domingo, 6 de junho de 2010

71 - O fim de um passeio ou "não há bem que sempre dure".

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No terraço da pousada de juventude de V. N. de Foz Côa na manhã de 28/5. Da esqª. para a dtª: Júlio, Mª da Luz, e de óculos este vosso amigo, o escriba.
Matriz de Torre de Moncorvo.

Fole de antiga forja, no Museu do Ferro em Torre de Moncorvo.

Ainda uma vista de Torre de Moncorvo.
Paisagem duriense. Um trecho do Douro Internacional.

Lá em baixo, Barca D'Alva. O rio, a barragem, um barco atracado no porto fluvial.

Castelo de Mogadouro.

Ceia na feira medieval de Miranda do Douro.

Um animador do certame.

De V. Nª de Foz Côa a Miranda do Douro.

Sexta feira, 28 de Maio. Acordar em Foz Côa numa manhã luminosa como a de hoje é um daqueles pequenos acontecimentos da vida que não é possível descrever apenas com palavras. E as imagens saltam da retina para o cérebro, procurando a segurança da casa forte onde se guardam as recordações e a saudade dos momentos felizes. É o que sinto nesta manhã ao contemplar a partir da janela do meu quarto as esplendorosas arribas do Douro e do Côa, batidas pelos primeiros raios de sol. Vestida a rigor, numa altura do ano em que predomina o verde ainda vicejante dos vinhedos com “benefício” e das frágeis florestas de amendoeiras e olivais, a região revela-nos a generosa prodigalidade de uma terra onde os menos atentos apenas destrinçariam mato, enormes fragas e solos de xisto ressequido. Aqui, o ar puro não pesa! É tão fino que penetra nos pulmões sem ruído nem esforço. Recomendá-lo-ia como um daqueles locais onde os citadinos podem vir fazer uma cura de “descarbonização” para limpeza das vias respiratórias entupidas pela poluição das suas “privilegiadas” cidades. Aqui, o sossego não significa apenas quietude, mas também paz, daquela que inunda a alma e empresta outro significado à vida. Quanta pena me faz a ignorância de certos “lisboetas”, alguns com responsabilidades, que parecendo nunca terem viajado para norte de Vila Franca de Xira, se referem ao Portugal interior como uma espécie de “traseiras” da capital. Que lástima!
De novo en route, a nossa primeira paragem ocorreu no momento em que as comportas da eclusa do Pinhão encerravam para dar passagem a um barco–hotel vindo de Barca de Alva, rumando a Vª Nª de Gaia. Um espectáculo da engenharia humana que nunca cansa admirar e … fotografar. Na vila de Torre de Moncorvo e para abrir, dedicámos parte da manhã ao primeiro cafezinho do dia, tomado na esplanada de um pequeno jardim onde florescem os únicos especímenes de azevinho arbóreo que conheço. Deambulámos pelo centro histórico, com passagem obrigatória pelo largo da matriz, que visitámos e, dado que nos encontrávamos no centro de uma importante região mineira, não poderíamos perder uma eloquente exposição sobre a matéria com que nos presentearam na visita guiada ao Museu do Ferro.
A barriga começava a dar horas quando nos pusemos a caminho dos Carviçais onde, no restaurante “O Artur”, nos foi servida uma monumental posta mirandesa, como é tradição da casa. E que nota dar às entradas onde não faltaram as alheiras, das legítimas, nacos de queijo da serra, fatias de presunto e paio? Tudo por conta do casal, nossos companheiros Manuel Ferreira e Mª da Luz que nesse dia festejavam o seu 32º aniversário de casamento. Muitas felicidades para eles e que possam dar um forte rombo nas estatísticas!
