terça-feira, 19 de janeiro de 2010

57 - Cusco em imagens.

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Uma das portas de entrada de Cusco, junto ao seu centro histórico.

E a rua que se segue ao bonito arco da foto anterior.
Pintura mural representando os principais ícones da civilização Inca.

Obelisco situado num pequeno jardim da cidade no início da via que conduz ao aeroporto.

No exterior de um mercado de bairro ...

... e agora no seu interior ...

... e aqui, no mesmo mercado, na zona dos comedores, uma espécie de cantinas ou restaurantes populares onde se pode tomar uma refeição por cerca de um euro. Para nós o atractivo não foi o preço, mas o privilégio de conviver com os peruanos.

Panelas, panelões, caldeiros e alguidares com alguma javardice pelo meio. Ai se a nossa ASAE fizesse uma visita ... !

Eu não tive qualquer problema em abancar. Uma grande malga de sopa de galina (canja) com macarrão, muito bem temperada com salsa picada e hortelã, um pedação de carne (tora) no fundo e dois troncos de mandioca a boiar ... e fica um homem com uns peitos como um cavalo ... !
Já o Luís revelou alguma relutância e com razão , se considerarmos a real caganeira que o ia vitimando depois do episódio do chorizito em La Paz. Acabou por atacar também e a avaliar pelo ar de satisfação, o manjar até lhe estava a saber bem.

Homenageando os patriotas que lutaram pela independência.

Um edifício ao estilo colonial transformado em museu.

Ao fundo da rua, a igreja de S. .

Pormenor da fachada da mesma igreja.

E outra vista, esta a partir da praça fronteira à la Municipalidad (câmara municipal).
Embora pareça um cortejo de carnaval, trata-se de uma procissão em honra de Nª Sª da Conceição. Tal como em Portugal, o dia 8 de Dezembro é feriado nacional no Peru e estes festejos são muito concorridos e estendem-se a todo o país.

Sobre as ruínas de Karikancha, um palácio (templo?) inca, ergue-se a igreja de S. Domingos.

A procissão é a mesma, figurantes e banda pertencem a outra irmandade.
Procissão com andor.

Pormenor da banda e bailarino em traje tradicional.

Tal como acontece com os foliões que nos desfiles de carnaval representam as diversas escolas de samba brasileiras, também estas irmandades se destinguem pela cor da fatiota e respectivos adornos.
Plaza de armas. A Catedral, ensanduichada entre as igrejas de Jesus Maria e do Triunfo.
Pl. de armas.Pl. de Armas. Igreja da Companhia de Jesus.
Pl. de armas. Procissão com andor.

Outra vista da Pl. de armas e respectivos jardins.

A base sobre a qual assenta a imagem da Senhora é em prata massiça pesando várias centenas de quilos. São necessários 16 varões fortes para transportar o andor. O manto é bordado a ouro.

Pormenor da base do andor em prata. A grande porta da Igreja começa a abrir para permitir que a Senhora recolha.

Mordomos e mordomas com as faixas identificativas das respectivas congregações ao peito ao peito.Estandartes.
Até ao próximo ano, só as pequenas portas da Catedral darão passagem aos fiéis.
As fotos anteriores apresentam três diferentes perspectivas da Plaza de Armas e dos edifícios que a rodeiam, como os arcos e as suas belas varandas em madeira trabalhada. São na sua maioria estabelecimentos muito frequentados pelos turistas (cafés, restaurantes, lojas de souvenirs, agências de viagens, bancos etc).
Estas duas belas e riquíssimas igrejas situam-se na Plaza de Armas. Do lado esquerdo da fotografia podemos ver a Catedral, uma construção do séc. XVII, situada sobre as ruínas do antigo paslácio inca de Viracocha. À direita encontra-se a igreja da Cª de Jesus.

Edifício da Pl. de Armas.
Arco de Santa Clara.

Com o senhor Dartagnan Portugal. Um conhecimento imediato de banco de jardim, que nos seus oitenta e tais revelou ser um profundo conhecedor deste mundo e das tramoias que por cá se praticam.
Igreja das Mercês.

Uma rua do centro histórico num dia feriado.

Uma mulher estátua na mesma rua.

Uma vista da praça fronteira à Municipalidad.

Outra vista dfa mesma praça.

Torreão da Igreja de S. Pedro.

Faculdade de ciências.

Pormenor do arco de Santa Clara.

Igreja de S. Francisco.
.Outra vista da Igreja de S. Pedro e da Pr. com o mesmo nome.
Rua do Mercado Central.






