segunda-feira, 22 de março de 2010

64 - Anatomia de um jipe!

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O chassis já foi tratado. Monta-se a carroceria.

Moi, ao lado do Rui pintor.

Uma vista da mecânica.

Caixas de velocidade e de transferência.

Em chassis.

O Rui dá mais uma pistolada na caixa da roda.

Parcialmente protegido com papel e plástico durante alguns trabalhos de pintura.

A zona dos pedais, limpa como um laboratório.

À esquerda, o Rui pintor. À direita, o António bate-chapas.


Ei-lo, o único, o verdadeiro, o inigualável “salta-pocinhas”. Comprei-o novo na firma Adelino Morais das Neves, representante da British Leyland em Leiria, em Fevereiro de 1982. Fez agora 28 anos, é um jovem portanto. Na altura, não podia sequer adivinhar que a moda dos jipaços estava para chegar, pelo que me considero um pioneiro na utilização deste tipo de viaturas para fins particulares. Já então, o apelo da viagem-aventura, a evasão através de espaços sem limite nem fronteiras, chegar onde nem todos podiam, eram a marca de cada dia da minha existência. Ainda me recordo de como estive próximo do êxtase ao contemplar as imagens da brochura promocional que li e reli vezes sem conta antes de me decidir pela aquisição. Eram fotografias espectaculares obtidas em condições muito favoráveis de luminosidade natural e enquadramentos paisagísticos de sonho. Numas, podia ver-se aquela bela máquina em fatigue de trabalho (toldo de lona) ou traje de gala (capota fixa com janelinhas no tejadilho), perseguindo manadas de zebras ou gnus e outros bicharocos de maior ou menor porte, deixando atrás de si um rasto de pó na estepe africana. Noutras, deslizava suavemente sobre as dunas de um qualquer deserto num indolente e melancólico fim de tarde, ou trepava um cume íngreme e gelado, tudo imagens de fazer arrepiar de emoção. E de facto, esta velha máquina nunca defraudou as expectativas que nela depositei. Posso dizer que fez e continua a fazer parte da minha vida e da vida da minha família. No meu Land Rover, série III de 109 polegadas, uma das últimas unidades produzidas em todo o mundo, fiz algumas das viagens mais excitantes de que me recordo. Aprendi a rolar sobre leitos de pedra ou lama, atravessei oceanos de areia e cursos de água a dar pelo para brisas. Algumas vezes, para que os meus acompanhantes não corressem riscos desnecessários, fazia-os apear antes de atacar os pontos mais perigosos, recuperando-os à frente. Noutras ocasiões, todos partilhávamos do frenesim da intrepidez (estupidez?) natural que se apodera de nós quando a adrenalina começa a picar. Nessas ocasiões, no meio do tal silêncio ensurdecedor, a expressão que mais se ouvia dentro do habitáculo era “ó pai, tu és louco!”. E às vezes era. Mas o meu Land Rover não foi apenas objecto de diversão, foi também um carro de trabalho. Transportou lenhas, electrodomésticos, materiais de construção, peças de mobiliário … rebocou o Zodiac e a caravana Pyc, levou os filhos à escola e até a garotada da vizinhança se habituou ao sinal da partida quando fazia soar as buzinas a ar tipo “peixeiro”. Apareciam em magotes para apanhar boleia para mais um dia de aulas, causando a admiração dos passantes quando à porta da escola, o caudal de miúdos a saltar da viatura parecia não cessar. Depois, como o local de trabalho não era longe da escola, os meus putos tinham sempre um lugar para se recolherem durante um furo no horário, passar os olhos pela matéria uma última vez antes do teste ou fazer uma retemperadora sestinha! Foi tal a afeição que passaram a dedicar ao seu velho jipe que, passados muitos anos, quando lhes comuniquei o meu desejo de o trocar por um novo, desencadeei uma crise de pranto generalizado que só cessou com a promessa de que o velhinho ficaria na família para sempre. E a provar que o que se promete é para cumprir, estão as fotos acima, que mostram a minha relíquia após ter sido completamente desmantelada, encontrando-se actualmente em fase de pintura e montagem. A mecânica foi melhorada com a instalação de uma “over drive”, peça caríssima (1500 euros) que chegou em mão desde o fabricante em Vancouver, no Canadá, um acessório da caixa de velocidades que serve para desmultiplicar as dez que traz instaladas de origem. E “prontos”, aqui tendes a história resumida de uma geringonça que muito prazer e até alguns momentos de felicidade trouxe ao seu dono e familiares. E há-de continuar na mesma senda por mais um par de anos, agora com novos protagonistas das suas aventuras, os meus netos. Está a vestir-se …
Beijos e abraços do,
Juan_jovi@sapo.pt

sábado, 13 de março de 2010

63- Parabéns!

