segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

55 - Nas margens do Titicaca.

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Saboreando uma bela trucha à la plancha no restaurante Pan-Americano em Hutajata. Aqui reune informalmente o presidente Evo Morales com o su governo.
S. Pablo nas margens do Titicaca, junto ao estreito de Tiquina.

Monumento em S. Pablo.

Embarcações de recreio no Titicaca, próximo de S. Pablo

Estreito de Tiquina. Embarque de autocarro sobre uma balsa (jangada), de S. Pablo para S. Pedro, do outro lado do estreito.

Balsas em S. Pablo.

Imagem do pequeno Titicaca: muita água (doce), juncos (totora) e montanhas.

Uma ilha no Titicaca.

Um corredor no seio de um "bosque" de totora permitindo o acesso das embarcações ao grande lago.

Um restaurante palafítico e as lanchas de alguns clientes.

Mais balsas em S. Pablo aguardando a chegada de todo o tipo de viaturas.
Embarque de passageiros em lanchas rápidas. Do outro lado, apovoação de S. Pedro.

Uma totora (embarcação de junco) recentemente construída, vigiada por um lama no pátio do Sr. Paulino Estebán.

Outra imagem da totora, evidenciando o pormenor da proa e espaço de carga. O lama não arranca pata (está preso)!

Uma totora com cerca de dois anos, idade em que deve receber cuidados de manutenção.
Tentando fazer amizade com o bicho ...

... que subitamente ficou colérico, mandando-me uma cuspidela. Habitualmente visam os nossos olhos e costumam acertar. Nao foi o caso!

Estas são as instalações do estaleiro de mestre Paulino.

Uma familiar do mestre, lava louça na margem do lago.
Fogareiro em barro com as três vasilhas no mesmo material. Ao conjunto chamam os naturais cozinha.

Tear manual e amostra de tecido confeccionado por familiares do mestre construtor de totoras.

Fotografias expostas na sala de visitas do Sr. Paulino.

Mais fotografias exposta na pequena e vestusta sala onde o mestre recebe as embaixadas de navegadores estrangeiros.

Esta foto mostra em pormenor as únicas ferramentas utilizadas por mestre Paulino na construção das suas embarcações.
Com o Luís, mestre Paulino e mulher no seu atelier. Nesta foto, o nosso anfitrião pediu uns segundos para se compor ... vestindo o poncho por cima da roupa de trabalho que envergava no momento da nossa chegada.

Uma segunda foto, idêntica.
Ao centro, o senhor Paulino Estebán tal qual o encontrámos envolvido nos trabalhos de reparação de uma totora.

Grande abundãncia de juncos ou totora, nas margens do lago.
Mais juncos, estes junto ao "estaleiro" do senhor Paulino Estebán.
Tão extenso e azul, o lago Titicaca parece o oceano.
Com o Luís e o Martin, de costas para o grande Titicaca.

Um encontro inesperado.