As 6 fotografias anteriores representam outras tantas vistas do interior do Mercado central.
Vendededoras de frutas e hortaliças com banca montada junto à parede exterior nas traseiras do Mercado central.

Uma rua comercial do centro.


Duas fotos da estação dos CF peruanos de onde partem os comboios para Machu Picchu.

O Luís também decidiu ficar na fotografia!

Edifício da era colonial devidamente restaurado.

Cartaz promocional.



Loja de venda de roupas tradicionais.


La Paz, hotel Columbus, 8 de Dezembro de 2009. São 6 horas da manhã; desperto com a ténue claridade que a custo trespassa o ligeiro cortinado que protege o janelão que dá para as traseiras do hotel. Aí funciona o parque auto da companhia eléctrica boliviana onde os técnicos começam a carregar as carrinhas com escadas e escadotes e demais ferramental com que acorrem às chamadas do dia. Em crescendo, chega-me o ruído do tráfego automóvel na avenida Illiani, fronteira ao hotel. O Luís parece dormir profundamente pelo que num primeiro momento decido acordá-lo apenas depois de concluir as minhas abluções matinais. Por outro lado, o meu sócio é daqueles cujo lema é “temos tempo … “ e não raramente acaba entalado em apertos de horário! No meio da minha hesitação, ouço-o resmungar um bom dia estremunhado. Recordo-lhe que o nosso voo para Cusco descola às 09h15 e nestes países excessivamente controleiros para o meu gosto, as duas horas de antecedência que nos impõem para comparência no aeroporto, não nos permitem grandes larguezas. Temos ainda que contar com uma boa meia hora de automóvel até à aerogare, por isso … vamos lá a despachar, digo-lhe eu. Pelas 06h45 já nos encontramos na recepção do hotel com armas e bagagens quando chega o nosso guia e motorista, o senhor Martin, cujo serviço havíamos deixado contratado (e pago!) na véspera. Partimos de estômago vazio dado que a sala do restaurante onde são servidos os pequenos-almoços só abria às 07h00, o que acabaria por nos dar oportunidade de nos desembaraçarmos dos últimos bolivianos despendidos num glorioso mata-bicho “aeroportuário”, uma vez cumpridas as formalidades. Descolámos com sol e uma visibilidade excelente, num voo sem história nem sobressalto. Revimos lá do alto a inesquecível paisagem paceña que tanto nos impressionara à chegada e em breve estaríamos sobrevoando, mais uma vez, a já nossa conhecida cordilheira andina. Do meu ponto de observação a bordo pude contemplar com algum pormenor uma orografia rude e ao mesmo tempo magnífica, qual cartolina enrugada por mão gigante, onde picos nevados aparentando estar mesmo ali ao alcance da mão delimitam desfiladeiros e vales profundos onde verdejam campos de cultivo e lagos de um azul cristalino. Uma das coisas que mais me impressionou foi a observação de sinais de actividade humana a altitudes inimagináveis, tais como construções (abrigos?) e até parcelas cultivadas. Subitamente, as condições meteorológicas alteraram-se e à nossa chegada a Cusco fomos saudados por uma chuva miudinha e gélida, que no entanto, não foi impedimento para ainda no ar, termos uma panorâmica desta encantadora cidade. Encantadora e riquíssima, sobretudo em valores de natureza histórica e cultural já que foi a capital do mundo andino e ao mesmo tempo a cidade sagrada dos incas, mas também pelo dinamismo que a actividade turística lhe confere, muito favorecida pela proximidade de ex-libris como o Vale Sagrado ou Machupicchu. Topograficamente, a cidade é muito fácil de entender; situada a 3360 metros de altitude, possui uma extensa avenida orientada no sentido leste-oeste em cujo topo ocidental uma bela Plaza de Armas, ajardinada e rodeada por magníficos monumentos, é ponto de passagem obrigatória para quantos a visitam. De forma quadrangular, descai ligeiramente para sul, apresentando o lado norte praticamente todo ocupado com uma imponente construção do sé. XVII, a Catedral, onde no dia da nossa visita decorriam os principais festejos em honra de Nª Sª da Conceição. No lado oriental da praça encontra-se a Igreja da Companhia de Jesus, famosa pelo seu rico acervo em objectos de culto manufacturados em ouro e prata puros. A sul e poente, encontram-se as principais estruturas de apoio ao turista como bares, restaurantes, agências de viagens, bancos etc. No raio de apenas duas ou três quadras fica contido todo o núcleo histórico de Cusco, que engloba as igrejas de Santo Domingo, das Mercês e de S. Francisco entre outras, o belo arco de Santa Clara, o município e a sua praça, o mercado central e a estação CF de onde partem os comboios rumo a Machu Picchu, universidade, museus e casas de cultura. Muito parecida com algumas cidades do interior português onde impera o mesmo tipo de construção e a dimensão média dos edifícios não ultrapassa os dois ou três pisos em que predomina a cor branca, ruas mais ou menos rectilíneas dispostas ortogonalmente entre si, confluindo numa espécie de espinha dorsal que é a sua avenida principal, Cusco faz-nos sentir “em casa”. Ficará na minha memória como uma cidade a revisitar obrigatoriamente.
Instalados no hostal Albany, a dois quarteirões da Pl.de Armas, dele fizemos a nossa base para o ataque ao Machu Picchu que abordarei no próximo post.
juan-jovi@sapo.pt