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A Mariana com cara de poucos amigos ao colo da tia Isabel.

No laranjal ao pé da porta ...

... e de pé sobre o parapeito da janela.

Aqui, com os pais.

Ontem, 12 de Março, a minha neta Mariana completou o seu primeiro ano de vida. Foi um ano de algum sofrimento para a pequenina e de uma grande angústia para família, porque a Mariana nasceu com uma enfermidade que não sendo muito rara – doença de Hirschprung – implica tratamento cirúrgico “pesado”. Foi submetida a cinco intervenções tendo a 5ª, que será também a última, assim o esperamos, ocorrido há cerca de um mês no Hospital D. Estefânia em Lisboa, sob orientação do Dr. Casela, a quem estamos todos muito gratos assim como aos outros elementos da equipe, sem esquecer o pessoal de enfermagem e assistentes operacionais.
A Mariana está bem, é uma criança normal e feliz e comporta-se como todos os petizes da sua idade. Hoje, por ser sábado, podemos reunir a família e fazer-lhe uma pequena festa de aniversário durante a qual foram colhidas as fotografias acima apresentadas.
Aproveito para anunciar que tenho mais três netas a caminho! Uma deverá nascer em Junho, a segunda em Agosto e a terceira desta revoada lá para Setembro/Outubro.
vitor_junqueira@sapo.pt

quarta-feira, 3 de março de 2010

62 - Pensando bem ...


… nem sei o que pensar!

Não há muito tempo, a profissão de jornalista ocupava entre nós um dos lugares cimeiros no ranking das profissões mais prestigiadas. Depois, alguma água correu debaixo das pontes e uma espécie de vento ruim começou a varrer as redacções. Hoje em dia é o que se sabe, e ainda mais o que não se sabe. Leitores, radiouvintes e telespectadores andam confusos, só têm uma certeza, a de que alguém lhes quer enfiar o barrete. E para isso passou a valer tudo, interferências daqui, pressões dacolá, diz que disse e achismo (eu acho que …) generalizado. Da meia verdade à omissão completa da verdade, passando pelo cobardolas “alegadamente”, de tudo tenho dado conta na minha bovina pacatez. Noto que a par de alguns génios, raros, na arte da entrevista, campeia a impreparação, uma boçalidade atrevida e mal-educada em que uns janotas de microfone em riste ou mais modernamente, telemóvel activado, maltratam os entrevistados, a língua portuguesa e quanto aos números nem fazem ideia daquilo que representam. Atiram a matar, como pequenos gladiadores do circo em que se tornou a sua profissão, talvez na esperança de que algum imperador dos mídia repare neles e, quem sabe, lhes conceda a graça que é ter um mísero salário garantido ao fim do mês em vez da famigerada remuneração a “recibo verde”. Este tipo de (des)informação, já foi suficientemente adjectivado tendo recebido, entre outros, os seguintes epítetos:
- Jornalistas (ou jornalismo) de buraco de fechadura,
- Calhandrices,
- Mexericos,
- Alcoviteiro,
- Coscuvilhice,
- Travestido,
- Criminoso,
- Caça ao homem, etc., etc.
Os nossos queridos políticos, primeiros responsáveis pelo lamaçal onde desprecavidamente ou talvez não se atolou comunicação social doméstica, resolveram criar uma comissão (pat)ética destinada a apurar quem foram os culpados pelo status quo actual. Dos trabalhos, alguns excertos chegaram até nós, o bastante para pôr em causa a seriedade e o propósito do que lá se passa. Temos visto e ouvido de tudo. Fico-me no entanto por alguns episódios ou alegações que prenderam a minha atenção de uma forma particular. Destas, a mais frequente, é o eu acho … e também acho … e daí concluo que !!! Saindo da boca de jornalistas de investigação, isto não é de partir a moca a rir?
- Deplorável, assim foi classificado pelos seus pares o “espectáculo” que o injustiçado Mário Crespo deu quando foi inquirido pela supracitada comissão,
- O Sócrates (parece que andou com ele na escola!), até telefonou ao rei de Espanha, afirma convictamente uma gárgula despeitada por lhe terem cortado o pio num jornal televisivo onde, acolitada por uma personagem grotesca tirada dos Marretas, destilava peçonha que dava para matar cascavéis. E aproveita para dar umas dentadas na PJ, na delegada do MP de Setúbal e em tudo o que mexa. Imagino que daqui por algum tempo quando tiver que sentar o cu no mocho para ser responsabilizada pelas cretinices que hoje proferiu, irá gritar aqui del-rei que estão a atentar contra a minha liberdade de expressão!
- Diz outra jornalista investigadora: Querem saber quem são os accionistas? Não percebo qual o vosso interesse, mas tomem lá … e acto contínuo distribui uma rodada de fotocópias a preto e branco com umas carantonhas não se sabe de quem,
- Eram tantas as críticas do sindicato dos jornalistas (do sindicato? Terei ouvido bem?) e da Autoridade Reguladora da qual depende a nossa licença de emissão, que fomos forçados a acabar com o jornal, diz o patrão da TVI.
Ao que nós chegámos! Em nome de quê? Ao serviço de quem? Certamente, não por amor à verdade ou à liberdade de expressão. Néscio sou eu e não acredito nisso!
Aos bons profissionais, que os há e muitos, tiro o meu chapéu. Oxalá consigam fazer escola de modo a que possamos ver no vosso trabalho a garantia de que convosco, o regime democrático está de pedra e cal.
Post scriptum: Não tenho nenhum partido nem quero que mos partam e, de canhoto, não tenho nada.
juan_jovi@sapo.pt