Concluída a exploração da capital boliviana e seus arredores, chegou a altura de programar a visita ao lago Titicaca, um ponto alto desta viagem na minha opinião. Para isso solicitámos mais uma vez ao Martin, bom profissional como motorista mas também um guia de primeira água, à nossa disposição desde o momento em que nos instalámos no hotel Columbus, que nos conduzisse à região do lago, situado a cerca de uma centena de quilómetros de La Paz. Deixámos a cidade pelas 07h30 da manhã de 7 Dez., o dia a seguir às eleições, seguindo durante um quarto de hora pela via rápida que faz a ligação ao aeroporto até atingirmos o planalto, rumando depois para leste durante mais uma hora. A viagem foi tranquila através de uma estrada asfaltada e em bom estado, embora com alguns troços em obras. A manhã bastante fria mas ensolarada convidava ao passeio. A paisagem praticamente nua de arvoredo, plana, vasta, e seca, a fazer lembrar uma imensa estepe, apresentava a espaços pequenos tugúrios, isolados ou em aglomerados de não mais do que uma dezena de habitações, à volta das quais se vislumbravam pequenos rectângulos verdejantes irrigados pela água de furos “cooperativos”, onde cresciam favas, batatas, cenouras e outra hortícolas que entram na frugal dieta deste povo. Os aldeãos praticam uma agricultura de subsistência e também criam algum gado vacum, para além dos inestimáveis bichos autóctones (lamas, iaques e vicunhas). Como curiosidade, refira-se que a maior parte do solo se encontra disponível e pertence ao estado e que as zonas cultivadas se encontram a considerável distância da estrada (+ de 500 mts) para desincentivar os ladrões de hortas que por aqui se abastecem. Percorridos uns cem quilómetros, entrámos numa região acidentada, mais quente e húmida, onde pudemos apreciar a existência de uma agricultura relativamente desenvolvida e boas manadas de gado bovino da raça frísia. Sem o saber, estávamos nas margens do lago Titicaca que a minha imaginação tinha pintado como um lugar ermo e gélido, paraíso de antropólogos e caçadores de múmias, mas impróprio para gente comum se estabelecer e prosperar. Afinal havia pousadas, restaurantes, locais para eventos, lojas de souvenirs e tudo aquilo que habitualmente faz as delícias de um turista mais ou menos exigente. Segundo o Martin, o nome do lago deriva do facto de o seu contorno sugerir um puma, titi, numa língua local, a abocanhar um coelho kah-kah, com h aspirado no final. Fizemos a primeira paragem numa localidade chamada Hutajata (lê-se Utagata) e a propósito permitam-me que transcreva uma parte do texto que publiquei em 11 de Agosto de 2009, post nº 4.
“Amigos e futuros companheiros de viagem,
Eu tenho tanta vontade de dar à palheta que nem sei por onde começar. O melhor será entrar pelo princípio e explicar melhor porque é que há muito me apaixonei pelo tema das viagens. Pois, era eu um chavalito de 12 ou 13 anos, muito mais interessado no enigma situado entre as pernas das raparigas do que em lições de história ou geografia, quando certo dia dei de caras numa carrinha da Gulbenkian, com um livrito que relatava as aventuras da Kon Tiki. Este nome, evocativo de uma prestigiada divindade Inca, foi dado a uma jangada que em 1947 participou numa expedição destinada a provar que ainda antes do Cristóvão Colombo ter chegado à América, já os índios sul-americanos se teriam aventurado pelo Pacífico aberto até às ilhas da Polinésia. Construída no Peru segundo o método e com materiais idênticos aos supostamente usados por estes exploradores pré-colombianos, a Kon Tiki teve cerca de três meses de glória até se espatifar nuns baixios do Pacífico Sul. Ao comando, o explorador norueguês Thor Heyerdahl secundado por cinco marinheiros arvorados.