Freixo de Espada à cinta, agora moderna e airosa e Barca de Alva foram os destinos seguintes. Em pleno parque natural do Douro internacional e entre esta duas localidades, existe um ponto no mapa que é proibido falhar. Chama-se ele Penedo Durão, um miradouro sobranceiro ao Douro onde, pontuando uma paisagem deslumbrante, podemos observar uma espécie da família dos abutres, aves majestosas tanto pela envergadura como pela serenidade do voo fazendo-se elevar à altura dos penhascos mais altos impulsionadas pelas colunas de ar quente. Lá em baixo, Barca de Alva, o rio, a central hidroeléctrica, os barcos, os turistas (poucos), e a azáfama, quase nenhuma. Nesta vila existe um dos mais notáveis testemunhos do que pode ser a morte mais do que anunciada de uma importantíssima localidade raiana; a sua estação de caminho de ferro. Tratando-se de uma estação de fim de linha, internacional, não será difícil adivinhar a sua importância para a região e para o país no tempo em que as pessoas e a economia do interior contavam. Do imponente edifício de dois pisos apenas resta a cor branca da sua alvenaria, que não conseguiram roubar. Entregue ao abandono, esventrado, violado, ali jaz, sem portas nem janelas, qual cadáver rejeitado pelos cães vadios. A seu lado, um imenso hangar construído em sólida madeira, onde outrora mercadoria valiosa ou o simples cabaz de hortícolas destinado à família da cidade aguardavam o apito da partida, serve de abrigo à bicharada, completamente vandalizado. Uma tristeza! Não poderiam ao menos entregá-lo a uma associação de juventude, daquelas que buscam a região para a prática de desportos radicais como a escalada, canoagem ou rafting? Ali poderiam guardar material, instalar a sua sede ou um albergue, por exemplo. Não pode ir longe um país onde os responsáveis apresentam tal nível de negligência. Grosseira, mesmo.
De regresso ao entroncamento com a EN220, fizemos 36 kms de curvas e contracurvas, já o sol se aproximava do ocaso. Ainda com luz do dia subimos à muralha do castelo da buliçosa Mogadouro, moderna, forte em comércio e prestação de serviços à população das redondezas. A chegada a Miranda do Douro deu-se já com os faróis acesos! Para trás, espero que não por muito tempo, ficou a patrimonial e historicamente rica Sendim. Escolhido e convenientemente negociado o local da pernoita, restava-nos um bom par de horas para dedicar à bela cidade que nos acolhia. Por sorte nossa, decorria na mesma o primeiro dia de um festival medieval com a graça e o rigor histórico que os participantes quiseram emprestar-lhe. Resolvemos participar! Sentados num banco corrido, tendo à frente uma mesa tosca, fomos fartamente tratados à base porco na brasa, moelas guisadas, pão de centeio e vinho servido em malgas. Os estalajadeiros fardados a preceito, tipo albornoz de burel apertado na cinta com uma espécie de cordão de estopa, capuz e tudo, mostraram uma simpatia sem limites para com este grupo de esfaimados forasteiros. Estudantes uns, trabalhadores outros, fazem parte do grupo de pauliteiros do lugar de Malhadas e estavam ali para angariar fundos para mais uma digressão; acabavam de chegar da Venezuela. Quanto a nós, sobrou-nos alento para uma volta pela feira onde predominava o artesanato das navalhas e facalhões, tanoaria e peles. No palco exibia-se uma banda medieval francesa que tocava música do seu tempo enquanto saltimbancos, bobos e malabaristas atraíam a atenção dos visitantes. A noite estava a ficar bem fria, meteorologicamente falando, quando regressámos ao hotel para uma noite sem sonhos. Digo eu!
Juan_jovi@sapo.pt

