... !

Eu não tive qualquer problema em abancar. Uma grande malga de sopa de galina (canja) com macarrão, muito bem temperada com salsa picada e hortelã, um pedação de carne (tora) no fundo e dois troncos de mandioca a boiar ... e fica um homem com uns peitos como um cavalo ... !
Já o Luís revelou alguma relutância e com razão , se considerarmos a real caganeira que o ia vitimando depois do episódio do chorizito em La Paz. Acabou por atacar também e a avaliar pelo ar de satisfação, o manjar até lhe estava a saber bem.

Homenageando os patriotas que lutaram pela independência.

Um edifício ao estilo colonial transformado em museu.

Ao fundo da rua, a igreja de S. .

Pormenor da fachada da mesma igreja.

E outra vista, esta a partir da praça fronteira à la Municipalidad (câmara municipal).
Embora pareça um cortejo de carnaval, trata-se de uma procissão em honra de Nª Sª da Conceição. Tal como em Portugal, o dia 8 de Dezembro é feriado nacional no Peru e estes festejos são muito concorridos e estendem-se a todo o país.

Sobre as ruínas de Karikancha, um palácio (templo?) inca, ergue-se a igreja de S. Domingos.

A procissão é a mesma, figurantes e banda pertencem a outra irmandade.
Procissão com andor.

Pormenor da banda e bailarino em traje tradicional.

Tal como acontece com os foliões que nos desfiles de carnaval representam as diversas escolas de samba brasileiras, também estas irmandades se destinguem pela cor da fatiota e respectivos adornos.
Plaza de armas. A Catedral, ensanduichada entre as igrejas de Jesus Maria e do Triunfo.
Pl. de armas.Pl. de Armas. Igreja da Companhia de Jesus.
Pl. de armas. Procissão com andor.

Outra vista da Pl. de armas e respectivos jardins.

A base sobre a qual assenta a imagem da Senhora é em prata massiça pesando várias centenas de quilos. São necessários 16 varões fortes para transportar o andor. O manto é bordado a ouro.

Pormenor da base do andor em prata. A grande porta da Igreja começa a abrir para permitir que a Senhora recolha.

Mordomos e mordomas com as faixas identificativas das respectivas congregações ao peito ao peito.Estandartes.
Até ao próximo ano, só as pequenas portas da Catedral darão passagem aos fiéis.
As fotos anteriores apresentam três diferentes perspectivas da Plaza de Armas e dos edifícios que a rodeiam, como os arcos e as suas belas varandas em madeira trabalhada. São na sua maioria estabelecimentos muito frequentados pelos turistas (cafés, restaurantes, lojas de souvenirs, agências de viagens, bancos etc).
Estas duas belas e riquíssimas igrejas situam-se na Plaza de Armas. Do lado esquerdo da fotografia podemos ver a Catedral, uma construção do séc. XVII, situada sobre as ruínas do antigo paslácio inca de Viracocha. À direita encontra-se a igreja da Cª de Jesus.

Edifício da Pl. de Armas.
Arco de Santa Clara.

Com o senhor Dartagnan Portugal. Um conhecimento imediato de banco de jardim, que nos seus oitenta e tais revelou ser um profundo conhecedor deste mundo e das tramoias que por cá se praticam.
Igreja das Mercês.

Uma rua do centro histórico num dia feriado.

Uma mulher estátua na mesma rua.

Uma vista da praça fronteira à Municipalidad.

Outra vista dfa mesma praça.

Torreão da Igreja de S. Pedro.

Faculdade de ciências.

Pormenor do arco de Santa Clara.

Igreja de S. Francisco.
.Outra vista da Igreja de S. Pedro e da Pr. com o mesmo nome.
Rua do Mercado Central.






As 6 fotografias anteriores representam outras tantas vistas do interior do Mercado central.
Vendededoras de frutas e hortaliças com banca montada junto à parede exterior nas traseiras do Mercado central.

Uma rua comercial do centro.


Duas fotos da estação dos CF peruanos de onde partem os comboios para Machu Picchu.

O Luís também decidiu ficar na fotografia!

Edifício da era colonial devidamente restaurado.

Cartaz promocional.



Loja de venda de roupas tradicionais.