A descrição do quotidiano a bordo falava de peixes voadores que de sua livre e espontânea vontade saltavam para cima dos troncos de balsa, acabando no tacho da deliciosa caldeirada. Bebiam gotas de chuva e refrescavam-se mergulhando livremente nas águas tépidas do oceano com as cores do caleidoscópio, na companhia amigável dos golfinhos. O brilho das estrelas balizava-lhes o rumo em noites de calma, e dos dias tormentosos eu conseguia ouvir o ribombar do trovão e o silvo do vento. O meu deslumbramento foi tal que ainda hoje tenho o “filme” gravado minha memória. Esta leitura foi o clic que despertou em mim o viajante / aventureiro que existe dentro de cada homem. Dizem os especialistas que o pico desta pulsão se situa entre os 15 e os 45 anos. Onde é que eles já vão, e no entanto, a pica não esmoreceu!
Todos e cada um dos anos seguintes da minha vida se subordinaram à utopia de conhecer o mundo. Tanto quanto aquele que cabe nos sonhos.
E aqui estou, semi-novo, semi-tonto e completamente apanhado pela febre da vadiagem como aos 15 anos”.
É sabido que os povos de língua castelhana não são lá grande coisa no que toca a línguas. Desconheço o motivo, mas este é um facto que constatei inúmeras vezes enquanto piloto náutico, quando se tratava de comunicar com outros navios. Ainda em La paz, o Martin tinha-me falado vagamente na “condique”, palavra que na altura não consegui ligar a nada que eu conhecesse. Em Hutajata, insignificante lugarejo das margens do Titicaca, entrámos num pequeno e modesto atelier de paredes forradas com posters alusivos à expedição do navegador norueguês Thor Heyerdahl e uma bancada repleta com as primeiras edições autografadas das obras do famoso navegador e outros aventureiros que fazem da casa do senhor Paulino Estebán, uma espécie de santuário dos lobos do mar de todo o mundo. Percebi então, para meu espanto e grande alegria, que apertava a mão ao homem que construíra a Kon Tiki, em grande medida responsável pela transformação que em mim se operou quando adolescente, acontecimento que nem em sonhos previra. Por este simples facto, poderei sempre dizer que a viagem valeu a pena.
A prová-lo, ali estavam as fotografias obtidas durante as diversas fases da construção da jangada, entre elas uma que mostra o senhor Paulino empoleirado sobre a sua proa, galhardetes, cartas de navegação, planos e insígnias de outras embarcações igualmente imortais. Paulino Estebán, agora a rondar os oitentas, já passou o testemunho aos filhos, mas continua activo e é o principal mestre-construtor de totoras. A totora recebe o seu nome do junco ou totora que cresce espontaneamente nas zonas alagadas das margens do lago entre o sapal e os campos de papas (batatas). Sendo a embarcação típica do Titicaca, a totora é utilizada principalmente na pesca artesanal de que os locais retiram o seu principal sustento. O lago é muito rico em peixe, destacando-se a trucha (truta) introduziada pelos espanhóis e que aqui adquire tamanho invulgar. Degustámos um saboroso espécimen à la plancha num restaurante local, o Pan Americano.
De Hutajata seguimos até S. Pablo, pequena vila situada junto ao estreito de Tiquina. Aqui, o lago que na sua maior dimensão tem 200 Km de comprimento por setenta de largo e quatrocentos metros de profundidade, é dividido por um estrangulamento natural em duas partes, o grande Titicaca e pequeno Titicaca, separados por um istmo de 1 Km de largura. Da sua área total, 45% estão sob a soberania da Bolívia e os restantes 55% pertencem ao Peru. De notar que a Bolívia não possui qualquer acesso ao mar. A partir de S. Pablo segue-se de balsa para S. Pedro, a povoação situada do outro lado do estreito e daí, até à intensamente turística península de Copacabana, é um pulinho em autocarro. Podem fazer-se excursões de barco até às ilhas flutuantes, visitar os quechuas ou seguir para a fronteira bolívio-peruana.
Nota: as restantes fotografias relativas a esta etape da viagem serão publicadas logo que possível dado que neste momento a velocidade do servidor não o permite. Então até breve e saudações do,
juan_jovi@sapo.pt