quarta-feira, 2 de junho de 2010

70 - Na rota das aldeias históricas.

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Ceia no tourist kitchen da pousada de juventude de V. Nª de Foz Côa. Da esquerda para a direita: Maria da Luz, Júlio, pai do Luís (fotógrafo de serviço!), Manuel, marido da Mª da Luz e moi-même, o Juan.
Uma praça de Trancoso.

Castelo de Trancoso. O Júlio segura a base do cruzeiro.

O grupo junto à Sé da Guarda.

Viaturas estacionadas no parque da GNR da Guarda.

Restaurante típico "O Viveiro".

No restaurante.

O Luís entrega ao vilhena o "diploma" da condecoração que lhe foi outorgada por mérito turístico.

C.M. de Almeida.

Caminhando numa rua da sua "cidade", o Henrique Vilhena.

O grupo de passeantes em Almeida.

Militar e montada (manequins) à entrada do museu histórico-militar de Almeida.
Sentinela (manequim) apresentando arma à entrada do mesmo museu.

Vista do Hotel Parador de Almeida.

Segundo dia do passeio em carros antigos. De Almeida a Vila Nova de Foz Côa.

No dia 27, quinta feira, o toque de alvorada previsto para as 08h00 da manhã só à custa de muito peito conseguiu arrastar de vale de lençóis para a sala do pequeno almoço os estremunhados passeantes, após um dia exaustivo para homens e máquinas a exigir uma noite bem dormida. Como o dever não perdoa e o combinado é para se cumprir, lá estava para dejejuar connosco no Hotel Parador de Almeida o Henrique Vilhena, distinto filho da terra e cicerone de mão cheia. Com ele percorremos todos os recantos da pequena localidade prestando especial atenção às explicações que nos dava acerca da concepção arquitectónica da fortaleza, sua finalidade e vicissitudes a que esteve sujeita, fruto de guerras e revoluções.
Terminada a visita, a caravana rumou à cidade da Guarda onde nos aguardava o almoço num restaurante típico, propriedade de uma família amiga do Vilhena. Mas antes, havia que merecê-lo e, para isso, foi necessário palmilhar, com muito gosto diga-se, a maioria das ruas e vielas da cidade dos cinco efes: Forte, farta fria, fiel e formosa! Por gentileza do comando da GNR local, as viaturas ficaram “retidas” no respectivo parque de estacionamento enquanto, empunhando “armamento” digital, atacávamos parques, jardins, igrejas e tudo o que mostrasse a patine dos anos corridos, recolhendo lembranças para mais tarde recordar. Foi um regalo para a vista e um estimulo para o apetite, de maneira que, à mesa do restaurante “O Viveiro” jaquinzinhos, fêveras, lentriscas e outros petiscos tardavam em acalmar o “lobo” que havia dentro de nós! A meio da tarde, era hora de pensar no regresso pois circular durante a noite com viaturas tão idosas pode tornar-se numa aventura com final menos feliz. Antes, havia que passar por casa de certos “contactos” para levar para casa generoso fornecimento de queijo, pão de centeio, cerejas e outros mimos. E foi aqui que se deu uma espécie de “cisão”. Enquanto uns, contrafeitos, tiveram que regressar a casa por força das suas obrigações, tanto mais que estávamos a meio da semana, um pequeno grupo do qual tive o prazer de fazer parte decidiu ampliar o âmbito geográfico e temporal da digressão. A boa disposição, o maravilhoso bom tempo que fazia na altura e o gosto pelas viagens incitavam-nos a continuar. Despedidas e promessas de breve reencontro deram-se ali mesmo à porta do restaurante, tomando o grupo “rebelde” o caminho de Trancoso. Nesta vila apreciámos um dos seus ex-líbris, as sardinhas doces, e visitámos outro, a casa onde viveu o padre Costa, o tal que fez filhos na mãe, irmãs, madrinha, tias e tudo quanto usasse saia! Duzentas e noventa e nove crianças no total, que lhe valeram o perdão de D. João II e a comutação da pena de morte a que foi condenado por comportamento indecente, dado o contributo que representaram para o processo de colonização da Beira Alta que então arrancava. O padre Costa quase me fez esquecer outra ilustre figura desta terra, o sapateiro/poeta/profeta António Bandarra (1500 – 1556) que aqui possui túmulo e estátua.
De Trancoso partiríamos tarde mas a boas horas em direcção a Vila Nova de Foz Côa onde chegámos a tempo de buscar alojamento numa excelente pousada de juventude já minha conhecida, construída a pensar nos visitantes das gravuras dos quais não se vê nem rasto. Na tourist kitchen da pousada partilhámos uma ceia “opípara” constituída por queijo da serra, chouriço, pão e fruta … e lá se foi o farnel – para as emergências - do companheiro Júlio! Ainda houve tempo para um reconhecimento by night à localidade após o que nos entregámos a Morfeu.
juan_jovi@sapo.pt

segunda-feira, 31 de maio de 2010

69 - Na estrada, com os automóveis antigos.

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Dístico do passeio, afixado sobre o capôt das viaturas.

Primeira paragem: Pedra do Altar, já no concelho de Castelo Branco.

Sob a árvore que faz lembrar a de Guernica, á entrada de Sortelha.

Torre do castelo de Sortelha.

Sortelha e o seu Pelourinho.

Restaurante "Robalo", no Sabugal.

Degustando um excelente cabrito grelhado no "Robalo".

Florin e Olívia, o casal de romenos responsáveis pelo excelente serviço do restaurante.
Numa breve paragem à sombra das muralhas do castelo do Sabugal.

Entrada do santuáro de Nª Sª de Sacaparte.

Capela no interior do santuário.

Pormenor da capela.

Estação de Vilar Formoso.

Abastecendo em Fuentes de Oñoro. Sempre é mais barato ... mas não tanto quanto se diz!

Na rota das aldeias históricas.
Primeiro dia,de Pombal até Almeida.