La Paz, hotel Columbus, 8 de Dezembro de 2009. São 6 horas da manhã; desperto com a ténue claridade que a custo trespassa o ligeiro cortinado que protege o janelão que dá para as traseiras do hotel. Aí funciona o parque auto da companhia eléctrica boliviana onde os técnicos começam a carregar as carrinhas com escadas e escadotes e demais ferramental com que acorrem às chamadas do dia. Em crescendo, chega-me o ruído do tráfego automóvel na avenida Illiani, fronteira ao hotel. O Luís parece dormir profundamente pelo que num primeiro momento decido acordá-lo apenas depois de concluir as minhas abluções matinais. Por outro lado, o meu sócio é daqueles cujo lema é “temos tempo … “ e não raramente acaba entalado em apertos de horário! No meio da minha hesitação, ouço-o resmungar um bom dia estremunhado. Recordo-lhe que o nosso voo para Cusco descola às 09h15 e nestes países excessivamente controleiros para o meu gosto, as duas horas de antecedência que nos impõem para comparência no aeroporto, não nos permitem grandes larguezas. Temos ainda que contar com uma boa meia hora de automóvel até à aerogare, por isso … vamos lá a despachar, digo-lhe eu. Pelas 06h45 já nos encontramos na recepção do hotel com armas e bagagens quando chega o nosso guia e motorista, o senhor Martin, cujo serviço havíamos deixado contratado (e pago!) na véspera. Partimos de estômago vazio dado que a sala do restaurante onde são servidos os pequenos-almoços só abria às 07h00, o que acabaria por nos dar oportunidade de nos desembaraçarmos dos últimos bolivianos despendidos num glorioso mata-bicho “aeroportuário”, uma vez cumpridas as formalidades. Descolámos com sol e uma visibilidade excelente, num voo sem história nem sobressalto. Revimos lá do alto a inesquecível paisagem paceña que tanto nos impressionara à chegada e em breve estaríamos sobrevoando, mais uma vez, a já nossa conhecida cordilheira andina. Do meu ponto de observação a bordo pude contemplar com algum pormenor uma orografia rude e ao mesmo tempo magnífica, qual cartolina enrugada por mão gigante, onde picos nevados aparentando estar mesmo ali ao alcance da mão delimitam desfiladeiros e vales profundos onde verdejam campos de cultivo e lagos de um azul cristalino. Uma das coisas que mais me impressionou foi a observação de sinais de actividade humana a altitudes inimagináveis, tais como construções (abrigos?) e até parcelas cultivadas. Subitamente, as condições meteorológicas alteraram-se e à nossa chegada a Cusco fomos saudados por uma chuva miudinha e gélida, que no entanto, não foi impedimento para ainda no ar, termos uma panorâmica desta encantadora cidade. Encantadora e riquíssima, sobretudo em valores de natureza histórica e cultural já que foi a capital do mundo andino e ao mesmo tempo a cidade sagrada dos incas, mas também pelo dinamismo que a actividade turística lhe confere, muito favorecida pela proximidade de ex-libris como o Vale Sagrado ou Machupicchu. Topograficamente, a cidade é muito fácil de entender; situada a 3360 metros de altitude, possui uma extensa avenida orientada no sentido leste-oeste em cujo topo ocidental uma bela Plaza de Armas, ajardinada e rodeada por magníficos monumentos, é ponto de passagem obrigatória para quantos a visitam. De forma quadrangular, descai ligeiramente para sul, apresentando o lado norte praticamente todo ocupado com uma imponente construção do sé. XVII, a Catedral, onde no dia da nossa visita decorriam os principais festejos em honra de Nª Sª da Conceição. No lado oriental da praça encontra-se a Igreja da Companhia de Jesus, famosa pelo seu rico acervo em objectos de culto manufacturados em ouro e prata puros. A sul e poente, encontram-se as principais estruturas de apoio ao turista como bares, restaurantes, agências de viagens, bancos etc. No raio de apenas duas ou três quadras fica contido todo o núcleo histórico de Cusco, que engloba as igrejas de Santo Domingo, das Mercês e de S. Francisco entre outras, o belo arco de Santa Clara, o município e a sua praça, o mercado central e a estação CF de onde partem os comboios rumo a Machu Picchu, universidade, museus e casas de cultura. Muito parecida com algumas cidades do interior português onde impera o mesmo tipo de construção e a dimensão média dos edifícios não ultrapassa os dois ou três pisos em que predomina a cor branca, ruas mais ou menos rectilíneas dispostas ortogonalmente entre si, confluindo numa espécie de espinha dorsal que é a sua avenida principal, Cusco faz-nos sentir “em casa”. Ficará na minha memória como uma cidade a revisitar obrigatoriamente.
Instalados no hostal Albany, a dois quarteirões da Pl.de Armas, dele fizemos a nossa base para o ataque ao Machu Picchu que abordarei no próximo post.
juan-jovi@sapo.pt