sábado, 27 de fevereiro de 2010

61 - Tenho o coração agoniado.

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Orquídea, uma flor que simboliza a ilha da Madeira.


Andava eu na primária quando a professora nos explicou que o homem era o único ser á face da Terra que tinha o poder de alterar (contrariar) o curso da Natureza. Mais tarde e em tom de brincadeira, alguém me disse que pela forma como estávamos a tratá-la, ou nós acabávamos com a Natureza ou ela acabava connosco. Tenho para mim que ambas as teses pecam por exagero. Embora sejamos uma espécie que desde tempos remotos foi capaz de produzir sucessivas gerações de incríveis engenheiros e arquitectos cujo labor permitiu que franjas da humanidade tenham vivido num mundo confortável, sendo aquele que temos hoje inimaginável para os nossos avós, devemos reconhecer com humildade que apesar do poder intelectual e capacidade de realização que nos foi dada, é pura presunção compreender a Natureza, dominá-la ou simplesmente contrariá-la.
Ainda mal se completou uma semana sobre a tragédia da Madeira e já outra se anuncia. A avaliar pela intensidade (8,8), o sismo que esta manhã atingiu grande parte da costa ocidental da América do sul terá deixado um rasto imenso de morte e destruição. Recuando até um tempo que a minha memória alcance, não me lembro de nada assim. Ultimamente chove no deserto, faz calor nos pólos, as entranhas da Terra expelem metralha como nunca, os rios transbordam e o chão treme como varas verdes. Os oceanos agigantam-se abocanhando extensas faixas de litoral e quem lá mora, e das ventas de algum dragão enraivecido saem as baforadas que reduzem a palitos florestas, campos agrícolas e cidades inteiras. Chamamos-lhes tufões, ciclones, furacões ou tornados, embora constituam a mesma entidade. Parece que a mãe Natureza está disposta a expulsar-nos do seu útero!
Porém, o que também não falta no nosso mundo são os engenhêros da política, da economia, do urbanismo etc. Depois acontecem coisas muito desagradáveis; o país abeira-se da bancarrota (que exagero!), a pandemia de gripe H1N1 revela-se um flop, e a Madeira quase vai ribeira abaixo. Logo surgem os teóricos da responsabilização a todo o custo. É preciso encontrar os culpados e apontar-lhes o dedo, de preferência em frente a uma câmara de televisão. E assim, direitinho ao purgatório, hão-de ir os activos tóxicos dos USA, os maus epidemiologistas da OMS, e as obras do Alberto João!
Façamos um acto de contrição e admitamos que, culpados se os há, somos nós todos, ponto final, parágrafo. Talvez assim possamos compreender que o bom senso tem um preço elevado, mas a burrice paga-se bem mais caro. Se a Pérola do Atlântico necessita do turismo como do pão para a boca, literalmente falando, em nome desta indústria que alguns profetizam tornar-se a mais importante do séc. XXI, não vale tudo! Nem lá, nem cá nem em parte nenhuma do mundo. Abundam os maus exemplos onde a exploração desta actividade quando levada ao limite só trouxe desgraças ao ambiente, às pessoas e à própria economia. Aos madeirenses gostaria de dizer que se a agonia que sinto no meu coração pela desgraça que os atingiu pudesse salvar alguém, nem teria havido temporal. As casas, os comércios e seus recheios, os muros, as pontes e as ruas, tudo se reconstruirá e haverá de ficar mais belo do que antes. Mas das pessoas que perderam a vida, só restará a dolorosa saudade. Inconsolável quando se trata dos pequenitos, e eu tenho-os daquela idade.

juan_jovi@sapo.pt

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

60 - Machu Picchu, epílogo.