Cumpriu-se na passada quarta feira dia 26 de Maio o primeiro troço de mais um passeio que os “Amigos dos Carros Antigos” de Pombal realizam com alguma regularidade, buscando neles e acima de tudo, a mais pura e alegre camaradagem assim como o enriquecimento pessoal que sempre resulta do facto de em cada tour, se conhecerem novas terras e gentes. Desta vez apontámos como destino final para o primeiro dia do passeio, a belíssima vila de Almeida que muitos já conheciam, mas cuja revisita nunca cansa!
O local escolhido para a concentração foi o parque de estacionamento do restaurante Manjar do Marquês, uma das nossas melhores salas de visita, onde os retardatários do costume não chegariam antes das 08h15. Alinharam à partida 12 viaturas e um total de vinte e seis magníficos e magníficas. Depois de um curto briefing, fizemo-nos à estrada tomando o IC8 que de Pombal nos conduziu, sempre a abrir, até ao entroncamento com a A23. Não sem antes fazermos uma pausa na Pedra do Altar para arrefecimento de motores e aquecimento de espíritos, com o primeiro cafezinho da manhã. Para trás ficaram localidades merecedoras de visita como Figueiró dos Vinhos, Sertã ou Proença-a-Nova que, por fazerem parte do nosso roteiro habitual, haverão de contar connosco em próxima oportunidade.
Já na A23, prego a fundo e fé em Deus, as máquinas mostraram o quanto ainda estão para as curvas e num ápice levaram-nos até ao ponto em que passámos das corridas à marcha descontraída rumo a Sortelha, a primeira das aldeias históricas a ser visitada. Por ser um dia útil ou por escassez de algo de que muito se tem falado ultimamente (!), o nosso grupo não encontrou outros visitantes pelo que, calmamente e sem tropeções, saboreamos o passeio, caminhando através das estreitas vielas da aldeia ou sobre a muralha do seu castelo. A paisagem que daqui se avista é vasta e deslumbrante, podendo os nossos olhos nus chegar facilmente até aos contrafortes da serra maior, a da Estrela. O ar puro e a calma voluptuosa que a todos envolve abriram-nos o apetite para o almoço previamente combinado para as 13h30 no restaurante Robalo do Sabugal. Mas peixe não puxa carroça e se o robalo é muito apreciado – o cherne ainda é melhor, lembram-se? -, passar por esta região sem experimentar o cabrito há-de ser, certamente, delito grave contra qualquer coisa! Atirámo-nos a ele, à unha e com dentes, muito, grelhado, acompanhado com excelente pão e uma saladita a disfarçar. Quanto a águas nada posso dizer porque sendo adorador de um Deus abstémio … mas diziam ao meu lado que a pinga era boa. E tão boa devia ser que, depois da refeição, as pernas fraquejavam e o corpo só pedia uma sesta e assim, a visita à cidade e seu castelo já foi um pouco penosa, conteve laivos de punição pelos exageros da mesa. Terminada a visita voltámos aos automóveis saindo em direcção à vila de Alfaiates, terra de contrabandistas e outra gente boa de quem guardo gratas recordações que vêm do tempo da minha juventude, quando a partir daqui, alcançava terras de Espanha com passaporte de lapin! Alfaiates, por ser pequena e distante, não deixa de merecer uma visita com olhos e ouvidos bem atentos por duas ordens principais de razão. Sendo a primeira aquela que tem a ver com a natureza dos seus habitantes, gente franca, desconfiada à partida mas logo acolhedora e amiga da galhofa como pudemos comprovar num breve convívio. Depois, pelo seu património construído que engloba uma aldeia raiana típica, as igrejas matriz e da misericórdia, castelo, cruzeiro e na proximidade (2Km), o mosteiro erigido em honra de Nª Sª de Sacaparte, onde os monjes da ordem de S. Camilo de Lellis se dedicavam a apoiar doentes e peregrinos. Trinta quilómetros à frente e estávamos na outrora cosmopolita e movimentadíssima Vilar Formoso, hoje uma sombra do que foi até à abolição de fronteiras, a lembrar as cidades fantasma do oeste mineiro da América. Já não se vêem, como antigamente, as longas filas de camiões a aguardar pelas formalidades aduaneiras nem emigrantes ou turistas ansiosos por entrar em território nacional ou partir à descoberta da Europa. Extinguiram-se os escritórios dos despachantes, as casas de câmbio estão vazias e as bombas de combustível às moscas. O panorama é tão sombrio que até me faz ter saudades do tempo em que com o maior à-vontade fintava a guardia civil e fiscal com os meus pecadilhos de então!
Por esta hora o cansaço já pesava. Na pousada de Almeida, outrora da Enatur e agora Hotel Parador, aguardava-nos o quarto reservado onde uma banhoca sumária nos remeteu à forma para apreciar o jantar servido pelas 20h30 nas suas instalações. Depois … não houve veleidades para mais, apenas cama e bons sonhos porque o dia seguinte se afigurava duro!
juan_jovi@sapo.pt

sábado, 15 de maio de 2010

68 - Eyjafjallajökull, o caga-lume islandês.