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

56 - Holocausto de inocentes.

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A propósito da tragédia que atingiu o Haiti.

Mas as crianças , Senhor,
Porque lhes dais tanta dor,
Porque sofrem assim?
Augusto Gil
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Não sei se Deus existe. Mas se há um Deus que nos governa e tem o poder que Lhe atribuem, exijo explicações. Que pecado monstruoso terá cometido o povo haitiano, porventura o mais desgraçado à face do planeta, para merecer tal punição? Dizem que foi um capricho da mãe natureza. Mãe madrasta esta, que com tão estranha e incompreensível manifestação de amor envolve seus filhos.
O desconsolo e a impotência tomam conta de mim. Eu queria, eu devia estar lá. Dispensaria as expedições de batedores… De bom grado partiria com a minha mochilita às costas, na certeza de que teria de dormir na rua, comer o pão do demónio, beber onde bebem os cães. Por paga desejaria apenas acolher na minha, a mão de um moribundo, animar o menino que numa questão de segundos ficou sem família, espantar as ratazanas que devoram os cadáveres.
Também seria capaz de amputar um membro morto pela gangrena, ajudar a nascer uma criança ou acalmar a dor de um corpo mutilado. Mas não! Aqui estou eu, parte integrante de um exército de involuntários ociosos, porque até na desgraça há que respeitar hierarquias, prioridades, formalismos, interesses, em nome da suprema hipocrisia mascarada de ajuda. Mal por mal, prefiro as lágrimas da hiena às do compungido crocodilo.
Entretanto, os contabilistas do share audiovisual hão-de prendar-nos com textos que de tão repetidos mais parecem uma litania, ornamentados com imagens chocantes, as mais chocantes que conseguirem adquirir no leilão da bolsa mundial das desgraças. Também elas repetidas até à exaustão. Porque já lá vão três dias, não tardará o momento em que nos será servido o prato forte de todos os pesadelos, como a agonia dos que tendo sobrevivido ao impacto de pedregulhos e ferros retorcidos acabam morrendo às mãos dos micróbios, da fome e da sede. Rostos inchados e disformes cobertos de varejas darão close-up’s fabulosos, enquanto cadáveres a serem despejados por pás carregadoras em valas comuns, gritos que já não passam de gemidos dos que permanecem enclausurados sob a grande escombreira que já foi uma cidade, ou o cachorro que se passeia com uma perna humana atravessada na boca perante a indiferença dos transeuntes, farão a felicidade dos principais editorialistas da nossa praça. Tudo em nome do direito de informar, da partilha de audiências … do vil metal como já lhe chamaram.
Não há limite ético que contrarie o direito de informar e à informação, dizem os comunicadores sociais. Concordo, se de informação se tratar. Mas quantos esquemas, quanta manipulação por detrás desta pseudo-informação!? Ainda agora tivemos o caso da campanha alarmista da pandemia de gripe A que afinal não há. Não há, mas houve quem se abotoasse com milhares de milhões. E o dinheiro de tanta conta aberta em tudo quanto é banco, supostamente destinado a acções visando diminuir o sofrimento das vítimas, quem o controla, a que bolsos vai parar. Que dizer quanto ao balanço, isenção, tratamento igual, de acontecimentos idênticos em suma?
Ouvi uma curta entrevista do Dr. Fernando Nobre da Ami, à TSF. Logo nas horas que se seguiram ao trágico acontecimento, previu ele e não falhou nada, que o circo mediático e não só (o circo é meu), não tardaria a ser montado, avançando para isso a seguinte explicação: Muitos haitianos têm nacionalidade norte-americana e no país, existe uma força de manutenção de paz (manutenção de quê?), integrando militares de vários países, alguns dos quais também foram vitimados pelo sismo. Li nas suas palavras uma profunda mágoa por uma tragédia de amplitude semelhante ocorrida recentemente numa cidade Iraniana que simplesmente desapareceu do mapa, não ter merecido atenção e mobilização semelhantes por parte da cada vez mais desacreditada comunidade internacional, em geral, e da comunicação social em particular. Pessoas são pessoas, independentemente do país onde vivem ou do regime a que estão sujeitas. A compaixão é, talvez, o mais elevado sentimento humano, aquele que nos distingue radicalmente das feras e como tal, não pode nem deve fazer qualquer descriminação entre inimigos e amigos, ou amigos dos amigos, como se tem visto ultimamente.
E como não tenho a memória curta, pergunto: Quem se lembra, ou simplesmente deu conta, de que em 8 de Outubro de 2005, um sismo matou perto de uma centena de milhar de pessoas no norte do Paquistão, das quais 17000 eram crianças segundo dados da Unicef, deixando mais de dois milhões de seres humanos sem abrigo, comida, água ou medicamentos? Quem estremeceu ou perdeu uma noite de sono com os 75 000 mortos e cinco milhões de desalojados por um terramoto na província de Sichuan, China, por altura dos últimos jogos olímpicos (12 de Maio de 2008)?
E como não tenho a memória curta, não posso deixar de referir algumas tragédias humanitárias causadas ao Homem por vontade do seu irmão, como Dresden, Hiroshima, Hanoi, Bagdad … e os respectivos danos colaterais que se contam pelos milhões de vítimas inocentes, tão desvalorizados pelos nossos noticiaristas e comentadores da treta. Terá sido porque estes não eram amigos dos nossos amigos? A contrastar, notai as faces exibindo esgares orgásticos quando os ditos cujos ao lado de videowall’s gigantescos descreviam todas as potencialidades das maravilhosas e moderníssimas máquinas de matar gente e arrasar cidades, que não pedem meças a um sismozeco de grau sete.
Afinal Deus existe mesmo, o que estava era um pouco distraído quando engendrou esta humanidade. Com a capacidade que me deu para julgar, penso que deve estar arrependido e pretende corrigir o erro. Começou pelos inocentes, estará o cálice reservado para os que ficarem? Ai de nós!
Juan_jovi@sapo.pt