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Folheto-guia distribuído à entrada do parque arquelógico de Machu Picchu. Ao centro, a azul e de pernas o ar uma "carimbadela" que o visitante apunha no final da visita, comprovando o seu feito!

Bilhetes nominais de ida e volta no comboio expresso de Ollantaitambo a Águas Calientes. Embora num dos tickets figure a designação de mochileiro (back-packer), não era essa a nossa codição de viajantes, já que adquirimos títulos de viagem em 1ª classe!

Em cima, bilhete nominal de ingresso no parque. Na digitalização de baixo, mais um ticket de transporte de Águas Calientes a Machu Picchu.

Na Serra Nevada da Lousã, no dia de carnaval. A diabinha mais pequena que está de punho no ar, é a minha neta Carolina. Mais uma vez e como de costume, foi ela quem trouxe os bichos (vírus) da escolinha. Depois um beijinho carinhoso ou uma tossidela à toa e ... lá fica o avô de pantanas!
Na Serra da Lousã, no dia de carnaval de 2010.

Um entrudo tradicional português, o único que encontrámos na deslocação à serra. E lá se vão as boas memórias das traquinices da minha juventude ...

E as fotografias que eu não tenho … !

Depois dos carnavais e de uma gripalhada, a segunda na saison, que atirou comigo para o estaleiro onde permaneci a caldos durante uma semana, eis-me de regresso ao serviço activo do kurt. Desta vez, para concluir o relato da última digressão e dar algumas explicações. Num dos últimos posts (nº 58), deixei os meus amigos, seguidores habituais e visitantes, na portaria da cidade inca de Machu Picchu, que visitei e fotografei por várias horas na companhia de um exército de turistas oriundos de todo o mundo. Tivemos a sorte, eu e o Luís Ferreira, de fazer a visita numa época que sendo habitualmente de fortes chuvadas nos brindou com uma meteorologia muito favorável, verdadeiramente primaveril. Tal sorte não tiveram alguns milhares de pessoas que, como mostraram as televisões, ficaram literalmente encurraladas no vale do rio Urubamba devido a escorregamentos e deslizamentos de terras, causados pelas enxurradas.
No dia 9 de Dezembro, como expliquei anteriormente, viajámos de Cusco até Ollantaitambo na camioneta da carreira, tomámos depois um comboio turístico que nos conduziu a Águas Calientes e daqui até Machu Picchu foi um pulinho de autocarro. Ainda mal chegados e com uma tarde soalheira em perspectiva, demos de imediato início à visita que nem sequer foi interrompida para os comes (proibidos no local, assim como fumar!), dado que íamos prevenidos com snacks e umas garrafitas de água conforme assisado conselho que nos havia sido dado. Cagando e andando como a música da Ilha, diz-se aqui na região de Pombal, e assim, de barrita na mão, lá fomos trepando socalco a socalco, percorremos caminhos e veredas ladeados por antigos campos de cultura ou paisagem urbana, onde as pedras falam e até o ar que respiramos cheira a História. Logo à entrada (recepção), foi-nos facultado um folheto-guia que nos permitiu a fácil orientação dentro do espaço arqueológico, com indicação precisa dos locais de interesse, tais como o antigo portão de acesso à cidade, a praça principal, a casa da guarda, palacetes reais, locais de culto como os templos das três janelas, do condor e a pedra sacrificial, conjunto arquitectónico das três portadas, observatório astronómico, fontenários e cisternas. Sendo que, a parte ocidental do aglomerado é praticamente ocupada por campos de cultivo em anfiteatro, separados uns dos outros por muretes de pedra insossa à moda do Douro, com os respectivos celeiros, arrecadações de alfaias e provavelmente estábulos, enquanto a parte leste é ocupada essencialmente pelo casario.
Quanto à origem e localização, apenas algumas notas.