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Esta escultura faz lembrar S. Jorge a lutar com o dragão, mas não sei ao certo o que representa. Encontra-se à frente da fachada principal da acolhedora gare ferroviária de Salamanca.
Apesar dos contratempos, tanto a Isabel como o Vasco sorriem e até parecem felizes. Será porque me viram?

Observação da Isabel (única): Quanto mais viajo e conheço outros países, mais gosto do nosso querido Portugal!

Bem, o Benfica é campeão e festejou condignamente a conquista do título, o Papa já abalou e o governo decretou assim como quem não quer a coisa, mais um apertão no cinto dos indígenas. Não fora o vulcão da Islândia, que continua a botar cá para fora toneladas de metralha, e eu nem teria banalidade sobre que me debruçar (sou um cultor de banalidades!), para proveito e alimento do Kurt. Porém, este (vulcão de) Eylafijallajökull veio salvar a minha produção literária desta semana. Em primeiro lugar, porque com um filhadaputa de um nome destes, qualquer mortal se sentirá atraído pelo fenómeno do vulcanismo, e vai daí, com interesse e muita força de Internet, quiçá consiga responder à profundíssima questão de saber se nos primórdios, quando Deus ainda era pequenino, alguém o deixou brincar com fósforos. Ainda não cheguei lá, mas já sei que em islandês, Eyja significa ilha, fjalla é uma montanha e jökull, um glaciar. Temos assim que esta fogueirita divina se localiza numa ilha onde existe uma montanha coberta por um glaciar. O resto, toda a gente sabe, pois os noticiaristas deste mundo têm enchido o papo a relatar os transtornos causados aos Ícaros do nosso tempo pelas nuvens de poeira que tomaram conta das auto-estradas do céu por onde habitualmente se deslocam os aviões. Uma simples peidoca do Criador e milhões de seres humanos ficam em transe, os que se amontoam nos aeroportos afectados e tudo quanto é hotelaria em redor, e a respectiva parentela no local de destino dos mesmos. E assim me foi dada também a oportunidade de descrever sumariamente uma viajem relâmpago, completamente inesperada, a que tive de me sujeitar. Num post recente, falei-vos do matrimónio da minha filha mais nova, a Isabel, com um homem de nome Vasco. Ela e este seu primeiro marido, tiveram a sua festa de casamento no passado dia 24 de Abril. Tem-se vindo a impor a tradição que obriga os noivos a fazerem uma viagem de lua de mel, de preferência ao estrangeiro e a um destino tão exótico quanto o permitam a bolsa e o número de dias concedidos para esse efeito, pela lei ou pelo boss, nem sempre concordantes. Estes meus entes queridos não são nenhuns benzetas, mas também não ficam atrás de muitos da sua geração, tanto mais que ambos trabalham e muito, garantindo o próprio sustento e dos meus netos que aí vêm. De avião viajaram do Porto para Barcelona e passearam-se entre as Ramblas, a casa do Miró e a Sagrada Família durante uns três dias após o que embarcaram num belíssimo cruzeiro pelo Mediterrâneo que durou mais uma semanita. Tiveram sempre bom tempo, a bordo e no exterior (excursões), mesa farta e muita animação. Como diz o adágio, não há mal que sempre dure nem bem que não acabe. Ou vice-versa. Chegou então o momento de voltar a pôr, literalmente, os pés em terra e voltar à rotina dos penitentes. Porém, o tal Eyjafjallajökull estendeu o seu braço e com dedos do tamanho do vento, cobriu os céus de Barcelona, Porto e depois Lisboa também. Mais três dias na capital da Catalunha que aproveitaram para descobrir muito do que havia ficado para trás, até que … o regresso era mesmo imperioso. Viveram então as 24 mais duras de todo o passeio, porventura de todos os passeios que fizeram na vida. Dos escritórios de rent-a-car para os das companhias aéreas, destes para os aeroportos de Girona e Barcelonana, daqui para as estações da Renfe e centrais rodoviárias … pode-se dizer que percorreram a via sacra dos viajantes num só dia. Para completar a cena é preciso dizer que se deixaram assaltar por um mãozinhas de veludo no aeroporto de Barcelona, o pobre diabo, na mochilita de que se apropriou não terá encontrado nada mais do que um lanche e um velho telemóvel! Para cúmulo dos azares, um dos cartões Multibanco de que os pombinhos se faziam acompanhar apareceu bloqueado, não se sabe bem porquê, o que lhes limitava o montante do saque diário.
Aqui entrei eu em acção e, frente ao computador, fui orientando os seus passos a partir das 18 horas. Encaminhei-os para um transporte rodoviário que os trouxe até Madrid onde chegaram pela uma da madrugada da passada 2ª feira, tendo pernoitado num quatro estrelas de Chamartin. Dormiram até tarde e às 11 horas da manhã de segunda feira tomaram na estação de Chamartin um comboio tipo Alfa que os trouxe até Salamanca onde chegaram pelas 12h49, hora de Portugal. A aguardá-los estava aqui o Juan. Mastigámos um quebab num bistrot da estação e juntos fizemos a viagem de regresso a casa, onde chegamos sãos e salvos muito antes da hora de jantar. A viagem até Salamanca, cruzando terras e paisagens da Beira interior (IC8, A25) num dia que se apresentou radioso, foi um encanto para os olhos e para a alma. O regresso fez-se pela A5 e A1 e não teve história. Eu é que já não estava habituado a estes caldos e, após quase oito horas de condução, fiquei com um derreaço nas cruzes que ainda não me deixa endireitar!
Saudações cordiais do,
juan-jovi@sapo.pt