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

55 - Nas margens do Titicaca.

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Saboreando uma bela trucha à la plancha no restaurante Pan-Americano em Hutajata. Aqui reune informalmente o presidente Evo Morales com o su governo.
S. Pablo nas margens do Titicaca, junto ao estreito de Tiquina.

Monumento em S. Pablo.

Embarcações de recreio no Titicaca, próximo de S. Pablo

Estreito de Tiquina. Embarque de autocarro sobre uma balsa (jangada), de S. Pablo para S. Pedro, do outro lado do estreito.

Balsas em S. Pablo.

Imagem do pequeno Titicaca: muita água (doce), juncos (totora) e montanhas.

Uma ilha no Titicaca.

Um corredor no seio de um "bosque" de totora permitindo o acesso das embarcações ao grande lago.

Um restaurante palafítico e as lanchas de alguns clientes.

Mais balsas em S. Pablo aguardando a chegada de todo o tipo de viaturas.
Embarque de passageiros em lanchas rápidas. Do outro lado, apovoação de S. Pedro.

Uma totora (embarcação de junco) recentemente construída, vigiada por um lama no pátio do Sr. Paulino Estebán.

Outra imagem da totora, evidenciando o pormenor da proa e espaço de carga. O lama não arranca pata (está preso)!

Uma totora com cerca de dois anos, idade em que deve receber cuidados de manutenção.
Tentando fazer amizade com o bicho ...

... que subitamente ficou colérico, mandando-me uma cuspidela. Habitualmente visam os nossos olhos e costumam acertar. Nao foi o caso!

Estas são as instalações do estaleiro de mestre Paulino.

Uma familiar do mestre, lava louça na margem do lago.
Fogareiro em barro com as três vasilhas no mesmo material. Ao conjunto chamam os naturais cozinha.

Tear manual e amostra de tecido confeccionado por familiares do mestre construtor de totoras.

Fotografias expostas na sala de visitas do Sr. Paulino.