A povoação de Machu Picchu é constituída por 172 edifícios e fica a cerca de 130 quilómetros a noroeste da cidade de Cusco. Encontra-se implantada sobre um cerro (cabeço) granítico pertencente a uma formação orográfica conhecida como o batólito de Vilcabamba situado na província de Urubamba. A altitude média, medida junto aos templos, é de 2453 metros, o que lhe confere um clima muito agradável com temperaturas entre os 6 graus de mínima e os 20 de máxima. Este cabeço está ladeado pelos cumes de duas montanhas; do lado poente, Machu Picchu ou velha montanha em castelhano, que deu o nome à cidadela, e Waynapicchu a nascente. A seus pés, 450 metros abaixo, como que rodeando-o, corre o rio Urubamba. No conjunto, este espaço mede aproximadamente 530x200 metros e, na opinião de alguns especialistas e minha também (!), só pode ter servido de local de refúgio a algum alto dignitário inca em caso de ataque. Em 7 de Julho de 2007, foi classificado em Lisboa como uma das sete maravilhas do mundo. Diz a história que o primeiro colono a estabelecer-se na região terá sido Agustin Lazárraga, que ali foi parar em busca de boas terras para cultivo. Outros lhe seguiram na peugada, tendo todos eles tomado conhecimento da existência de Machu Picchu. Mas foi apenas no princípio do séc.XXI que Hiram Bingham, um antropólogo norte americano, professor na universidade de Yale e interessado pela cultura inca, iniciou o reconhecimento do local. Partindo da cidade de Cusco na companhia do sargento Carrasco, seu tradutor, percorreu o vale sagrado dos incas tendo chegado a Mardopampa, no sopé de Machu Picchu , onde lhes deram indicações quanto à localização das ruínas. Iniciaram a difícil escalada e quando já estavam próximos do objectivo, encontraram duas famílias de camponeses tendo sido uma criança a indicar-lhes o caminho para um monte de pedras em estado de completo abandono, cobertas de vegetação, coito de víboras, onde desde logo encontraram alguns objectos do quotidiano dos antigos habitantes. Aconteceu isto em 24 de Julho de 1911, data a que se atribui a descoberta científica de Machu Picchu. Através do seu livro “A cidade perdida dos Incas”, Bingham tornou mundialmente conhecido e famoso este sítio arqueológico.
No qual tirei perto de duas centenas de fotografias, não me restando nenhuma!
A explicação, a que aludi vagamente num post anterior onde falei de uma tentativa de assalto com sequestro e de um furto particularmente doloroso, reside num descuido imperdoável da minha parte, que levou à perda do cartão de memória com todas as fotos do dia da visita, para mim, as mais valiosas de quantas bati durante toda a viagem. Tendo regressado ao hotel em Cusco por volta da meia noite e dado que na manhã seguinte teríamos de estar muito cedo no aeroporto para o voo de regresso (Cusco, La Paz, Santa cruz, S. Paulo), achei que não eram horas para transferir as fotos da máquina para o computador, como fazia habitualmente todas as noites. Arrumei sumariamente a mochila e por lapso deixei no seu interior a câmara com o respectivo cartão de memória contendo as fotografias. Ao receber a mochila em Santa Cruz onde tivemos de fazer um dia de escala, constatei de imediato que durante o processo de handling a mesma havia sido violada, encontrando-se os fechos semi abertos. Foi já em Pombal que me dei conta de que o cartão tinha ido à vida! E a máquina, perguntarão os amigos? A máquina lá vinha, serena, no meio da roupa! Dado que os trabalhadores aeroportuários passam pelo controlo, nomeadamente de pórticos detectores de metais, a máquina fotográfica seria facilmente detectável, enquanto o cartão pode dissimular-se facilmente dadas as suas reduzidas dimensões. Aquele tinha-me custado 40 aérios, o que para aqueles lados é mais do que o ordenado de um mês de trabalho. E sendo um artigo facilmente comercializável (sonny) … basta juntar 2+2, não é? Esta foi a explicação que o meu amigo Luís deu a este burro, com fumaças de viajante experiente! À falta de outra, aceito-a como boa, a não ser que na comunidade haja alguém capaz de verter melhor aproximação a este assunto. Moral da história, tenho que lá voltar, e os interessados já podem ir fazendo as malas!
As fotos que reproduzo acima, não porque me passe pela cabeça que alguém ponha em dúvida que estive lá, são tudo o que materialmente me resta da visita a Machu Picchu e servem como recordatório a todos os descuidados, de que em viagem, não se pode confiar em ninguém e todos os cuidados são poucos.
Abraços,
Juan_jovi@sapo.pt

sábado, 6 de fevereiro de 2010

59 - O Império Inca. Um pouco de História.

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Imagem (Net): Chefe inca.