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

54 - La Paz: Imagens de um city tour.

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Após uma caminhada de quatro horas e meia a pique, atingimos o ponto mais alto da cidade. Ficámos a saber que nos encontrávamos no Bº do Sagrado Coração, uma vasta área comercial e residencial situada num planalto a 4060 metros de altitude. Na foto, obtida num parque desta zona, o Luís posa ao lado de uma escultura do Che feita de pedaços de metal recuperados da ferralha.
No miradouro do Sagrado Coração, junto a uma escultura representativa de Jesus Cristo.
Uma vista do mesmo miradouro.

Uma vista da cidade de La Paz a partir do miradouro do Sagrado Coração. Repare-se no formigueiro urbano constituído por milhares de habitações construídas com tijolo cozido, não rebocado, que praticamente não contrasta com a cadeia montanhosa que rodeia a cidade.
A escalada. Nas costas do Juan, note-se o tipo de carreiritos que têm de palmilhados por quem quer chegar ao topo da Serra, como os paceños denominam a elevação onde se encontram as antenas retransmissoras.

Um alto ou bairro popular situado num ponto elevado da cidade.

Outro alto. Ao fundo o pico coberto de gêlo do Illimani ou águia dourada.
Aqui, o Luís reabastece arrecadando uma sandes de pollo num restaurante de rua.

Um mercado domingueiro ao ar livre, num bairro popular.

Centro. Igreja de S. Francisco em frente da qual aterrei vindo directamento do aeroporto, a meia hora de carro, no dia da chegada (4 Dez).
A avenida onde se encontra o nosso hotel (Columbus).

No hotel, às voltas com o Magalhães tentando pôr a escrita em dia para não defraudar as expectativas dos meus seguidores!

Num restaurante de nível superior (situado no primeiro andar!). À mesa com o Martin e o Luís.

Interior do mesmo restaurante. Parece e é, uma casa de antiguidades!

Varanda do mesmo restaurante onde a tabuleta nos diz muito aproriadamente "Aqui onde o ontem é hoje".

A Feira das Bruxas. Rua comercial onde se pode aquirir uma mézinha tradicional para qualquer tipo de encrenca, seja ela do corpo ou da alma.

Uma rua comercial da Baixa onde se vende sobretudo artesanato.
Na foto de baixo, uma vista do Vale da Lua a norte de La Paz.
No Vale da lua. Este campo de futebol fica a 4000 metros de altitude!

O Vale da Lua é um parque natural onde grandes massas de arenito esculpidas pela água das chuvas e ventos, assumem formas Gaudianas a fazer lembrar a Sagrada Família de Barcelona.

A entrada do parque Vale da Lua.



Um almoço com consequências ...


No post anterior, tínhamos ficado a acompanhar a noite eleitoral através da TV no quarto do hotel Columbus em La Paz. Referi também que esse dia (6 Dez. 2009), tinha sido particularmente duro em termos físicos já que tínhamos decidido – e cumprido! – o objectivo de atingir o ponto mais alto da cidade à cota de 4060 metros a partir do seu centro, através de um exercício de caminhada. A meio da tarde estávamos de regresso, esfalfados e famintos, sem o consolo de ter por perto nem que fosse um modesto restaurante, encontrando-se todos encerrados por determinação governamental por ser dia de eleições. Encontrámos um numa rotunda muito próximo do hotel, modestíssimo, onde se vendiam chorizitos grelhados no carvão ao ar livre, pão e coca-cola. Para não me alongar, direi apenas que tão frugal refeição me pareceu um banquete. A mim, não ao meu sócio Luís! O dito chorizito tinha de facto a forma do enchido conhecido por nome semelhante entre nós. Quanto ao conteúdo, bem … não correspondeu. Tratava-se de uma massa pastosa de carne picada como se fosse para hambúrguer, bastante condimentada, completamente crua no interior e que se esborrachou mal a apertei ligeiramente dentro do papo-seco. Acerca do animal de onde proveio, enigma total dado que por estas paragens se come cerdo e gado vacún, para além de bichos um pouco estranhos como iaque, llama, vicunha etc. Esta descrição quase exaustiva da nossa merenda não teria o menor cabimento, não fossem as consequências que poderiam ter sido desastrosas para o desenrolar futuro da nossa viagem. É que o amigo Luís não tardou em apresentar sinais evidentes de intoxicação alimentar que ocultou com todo esmero, enquanto pôde. Só no dia seguinte me confessou que tinha passado a noite de levanto devido a uma real caganeira e a uma não menos majestática vomitadeira! Recorrendo à farmácia de urgência que sempre me acompanha, propus-lhe o tratamento adequado que iniciou de imediato assim como hidratação abundante e dieta sem resíduos. A fase aguda da maleita cedeu em vinte e quatro horas, deixando no entanto uma anorexia moderada que levou o Luís praticamente ao osso. Contudo, a minha máquina não recalcitrou! Porque tive mais sorte com o meu quinhão? Ou porque já cá moram os sete alqueires e meio da dita que cabem a cada um de nós e or isso já estarei imunizado? Não pensem os amigos que só entrámos em restaurantes chunga. Também frequentámos alguns de nível superior (situados no primeiro andar!), como aquele cuja fotografia se reproduz, onde o Luís sempre aberto a experiências gastronómicas acabou por rejeitar o belo bife de llama que encomendou, por lhe saber a fígado de porco! Houve outras aventuras de faca e garfo que ficarão para calenda apropriada.
Antes de terminar, quero reportar o excelente city-tour em que tivemos oportunidade de visitar os locais mais turísticos de La Paz na companhia do nosso guia e motorista, senhor Martin, detentor de vasta cultura geral e grande profissionalismo, que bastante nos ensinou acerca dos aspectos mais marcantes da vida social, política e económica do seu país.
juan_jovi@sapo.pt