quarta-feira, 5 de maio de 2010

67 - Passeio anual de Carros Antigos.

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Do lado direito da mesa: Em primeiro plano, a "cabeça" do comandante Carvalho e a seguir, o "magrinho" de camisa azul. Do lado esquerdo, o PSP Carvalho, presidente do "Quatro As"e o Juan. No topo podemos ver o Arlindo, industrial de calçado, repousando a cabeça na mão e a seu lado, de bigode, o professor Coelho.


Na magnífica “sala de reuniões” que é o restaurante Manjar do Marquês nesta cidade de Pombal, encontraram-se na passada 6ª feira os elementos da comissão organizadora do próximo passeio anual dos “Quatro As” (Associação dos Amigos dos Automóveis Antigos).
Depois dos pasteis de bacalhau, chamussas, joaquinzinhos em molho de escabeche e outras especialidades da casa que nos foram servidas como entradas, vieram umas belas postas de bacalhau dourado na sertã, os filetes de pescada e os panados de porco acompanhados pelo com o “internacionalmente” reconhecido arroz de tomate à moda do Marquês, as migas e o feijão frade. Libações, variadas e a gosto.
Recompostas as almas e os corpos (porque a barriga não tem culpa nenhuma de os negócios andarem a correr bem …), passou-se à análise de uma espécie de ordem de serviço (!), meticulosamente elaborada pelo João Isidoro, proprietário da auto-lavagem Palomas de Pombal e, por isso mesmo, também conhecido entre os amigos como o João Palomas, mas também “fininho”, “minhoca “ ou “rato do deserto”. Depois de várias tentativas falhadas para se fazer ouvir no meio daquele vasqueiral de boa disposição, o João lá conseguiu tomar a palavra para dizer que o passeio se realizaria nos próximos dias 26 e 27 de Maio, com saída de Pombal pelas 08h00 de 26/5 em direcção a Sortelha (Sabugal) iniciando a partir desta, um percurso pela chamada Rota das Aldeias Históricas. Ficou em suspenso uma paragem prévia em Belmonte que pela sua beleza e património bem merece uma visita, no meu entender e de outros participantes. A pernoita vai ser em Almeida, cujas muralhas de elevado interesse histórico e arquitectónico visitaremos tendo como guia um filho da terra, nosso prezado amigo e colega, Dr. Henrique Vilhena. A noite vai ser de arromba, tanto mais que se perspectiva uma “saltadinha“ a Espanha, ali tão perto e com tantos “motivos de interesse”, se me faço entender!
O dia seguinte será dedicado em parte à recuperação da noitada e o restante talvez nos permita um passeio pela região de Castelo Rodrigo, cuja gastronomia ensaiaremos com o espírito e o rigor de bons gourmands que nos consideramos.
O regresso processar-se-á a partir do meio da tarde porque as Donas Elviras são senhoras de respeito e não gostam de andar nas ruas pela noite fora. Viajaremos em pequenas colunas de três ou quatro viaturas ficando a condução do carro vassoura, uma ambulância Mercedes branca dos anos cinquenta, com sirene e tudo, a cargo do comandante Carlos Carvalho. Cuja participação está em dúvida dado que o “magrinho” cortou, atou e botou no saco, escolhendo as datas que mais lhe convinham, o que lhe valeu uma forte mas amigável crítica por parte do comandante!
Entretanto, e dado que o Inverno foi longo, as velhas máquinas vão agora sair das garagens, pois os dias de sol que se adivinham são propícios para limpar as teias de aranha dos escapes, aquecer e afinar motores. Assim, teremos um prólogo já no domingo dia 9/5 com um passeio por Terras da Sicó e almoço de reencontro e convívio na vila de Ansião. Oportunamente darei mais notícias.
Saudações do,
Juan_jovi@sapo.pt

terça-feira, 27 de abril de 2010

66 - O fim de um ciclo.