Tudo terá começado há cerca de vinte mil anos quando grupos de caçadores provenientes da Ásia oriental atravessaram o estreito de Bering, penetrando no continente americano através do território do actual Alasca. Durante milénios, estes caçadores recolectores vão “descendo” até atingirem o território hoje denominado América do sul. Ocupam uma faixa ao longo da costa do Pacífico que vai desde o sul do Peru até meio do que é actualmente o Chile. Sabe-se que por volta do ano 5000 aC já cultivavam alimentos, tendo estabelecido os primeiros povoados permanente. Habitando três vales a norte de Lima, um povo civilizacionalmente avançado prospera durante 12 séculos, a partir de 3000 aC. Praticam o comércio (algodão, peixe) e a agricultura, são exímios arquitectos, conhecem a arte da tecelagem e fabricam a cerâmica que utilizam no seu quotidiano. Cerca de 1800 aC, este povo deixa a região levando consigo conhecimentos que vão servir de alicerce, séculos mais tarde, a novas culturas e civilizações política e administrativamente organizadas em reinos como aqueles que, no litoral, têm a capital em Moche e Nazca. Ao mesmo tempo (800dC), surge na região montanhosa de Chavin de Huantar, o embrião da mais antiga civilização andina da era pré-colombiana, a que se seguiram outras (Paracas, Uari), que por volta do ano 1000 dC se fundem num grande reino cuja capital era Tiahuanaco, núcleo do futuro império inca (Séc. XIII a XVI).
O povo inca ou dos incas, designação dada pelos espanhóis a cerca de 10 milhões de seres humanos baixotes, de pele bronzeada a escura, cabelos negros e lisos e quase imberbes, era composto por várias etnias com centenas de idiomas entre as quais se destacam os quechuas, matriz da família real, os aymaras, yunka etc. Ocupavam uma extensa região da cordilheira andina onde se inclui o Peru actual, Equador, sul da Colômbia, norte do Chile e da Argentina. Politeístas, acreditavam na divindade do imperador, filho do deus sol. Adoravam a lua, o condor e o jaguar, e praticavam ritos sacrificiais (animais e humanos). Muito activos, os incas dinamizam o comércio (troca) com os vizinhos da planície, desenvolvem a agricultura (batata, milho, mandioca amendoim e hortícolas) para o que concebem redes de canais de irrigação, são excelentes arquitectos distinguindo-se na construção de grandes edifícios cerimoniais e dominam a metalurgia. Possuem conhecimentos de aritmética (quipos) e farmacologia; conhecem algumas plantas medicinais, tratam a malária com quinino e usam a folha da coca como analgésico por ex. Domesticaram animais e usaram o lhama como besta de carga, mas nunca ouviram falar da roda e nada sabem sobre a utilização de cavalos. Não obstante, possuem uma rede viária com cerca de 4500 Km, percorrida pelos mensageiros (tiasques) à velocidade de 225Km/dia. Esta rede de estradas e caminhos, muito importante para as trocas comerciais, foi também decisiva para a expansão do império, pois permitia a movimentação rápida de forças militares, bem organizadas, que viriam a subjugar os outros povos andinos, acabando estes por absorver, sem grande resistência, os valores da cultura inca, acrescentando terras, riqueza (tributos) e força ao império. Tinha a sua capital em Cusco, a cidade mais antiga do continente americano, tão desenvolvida para a época que “na Europa não existe nada que a possa igualar” e cujo nome significa em quechua “umbigo do mundo”. Em Cusco vivia a família real e a sua corte, lustrosa e educada em boas escolas, albergada em palácios a condizer, mentora de grandes festivais, uns de cariz profano, outros em honra dos seus ícones religiosos.
A civilização inca atinge o apogeu no séc. XV, sob o domínio do imperador Pachacuti. Mas os maus augúrios acerca do seu declínio não tardaram em confirmar-se. Uma cascata de acontecimentos nefastos culminaria em 16 de Novembro de 1532 com a capitulação perante as forças de Francisco Pizarro, o barbudo conquistador espanhol que aprisionou e assassinou o imperador Atahualpa, acusando-o de feitiçaria e conspiração contra a coroa espanhola! O desgraçado para não morrer na fogueira, aceitou converter-se ao cristianismo e como “recompensa”, foi morto por estrangulamento.
Entre os acontecimentos que ditaram a morte da civilização inca, podemos elencar os seguintes:
a) Uma razia demográfica causada por doenças “importadas”, contra as quais a população não possuía imunidade. As epidemias sucederam-se logo após os primeiros contactos com os europeus e terão causado centenas de milhares de mortes.
b) O desmoronamento moral e ético da sociedade civil, que em contacto com os estrangeiros, aprendeu rapidamente valorizar mais os metais preciosos e o que com eles podia adquirir, do que o duro trabalho no campo. Resultado: Carestia de alimentos, preços elevados, fome generalizada.
c) Com o poder central enfraquecido devido a uma longa guerra de sucessão (guerra dos dois irmãos) entre o imperador Atahualpa e seu irmão Huascar, várias regiões do império se rebelaram e os seus “governadores”, movidos pela ganância, não hesitaram em aliar-se aos invasores.
E o declínio foi tal que, ao Francisco Pizarro bastou uma centena de homens e uns vinte cavalos para limpar o sebo aos combatentes incas que ofereceram alguma resistência. A partir daí, foi o que se sabe, genocídio, escravização, aculturação etc., tudo matérias em que nós, portugueses, também não deixámos créditos por mãos alheias. Escaparam as línguas quechua e aymara porque os missionários se serviram delas como veículo para a evangelização dos povos nativos.
Este pequeno resumo não poderia ficar concluído sem uma alusão, ainda que breve, à figura de um ilustre chefe indígena. Foi ele Tupac Amaru, sumo sacerdote de Vilacabamba situada a norte de Cusco. Numa altura em que praticamente todo o império já havia sucumbido aos invasores espanhóis, Tupac Amaru continuava a resistir. Isto valeu-lhe um ataque ao seu reduto o que o obrigou a empreender a fuga para a região amazónica, onde veio a ser capturado e assassinado pelo vice-rei de Espanha em 24 de Setembro de 1572.
Tupac Amaru é a figura inspiradora de alguns movimentos revolucionários contemporâneos, de pendor maoista, entre eles os Tupamaros uruguaios, o MRTA e Sendero Luminoso no Peru.
Fontes: Diversas (Net).
juan_jovi@apo.pt