Mais fotografias exposta na pequena e vestusta sala onde o mestre recebe as embaixadas de navegadores estrangeiros.

Esta foto mostra em pormenor as únicas ferramentas utilizadas por mestre Paulino na construção das suas embarcações.
Com o Luís, mestre Paulino e mulher no seu atelier. Nesta foto, o nosso anfitrião pediu uns segundos para se compor ... vestindo o poncho por cima da roupa de trabalho que envergava no momento da nossa chegada.

Uma segunda foto, idêntica.
Ao centro, o senhor Paulino Estebán tal qual o encontrámos envolvido nos trabalhos de reparação de uma totora.

Grande abundãncia de juncos ou totora, nas margens do lago.
Mais juncos, estes junto ao "estaleiro" do senhor Paulino Estebán.
Tão extenso e azul, o lago Titicaca parece o oceano.
Com o Luís e o Martin, de costas para o grande Titicaca.

Um encontro inesperado.

Concluída a exploração da capital boliviana e seus arredores, chegou a altura de programar a visita ao lago Titicaca, um ponto alto desta viagem na minha opinião. Para isso solicitámos mais uma vez ao Martin, bom profissional como motorista mas também um guia de primeira água, à nossa disposição desde o momento em que nos instalámos no hotel Columbus, que nos conduzisse à região do lago, situado a cerca de uma centena de quilómetros de La Paz. Deixámos a cidade pelas 07h30 da manhã de 7 Dez., o dia a seguir às eleições, seguindo durante um quarto de hora pela via rápida que faz a ligação ao aeroporto até atingirmos o planalto, rumando depois para leste durante mais uma hora. A viagem foi tranquila através de uma estrada asfaltada e em bom estado, embora com alguns troços em obras. A manhã bastante fria mas ensolarada convidava ao passeio. A paisagem praticamente nua de arvoredo, plana, vasta, e seca, a fazer lembrar uma imensa estepe, apresentava a espaços pequenos tugúrios, isolados ou em aglomerados de não mais do que uma dezena de habitações, à volta das quais se vislumbravam pequenos rectângulos verdejantes irrigados pela água de furos “cooperativos”, onde cresciam favas, batatas, cenouras e outra hortícolas que entram na frugal dieta deste povo. Os aldeãos praticam uma agricultura de subsistência e também criam algum gado vacum, para além dos inestimáveis bichos autóctones (lamas, iaques e vicunhas). Como curiosidade, refira-se que a maior parte do solo se encontra disponível e pertence ao estado e que as zonas cultivadas se encontram a considerável distância da estrada (+ de 500 mts) para desincentivar os ladrões de hortas que por aqui se abastecem. Percorridos uns cem quilómetros, entrámos numa região acidentada, mais quente e húmida, onde pudemos apreciar a existência de uma agricultura relativamente desenvolvida e boas manadas de gado bovino da raça frísia. Sem o saber, estávamos nas margens do lago Titicaca que a minha imaginação tinha pintado como um lugar ermo e gélido, paraíso de antropólogos e caçadores de múmias, mas impróprio para gente comum se estabelecer e prosperar. Afinal havia pousadas, restaurantes, locais para eventos, lojas de souvenirs e tudo aquilo que habitualmente faz as delícias de um turista mais ou menos exigente. Segundo o Martin, o nome do lago deriva do facto de o seu contorno sugerir um puma, titi, numa língua local, a abocanhar um coelho kah-kah, com h aspirado no final. Fizemos a primeira paragem numa localidade chamada Hutajata (lê-se Utagata) e a propósito permitam-me que transcreva uma parte do texto que publiquei em 11 de Agosto de 2009, post nº 4.
“Amigos e futuros companheiros de viagem,
Eu tenho tanta vontade de dar à palheta que nem sei por onde começar. O melhor será entrar pelo princípio e explicar melhor porque é que há muito me apaixonei pelo tema das viagens. Pois, era eu um chavalito de 12 ou 13 anos, muito mais interessado no enigma situado entre as pernas das raparigas do que em lições de história ou geografia, quando certo dia dei de caras numa carrinha da Gulbenkian, com um livrito que relatava as aventuras da Kon Tiki. Este nome, evocativo de uma prestigiada divindade Inca, foi dado a uma jangada que em 1947 participou numa expedição destinada a provar que ainda antes do Cristóvão Colombo ter chegado à América, já os índios sul-americanos se teriam aventurado pelo Pacífico aberto até às ilhas da Polinésia. Construída no Peru segundo o método e com materiais idênticos aos supostamente usados por estes exploradores pré-colombianos, a Kon Tiki teve cerca de três meses de glória até se espatifar nuns baixios do Pacífico Sul. Ao comando, o explorador norueguês Thor Heyerdahl secundado por cinco marinheiros arvorados.