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A Isabel e o Vasco à porta da matriz de Pombal no dia do seu casamento (24/04/2010).


No passado sábado dia 24 de Abril, Isabel, a minha filhota mais nova, casou! Casamento de igreja, com vestido de noiva e madrinha tal como manda a tradição, seguido de copo de água para os familiares e amigos mais chegados. O evento trouxe-me ocupado nas últimas semanas, mais do ponto de vista psicológico do que pelos grandes afazeres que de facto não tive. Dos meus quatro descendentes, a Isabel era a solteira da família, constantemente acossada pela avó Encarnação (minha mãe) que lhe dizia “ó filha, legaliza-te, legaliza-te … “. Como pai, não poderia sentir-me mais “inchado”, primeiro porque rejubilo com a felicidade tranquila que leio nos olhos da minha Belocas, depois, porque este casamento é uma espécie de dois em um, já que além de ter ganho mais um genro, por sinal um gajo porreiro, na encomenda vem também o meu neto André, com chegada prevista lá para o mês de Setembro. Será o primeiro “homem” no meio de um enxame de primas que não deixarão de o examinar meticulosamente a ver se está tudo nos conformes.
E assim cheguei ao fim de mais um ciclo dos vários em que se desdobrou a minha vida pessoal, profissional e familiar. Outro começou há já algum tempo e vai ficando cada vez mais claro, aquele que implica um certo apagamento da minha identidade pessoal em detrimento de um reforço da identidade por afinidade. Pois tenho notado que com o passar dos anos, deixei em larga medida de ser “fulano de tal”, para passar a ser conhecido como o pai de … e de …, e agora também o avô da Inês, da Carolina da Joana, da Mariana etc. E do André, daqui por dois anitos, quando for levá-lo ou buscá-lo à sua escolinha.
É uma transição serena que se faz com muito gosto e grandes projectos! Já me imagino a conduzir um mini-autocarro com a cambada toda na maior desbunda, seja na loucura das viagens “à moda do avô” ou simplesmente a caminho da praia com pic-nic, gato e cão a bordo, e aqui o velhadas a prometer porrada a torto e a direito numa tentativa, sempre frustrada, de manter a ordem. Assim aconteceu com os pais!
Este é também um momento excelente para fazer um balanço da vida vivida. Valeu a pena, estou de medida cheia e tudo graças este investimento fabuloso chamado família, que me faz sentir milionário entre os milionários, Deus no céu e eu na terra!
E aqui vai a minha profissão de fé: Creio na família à moda antiga, creio no amor e na solidariedade entre os seus membros, creio na criançada de hoje que há-de conduzir o destino do mundo no futuro e acredito que envelhecer tranquilamente na companhia dos amigos até chegar a hora da “passagem”, é o melhor destino que podia estar reservado para qualquer ser humano.
Ah, mesmo a terminar queria deixar bem expresso o meu orgulho por ter agora a meu lado uma “força de combate” especial, constituída pelo filho e três genros. É que se a coisa algum dia ficar preta, aquelas que eu haveria de apanhar sozinho ... distribuídas pelos cinco … até já me sinto aliviado!
Até ao próximo post, saudações do,
juan_jovi@sapo.pt

segunda-feira, 12 de abril de 2010

65 - Do Algarve, com amizade e muito sol.

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Caminho em terra batida, ciclável, que da minha casa (caravana) conduz ao canal da Fuseta.

Ao fundo, a lota, vendo-se também várias embarcações da pesca artesanal.

Dois galeirões tomando banhos de sol na margem do canal. Por aqui a vida selvagem é muito diversificada principalmente quanto a aves.

Outra vista da Fuseta, tomada do lado de sotavento do canal.

Ria Formosa. Embarcações dos pescadores da "Cidade sem Lei"

Zona de sapal.

Ria. Ao fundo o cordão arenoso da ilha de Armona.

O antigo posto da Guarda Fiscal da "Cidade". Um ex-líbris hoje transformado em local de lazer.

Vereda que faz a ligação entre a EN 125 e a Cidade. Ao fundo, um pequeno largo e a Ria.