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

53 - De Santa Cruz a La Paz.

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"Columbus", o nosso hotel em La Paz.



La Paz, Plaza de Armas. Na foto de cima, Igreja de Nª Sª de La Paz. Nesta, pode observar-se ao fundo, anexo à Igreja, um edifício com a bandeira hasteada onde o Presidente tem o seu gabinete de trabalho.

Pl. de Armas. Ao fundo, o edifício do Congresso.

Pl. de Armas. À esquerda, a fachada da Basílica de Nossa senhora de La Paz, padroeira do país.

O Luís junto ao Monumento da Pl. de Armas.

La Paz. Uma rua comercial do centro histórico.

Outra rua da cidade de La Paz.

La Paz. Viela da cidade velha.

O Luís com o nosso guia Martin numa rua de La Paz, que dá acesso ao Museu etnográfico.

Museu etnográfico de La Paz. Nesta fotografia, uma cholita (jovem solteira), usa o sombrerito ligeiramente inclinado sobre a testa dando assim indicação aos eventuais pretendentes de que se encontra descomprometida. Esta jovem viveria numa zona baixa dada a cor clara do vestuário que se torna mais escuro à medida que a região de origem sobe em altitude.

Museu etnográfico de La Paz. A foto representa uma chola, mulher aymara casada. Usa um sombrerito feito por medida (para que não caia), numa posição perfeitamente horizontal relativamente à testa. Note-se a característica manta tecida à mão a partir de materiais muito resistentes e indeformáveis em que entra a lã de vicunha, iaque ou lama. A mulher ata as pontas da manta sobre o peito transformando-a numa espécie de alforge no qual transporta os filhos pequenos, as compras ou os produtos que vende na praça ou na rua. As mãos devem manter-se permanentemente livres.

Traje de um varão Inca.
La Paz. Pormenor da Casa-Museu do patriota Pedro Murillo.

La Paz. O centro e os altos.

La Paz. Miradouro de Kelly.

La Paz. Vista panorâmica a partir do miradouro de Kelly.

La Paz. Nesta foto pode observar-se o espinhaço montanhoso da cordilheira andina rodeando a cidade. Ao fundo avista-se uma das antenas que nos serviu como ponto de referência durante a escalada até ao miradouro do sagrado Coração.
La Paz, outra vista a partir do miradouro de Kelly.
La Paz, uma vista da cidade com um grande plano do seu Estádio.