A descrição do quotidiano a bordo falava de peixes voadores que de sua livre e espontânea vontade saltavam para cima dos troncos de balsa, acabando no tacho da deliciosa caldeirada. Bebiam gotas de chuva e refrescavam-se mergulhando livremente nas águas tépidas do oceano com as cores do caleidoscópio, na companhia amigável dos golfinhos. O brilho das estrelas balizava-lhes o rumo em noites de calma, e dos dias tormentosos eu conseguia ouvir o ribombar do trovão e o silvo do vento. O meu deslumbramento foi tal que ainda hoje tenho o “filme” gravado minha memória. Esta leitura foi o clic que despertou em mim o viajante / aventureiro que existe dentro de cada homem. Dizem os especialistas que o pico desta pulsão se situa entre os 15 e os 45 anos. Onde é que eles já vão, e no entanto, a pica não esmoreceu!
Todos e cada um dos anos seguintes da minha vida se subordinaram à utopia de conhecer o mundo. Tanto quanto aquele que cabe nos sonhos.
E aqui estou, semi-novo, semi-tonto e completamente apanhado pela febre da vadiagem como aos 15 anos”.
É sabido que os povos de língua castelhana não são lá grande coisa no que toca a línguas. Desconheço o motivo, mas este é um facto que constatei inúmeras vezes enquanto piloto náutico, quando se tratava de comunicar com outros navios. Ainda em La paz, o Martin tinha-me falado vagamente na “condique”, palavra que na altura não consegui ligar a nada que eu conhecesse. Em Hutajata, insignificante lugarejo das margens do Titicaca, entrámos num pequeno e modesto atelier de paredes forradas com posters alusivos à expedição do navegador norueguês Thor Heyerdahl e uma bancada repleta com as primeiras edições autografadas das obras do famoso navegador e outros aventureiros que fazem da casa do senhor Paulino Estebán, uma espécie de santuário dos lobos do mar de todo o mundo. Percebi então, para meu espanto e grande alegria, que apertava a mão ao homem que construíra a Kon Tiki, em grande medida responsável pela transformação que em mim se operou quando adolescente, acontecimento que nem em sonhos previra. Por este simples facto, poderei sempre dizer que a viagem valeu a pena.
A prová-lo, ali estavam as fotografias obtidas durante as diversas fases da construção da jangada, entre elas uma que mostra o senhor Paulino empoleirado sobre a sua proa, galhardetes, cartas de navegação, planos e insígnias de outras embarcações igualmente imortais. Paulino Estebán, agora a rondar os oitentas, já passou o testemunho aos filhos, mas continua activo e é o principal mestre-construtor de totoras. A totora recebe o seu nome do junco ou totora que cresce espontaneamente nas zonas alagadas das margens do lago entre o sapal e os campos de papas (batatas). Sendo a embarcação típica do Titicaca, a totora é utilizada principalmente na pesca artesanal de que os locais retiram o seu principal sustento. O lago é muito rico em peixe, destacando-se a trucha (truta) introduziada pelos espanhóis e que aqui adquire tamanho invulgar. Degustámos um saboroso espécimen à la plancha num restaurante local, o Pan Americano.
De Hutajata seguimos até S. Pablo, pequena vila situada junto ao estreito de Tiquina. Aqui, o lago que na sua maior dimensão tem 200 Km de comprimento por setenta de largo e quatrocentos metros de profundidade, é dividido por um estrangulamento natural em duas partes, o grande Titicaca e pequeno Titicaca, separados por um istmo de 1 Km de largura. Da sua área total, 45% estão sob a soberania da Bolívia e os restantes 55% pertencem ao Peru. De notar que a Bolívia não possui qualquer acesso ao mar. A partir de S. Pablo segue-se de balsa para S. Pedro, a povoação situada do outro lado do estreito e daí, até à intensamente turística península de Copacabana, é um pulinho em autocarro. Podem fazer-se excursões de barco até às ilhas flutuantes, visitar os quechuas ou seguir para a fronteira bolívio-peruana.
Nota: as restantes fotografias relativas a esta etape da viagem serão publicadas logo que possível dado que neste momento a velocidade do servidor não o permite. Então até breve e saudações do,
juan_jovi@sapo.pt