O arvoredo pertence ao Camping da Fuseta.

A Fuseta vista da minha caravana ...

Uma "casa" na pradaria!

E para terminar este magnífico pôr do sol sobre as salinas aqui ao lado.

Uma história de insucesso!

Numa época em que eu nem sequer sabia onde ficava o Algarve, passou na simpática vila da Fuseta, a mesma onde a ti’Anica terá deixado a barra da saia preta, um western chamado “Cidade sem Lei”. O filme foi projectado ao ar livre como era usual na época, tendo por écran um lençol mais ou menos resguardado sob um toldo de pano. A assistência era numerosa e distinta, para além dos filhos da Fuseta compareceram em peso os habitantes de uma localidade vizinha, a Arroteia de baixo, a quem os fusetenses chamavam “montanheiros”, talvez por os acharem menos civilizados. Grandes apreciadores do cinema de acção onde houvesse abundante distribuição de murro, tiro e facada, os montanheiros não tardariam, ainda durante a exibição do filme, a assumir comportamentos inspirados por aqueles machos barbudos que de revólver em punho fulminavam os adversários à velocidade do relâmpago. Tudo se agravou quando às tantas caiu um pé de água tocada a vento que levou pelos ares fora, toldo, écran, câmara de projecção e restantes atafais da arte. O banzé foi tal que, ainda hoje, no reino de Portugal e dos Algarves, d’aquém e d’além mar, o pitoresco lugar de Arroteia de baixo, localizado na margem da Ria Formosa, freguesia da Luz de Tavira, a escassas centenas de metros da EN 125, é conhecido como a “Cidade sem Lei” ou simplesmente “a cidade”.

Há cerca de trinta anos, tomei uma decisão radical. Desse por onde desse, iria ser rico!
Na altura, o que estava a dar era o negócio da construção civil pelo que decidi tornar-me “promotor imobiliário”. Entusiasmo vários níveis acima do q.b. tanto mais que naquela belíssima manhã de um 5 de Outubro, um auspicioso arco íris parecia emoldurar o meu horizonte para onde quer que me virasse, aí venho eu direito ao Algarve, livro de chéques no bolso e vontade férrea de me lançar no mundo dos negócios.
Comecei por S. Vicente e, palmo a palmo, fui batendo a costa algarvia à procura do recanto mais idílico que pudesse existir nesta região. Encontrei-o ao fim da tarde, paredes meias com a Ria, situado a uns cinquenta metros de um imenso lençol de água azul turquesa, na novíssima urbanização Vila Bragança. Tranquilo, ao mesmo tempo belo e selvagem, onde nem sequer cheirava a turista, este pedaço de paraíso, perdido numa terra que já era mais de beefs e de bosches do que de indígenas, era o milagre que eu procurava. Obtive informações e no dia seguinte, de regresso a casa, passei pelo escritório do promotor que na altura residia em Almada, acabando por adquirir nada mais, nada menos do que três lotes de terreno para construção, pela astronómica (para o meu gabarito!) soma de seis milhões seiscentos e cinquenta mil escudos!
Infelizmente, ganhar muito dinheiro em pouco tempo, não era o desígnio que a divina providência me tinha reservado. E para isso chamou a minha atenção da forma mais radical. Uma semana depois, na data acordada para a escritura e quando já me encontrava no escritório notarial, recebi a trágica notícia de que o vendedor havia falecido. Assim, sem mais nem menos, nem prenúncio de doença oculta ou conhecida, o jovem de quarenta anos come uma barrigada de castanhas regadas a tinto de boa cepa, pois tinha condições para isso, sente-se mal e vai parar ao hospital de S. José onde se finou sem um pio. O imbróglio que daí resultou é simplesmente inenarrável. O homem tinha um sócio (sociedade irregular), deixou viúva e filhos menores. Até deslindar o que pertencia a cada um dos sócios, à viúva e aos putos, a justiça andou pelas calendas. E eu, sem escritura da aquisição dos lotes, não podendo por isso construir ou vender … desanimava, atribuindo o meu infortúnio ao mau olhado dos invejosos! Com o tempo, tudo acabou por se resolver.
Conformado com o facto de que afinal iria ser pobre para sempre já que a minha prometedora carreira de pato bravo foi tão efémera que terminou antes de começar, descoroçoado com a montanha das formalidades legais, acabaria por instalar uma caravana num dos lotes, o que me permite gozar, assim como á família, deste pedacinho de paraíso privado, aqui, num sítio a que chamam a Cidade., de onde envio abraços para todos os meus amigos e visitantes.
Juan_jovi@sapo.pt