O tempo começava a escassear. Os dias de folga em São Paulo e Bataguassu iriam custar-nos a reformulação do plano de viagem de modo a chegarmos a Cusco até à data limite de 8 de Dezembro, devendo contar já, nessa data, com os indispensáveis 3 ou 4 dias de aclimatação à altitude. Iríamos por isso curto-circuitar o trajecto deixando para segundas núpcias preciosidades como Cochabamba, a capital do chaco, Sucre e Potosi. Tomada a decisão, voamos com a Aero-Sur de Santa Cruz para La Paz, a capital boliviana, onde chegámos pelas 14 horas de 4 de Dezembro. Foi um voo tranquilo, feito sob condições atmosféricas excepcionalmente favoráveis o que nos permitiu visualizar toda feérica beleza da cordilheira andina com picos cobertos por neves eternas, gargantas profundas cavadas entre escarpas nuas e lá no fundo, pequenos vales de um verde luxuriante acompanhando o curso de rios ou bordejando pequenos lagos alimentados pelas águas do degêlo. Na quase monocromática paisagem, predomina o tom ocre matizado pelo branco resplandecente dos glaciares. Numa cortesia do comandante e sua tripulação, fizemos um sobrevoo em círculo sobre a cidade com uma fantástica aproximação ao Illimani, um cume nevado com mais de cinco mil metros de altitude que parecia estar ali á mão. Este pico domina a região de La Paz e o seu nome significa numa língua local águia dourada porque, explicaram-nos, quando tingido pelos raios do sol poente, o seu contorno sugere uma refulgente águia preparando-se para levantar voo. O desembarque fez-se sem sobressalto, mas mal havíamos percorrido as primeiras dezenas de metros do túnel que nos conduzia à área de recuperação de bagagens e já estávamos sem fôlego! Bem nos tínham avisado de que devíamos tomar uma infusão à base de folha de coca a que os locais chamam soroche. Segundo eles, ajuda a combater o mal da altitude que aqui se cifra pelos quatro mil metros. Não estávamos sós nesta incapacitante miséria, outros em condição idêntica, pura e simplesmente detinham-se a cada passada, davam pequenas palmadas sobre o tórax ou abanicavam a mão em leque à frente do nariz. Para maior desconforto, estando nós vestidos com T shirt e calções, um aguaceiro gélido abateu-se sobre a área do aeroporto no momento em que procurávamos transporte para o centro da cidade situado à distância de uma meia hora de carro. Claro que havia táxis disponíveis cujos condutores disputavam a atenção dos eventuais clientes, mas por norma adoptámos o transporte público como meio para os transfer.
Pela módica importância de cinquenta cêntimos de euro cada, tomámos assento numa viatura a que os brasileiros chamavam pirua (já não existem) e assim chegámos ao centro, tendo apeado frente à Igreja de S. Francisco. Uma curta mas esfalfante caminhada a pé - era a subir e de mochila às costas! -, conduziu-nos até à Praça do Estádio em cuja proximiade encontrámos alojamento, tendo ficado instalados no hotel Columbus, situado na rua Illiani a poucos metros da referida praça.
Vista de cima, La Paz é uma cidade no mínimo estranha! Imagine-se a cratera de um extinto vulcão ou um enorme lago que em dado momento evaporou, deixando em seu lugar uma gigantesca depressão no solo com mais de quatrocentos metros de profundidade situada a três mil e seiscentos metros de altitude. No fundo deste buraco imaginário temos o núcleo histórico da cidade rodeado por menos de meia centena de prédios modernos de maior volumetria. É a zona mais quente e húmida, onde se situam os edifícios do governo, blocos de apartamentos, comércio formal e sedes das multinacionais. Temos depois, localizados a meia encosta, os bairros nobres, constituídos por vivendas de excelente qualidade, mais ou menos ajardinadas, pertença de gente com evidentes sinais exteriores de riqueza. Segue-se uma espécie de anel viário que faz a transição com os Altos, nome dado aos bairros populares que trepam encosta acima até ao planalto situado a mais de quatro mil metros. São centenas de milhar de habitações, algumas bastante precárias, outras abrigando famílias de classe média ou média-alta, tendo em comum o facto de nenhuma se encontrar rebocada ou pintada! Motivo: Logo que a obra fica concluída, o município lança sobre o imóvel um imposto que muitos munícipes consideram incomportável. Como medida defensiva e talvez como forma de protesto, ninguém conclui a construção. O visitante não avisado, ficará perplexo ao contemplar de um dos vários miradouros da cidade este oceano de paredes e telhados de cor única, a do barro cozido.