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

58 - Machu Picchu, finalmente!


A nossa expedição ao Machu Pichu aproximava-se dos finalmente.
Partindo de Cusco, Cuzco, Qusqu ou Quosqo (em língua quechua), teríamos que percorrer uma distância de cento e tal quilómetros até ao local das ruínas, havendo várias formas de o fazer. Uma delas seria entregarmo-nos nas mãos de uma agência turística entre as muitas que pululam na região e se dedicam especificamente a esse negócio. A brincadeira andaria pelos 220 dólares por cabeça mas privar-nos-ia do prazer da organização que é um dos aliciantes neste tipo de viagem/aventura. Decidimos por isso fazê-la como independentes, sendo essa a opção preferida por quantos demandam o lendário sítio arqueológico, segundo informação do funcionário do posto de turismo que consultámos à chegada ao aeroporto de Cusco. E aqui, mais duas ou três hipóteses se colocavam: Comboio, táxi ou autocarro? Partindo de comboio da estação de Cusco (v. foto no post anterior), a viagem seria muito demorada o que na prática implicaria uma pernoita em Águas Calientes. E para rentabilizar a viagem de táxi faltavam-nos dois partners, pelo que a solução encontrada foi a seguinte: Viajaríamos de Cusco até Urubamba, cerca de 70 Km, pela viação de Urubamba, daqui até Olantaitambo num transporte local (10 minutos), de Olantaitambo até Águas Calientes, num comboio turístico expresso (1h30), propriedade de uma empresa privada, não fazendo por isso parte da rede ferroviária nacional peruana. Finalmente, o último troço com a duração de cerca de 15 minutos, em moderno autocarro de uma linha que percorre constantemente o trajecto entre o sítio arqueológico, não acessível a viaturas privadas, e o respectivo terminal junto ao mercado e estação de Águas Calientes. Delineado o projecto, havia que operacionalizá-lo, a começar pela recolha de algumas informações complementares, tais como horários, refeições, custos e moeda a utilizar nos diversos pagamentos, visto que em muitos locais apenas aceitavam a moeda local, o sol, ou dóls. USA, quando as nossas reservas estavam em Reais do Brasil e Euros.
No dia 9 de Dezembro, ainda não tinham batido as seis da manhã e já estávamos a pé. Estava escuro e um frio intenso quando nos pusemos a caminho da rodoviária situada ao fundo da rua Ponte Rosário. Passada larga e apressada para aquecer, não levou mais do que um quarto de hora até chegarmos à beira de um autocarro que ao lusco-fusco nem deu para perceber que o veículo não pertencia à empresa que havíamos consultado na véspera! Prensados entre populares peruanos encasacados ou simplesmente embrulhados em cobertores, alguns nos braços de Morfeu, arrancámos para uma das viagens mais belas que fiz até hoje.
A manhã clareou seca e com um sol magnífico a incendiar uma paisagem indescritível onde sobressaía a alvura dos picos nevados reflectindo os raios dourados do sol matinal. Lagos e lagoas de um azul cristalino, intercalando belas várzeas, muito férteis a julgar pelo viço das culturas, sucediam-se, ocupando maior extensão à medida que perdíamos altitude. Rolando a uma velocidade que me pareceu excessiva para o traçado de uma via típica de montanha, estreita e cheia de curvas e contracurvas, a nossa camioneta de tromba avançada ia largando e recebendo passageiros em cada povoado que atravessava e nalguns entroncamentos, tal qual as velhas carreiras do Portugal da minha infância e juventude. Às tantas, eram mais os passageiros que viajavam apinhados