Verdadeiro formigueiro humano, o alto tem as suas avenidas, ruas e vielas, possui hospital e centro de saúde, abastecimento de água, saneamento e luz eléctrica. Nas suas artérias mais largas realizam-se feiras e mercadinhos semanais, mas há também comércio formal, correios e ciber-cafés. Os transportes são quase monopólio de candongueiros que apregoam os vários destinos a partir de carrinhas tipo furgão que circulam de porta aberta, onde é possível meter 14 passageiros numa viatura de 8 lugares e condutor! Também circulam pequenos autocarros municipais de tromba avançada, bastante antigos, pintados com cores garridas.
Mais acima, a uma ou duas centenas de metros da margem da depressão, ficam as habitações mais humildes. Aqui não há nada, nem mesmo ruas ou caminhos, apenas carreritos onde os pés resvalam no pavimento saibroso escalavrado pela chuva. Os telhados são de chapa de zinco ou materiais recuperados a partir de qualquer escombreira. O cheiro nauseabundo denuncia a ausência de rede de esgotos ou simples latrinas. Os seus habitantes são mais esquivos evitando o contacto com estranhos. A ligá-los ao planalto, existem a certos intervalos alguns lanços de escadaria em cimento. Cada um destes degraus não terá mais do que 20 centímetros de altura e representa para pessoas não habituadas à altitude obstáculos de difícil transposição, exigindo um esforço comparável ao do alpinista quando escala os picos mais altos do planeta. Para que tenham uma ideia da dificuldade, dir-vos-ei que no dia 6 de Dezembro, dia de eleições em que o país literalmente parou como é tradição para que os cidadãos possam votar em segurança, eu e o Luís decidimos subir a um destes altos. Do ponto onde iniciámos a escalada à cota de 3600 mts até ao miradouro do Sagrado Coração situado nos 4060 mts, a distância rondará os 2Km. Necessitámos de quatro horas e meia para o percorrer e só não houve desistências porque atingido um ponto de não retorno, onde nem o socorro seria possível, houve que apelar até ao limite das nossas forças e continuar, um degrau a cada cinco minutos, e assim atingimos o planalto. Experiência a não repetir! Para nossa surpresa, além das torres de telecomunicações que nos tinham servido como pontos de referência durante a escalada, deparámo-nos com uma importante área comercial e residencial, restaurantes, hotéis e uma portagem de auto-estrada, aquela que liga o aeroporto ao centro da cidade. Como só os veículos prioritários, os da imprensa e dos observadores internacionais estavam autorizados a circular, tínhamos pela frente o problema do regresso, que a ser feito a pé e desta feita por estrada (30Km), conduziria à hecatombe! Dirigi-me aos agentes da polícia de trânsito que na área da portagem controlavam os raros veículos que passavam com grandes dísticos afixados nos para-brisas, expliquei-lhes a nossa delicada situação e obtive autorização para pedir boleia no único carril (passagem) em serviço. Em menos de dois minutos estávamos a bordo de uma pick-up do jornal La Prensa que se dirigia em serviço de reportagem a uma mesa de voto situada a menos de cinquenta metros do hotel Columbus. Foi a confirmação do lema “a sorte protege os audazes”, perdoem-me a imodéstia.
Seriam umas cinco e meia da tarde, estávamos em casa e havia apenas uma última questão por resolver, a do onde jantar, já que tínhamos sido avisados que todos os estabelecimentos da cidade capazes de nos prestar esse serviço estariam encerrados, incluindo o restaurante do hotel. Nessa manhã, tinha reparado nos vendedores ambulantes de comida instalados junto à rotunda da Praça do Estádio onde desembocava a rua do nosso hotel. Com os seus fumarentos e olorosos grelhadores a carvão a atraírem a clientela, para lá nos dirigimos e debaixo de um pequeno toldo de plástico que uma rabanada de vento não tardou em mandar pelos ares, tomámos um opíparo lanche ajantarado constituído por uma sandes de frango mais um chorizito grelhado entalado num papo-seco e umas goladas de coca-cola à temperatura do chá. Uma benção para quem, depois de um esforço tremendo, nada tinha ingerido desde o pequeno almoço desse dia. O resto da tarde e parte da noite, dedicámo-la ao tema das eleições que seguimos pela TV, tendo-se confirmado bem cedo mais uma folgada vitória do presidente Evo Morales. rwesto da história virá a seguir. Até lá, queiram aceitar as minhas cordiais saudações e votos de Feliz Ano Novo.