como sardinha em lata no exíguo corredor do que aqueles com direito a lugar sentado, pelo que alguém gritou: “Isto é um abuso, isto é um abuso … “, ao que motorista e condutor fizeram ouvidos de mercador. Momento digno de registo foi aquele em que o jovem cobrador teve que voar literalmente sobre as cabeças dos passageiros sentados, periclitantemente empoleirado sobre as espaldas dos assentos a fim de proceder à recolha dos poucos soles que custava cada passagem. Para sorte nossa, esta empresa viajava até Olantaitambo e por um pequeno adicional não necessitámos fazer qualquer transbordo.
Em “Olanta”, diminutivo usado pelos locais para designar a sua vila, tivemos oportunidade de passar por mais uma peripécia desta viagem quando decidimos tomar um pequeno almoço no mínimo pitoresco. Numa esquina da praça principal da terreola, uma velhota sebenta vendia uma mistela vagamente parecida com o nosso galão, e apenas no que à cor dizia respeito. Em cima do pequeno caixote a fazer de banca, atapetado a folha de jornal, uma pilha de pães espalmados de forma arredondada servia de conduto. Oferecia-os aos clientes com um pedaço de queijo autóctone encavalitado, muito acre, tragável apenas por apreciadores. Comi o pão, recusei o queijo e o que é um facto é que àquela hora da manhã (08h00), a bebida quente soube-me que nem ginjas.
De riquexó puxado por motoreta seguimos para a estação ferroviária onde chegámos em menos de 10 minutos. Aí, os controlos do costume, com identificação visual, fotocópia dos passaportes e títulos de ingresso no país como se de um posto fronteiriço se tratasse. Alguns minutos e oitenta e seis dólares depois, foi-nos dada autorização para abordar o comboio que nos levaria a Águas Calientes, numa viagem panorâmica com a duração de hora e meia. Connosco viajavam grupos de forasteiros de várias nacionalidades, todos acomodados em lugares reservados, num comboio não acessível aos indígenas, imaculadamente limpo, bastante confortável, assistidos por uma tripulação irrepreensivelmente uniformizada e muito atenciosa. O traçado da linha acompanha na sua maior extensão o canyon do rio Urubama, mas também contornámos desfiladeiros de causar tonturas, comtemplámos vales onde as omnipresentes searas de verdejantes milheirais entrecortadas por manchas de floresta e pastagens, conferem a esta região um toque de ruralidade humanizada que nós portugueses não estranhamos de todo.
Neste mesmo comboio, com partida de Águas Calientes às 19h15, haveríamos de regressar a Olanta depois de uma visita às ruínas para a qual os nossos sentidos foram mobilizados a cem por cento durante seis horas. Na viagem de regresso e após o jantar servido a bordo, tivemos o privilégio de assistir a um desfile de moda para o qual os assistentes de bordo se transfiguraram em manequins dignos de pisar qualquer palco da alta costura internacional. Sobretudo uma jovem peruana que depois de soltar os cabelos e trocar o uniforme pelos modelos que tinha a seu cargo apresentar, arrancou da assistência um ahh … ! de espanto e uma grande salva de palmas. A magana continua a visitar-me nos meus sonhos!
De Olanta a Cusco e dado o adiantado da hora, viajámos de táxi, tendo chegado ao hotel pelas onze e meia da noite, cansados mas de alma cheia. Vistoriar as mochilas e preparar a documentação, foram os actos com que terminámos o dia e preparámos a viagem de regresso a iniciar na manhã seguinte.
Adeus Cusco, até ao meu regresso!
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