sexta-feira, 13 de abril de 2012

85 - Jodhpur.

Para nós o dia começa sempre cedo. Às sete da manhã está o pessoal todo de pé, na vã ilusão de que iniciando o programa diário bem cedo se consegue escapar à tortura deste calor sufocante. Hoje, após o frugal pequeno almoço, torradas e café com leite ou chá, foi só colocar as bagagens no carro e “en route”. Estamos a 11 de Abril e o nosso destino será Jodhpur ou cidade de Jodha, um Marwar que por aqui estabeleceu o seu reino no Séc. XV, tendo mandado erigir um palácio fortificado que é o orgulho desta cidade. Lá iremos.
Percorridos os primeiros vinte ou trinta quilómetros e já as minhas cruzes começam a protestar devido aos solavancos. A estrada está em péssimo estado para os nossos padrões e só veículos verdadeiramente resistentes conseguem bater diariamente estes percursos sem se danificarem.

Uma movimentada vila no interior do Rajastan.

Estrada rural.
Oficina de reparação de pneus.

 Pelo caminho vamos tomando contacto com aquele que parece ser o mais importante negócio da região; a indústria da pedra. Tractores e camiões, carros puxados por bois e camelos, mulheres e homens de cesta à cabeça … tudo carregando pedra. Pedra em bruto, pedra aparelhada para construção, esteios de pedra, pedra para queimar em grandes fornos de alvenaria onde se transforma em cal. E muitas pedreiras onde miúdos e graúdos britam pedra. Parece que estamos no planeta da pedra! Através de pó e buracos vamos rolando a uma velocidade média que não ultrapassará os cinquenta Km/h. Não há sinalização visível e por diversas vezes o nosso motorista Sanjay teve de indagar junto dos transeuntes qual o melhor itinerário e nalguns casos teve que fazer marcha atrás. A paisagem não mudou em relação ao troço anterior. Para além de alguns grandes afloramentos rochosos não avistamos senão a vastidão e secura da planície. Quebrando a monotonia, grupos de mulheres nos seus belos trajes tradicionais multicolores, qual pincelada de vida nesta paisagem aparentemente estéril (nesta altura do ano), caminham ao longo da estrada. Com passo lento, como se não tivessem rumo definido, podem vir caminhando há horas. Por perto não parece haver nada que possa interessar-lhes; nem mercado, dispensário de saúde ou escola para os filhos, nem posto de trabalho. Apenas elas e o seu destino de mulheres.

À chegada ao Heritage em Jodhpur.

São 15.00. Acabamos de chegar a Joddhpur. Um percurso de um pouco menos de 200 Km que deveria ser feito em três horas demorou quase cinco. Do mal o menos, chegámos bem e no Hotel Heritage somos recebidos com simpatia. Ficámos instalados numa verdadeira relíquia. O edifício tem trezentos anos e terá sido mandado construir como hospedaria. Está na posse da mesma família desde 1902. Totalmente restaurado, dos móveis à decoração passando pela própria estrutura do edifício, tudo nele transporta o nosso imaginário para um passado onde o tempo tinha tempo e havia tempo para os artífices se poderem exprimir através da sua arte em cada parede de alcova, porta senhorial ou janela de “vidrinhos”primorosamente trabalhadas.

A entrada do hotel.

Do terraço do Heritage tínhamos uma excelente vista para o Forte de Jodhpur.

A cidade azul.
Jodhpur, também chamada cidade azul pelo facto de, sendo muçulmana uma parte importante da população, esta privilegiar a cor azul no embelezamento exterior das suas casas. É também a porta de entrada para o deserto do Thar que fica aqui ao lado. E das muralhas do seu forte avista-se a região que faz fronteira com o Paquistão. A cidade parece-se com qualquer outra das que conhecemos do norte de África, uma imensa “casbah” com ruas estreitas, labirínticas, apinhadas de gente que se desloca em todos os sentidos. E se nalguns casos os tuck-tuck conseguem circular à força de buzinadela e "chega para lá", o trânsito é um verdadeiro pandemónio. Aqui, comerciantes e artesãos executam e vendem os seus trabalhos em diversos “souqs”, onde se ouvem também os pregões dos vendedores de fruta, misturados com o chamamento do muezim que através de potentes altifalantes não se cansa de atraír as suas ovelhas para os caminhos da salvação. Jodhpur é a segunda cidade do estado do Rajastan, em população e em importância. Tem ensino superior de qualidade e nalguns trechos da cidade é visível a chegada do progresso, como não podia deixar de acontecer num país que tem um dos índices de crescimento económico mais elevados do mundo.
Terminada a visita à cidade (as fotos seguem dentro de momentos!), partiremos amanhã para Jaipur, a capital do estado do Rajastan. De lá vos enviarei, assim espero, mais notícias.

Muralhas do Forte e palácio dos Marajás de Jodhpur (Mehrangarh Fort).
Fundado no ano em que Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia, este forte é o segundo mais importante do país. Situa-se no topo de uma colina com 150 metros de alura de onde domina toda a cidade.

Praça em Jodhpur.
Pormenor do Forte.

Jaswant Thada também conhecido como o mini Taqj Mahal.

Umaid Bawan palace. Concluído apenas em 1944, serve de residência oficial ao actual governador (Marajá) de Jodhpur. Para rentabilizar o palácio, numa das suas alas encontra-se instalado um hotel de luxo.

juan_jovi@sapo.pt

quinta-feira, 12 de abril de 2012

84 - Pushkar.


Uma viagem ao cú de judas!
Manhã de 2ª feira, 9 de Abril. São 08.30. Pontual, o nosso motorista Sanjay Kumar aguarda-nos no lobby do hotel. É um hindu de 27 anos, filho de pequenos agricultores que não conseguem retirar da terra mais do que o estritamente necessário para a sua subsistência. Baixote, anafadito, cabelo quase rapado já com duas razoáveis entradas a propagarem-se ao cocoruto, parece contrariar a generalizada magreza da maioria dos seus concidadãos. Tem mulher e dois filhos. Parece um puto porreiro e vai ser o nosso guia-intérprete, motorista e guarda costas durante dez dias. Do ponto de vista profissional é importante que tudo corra bem, diz ele. Dos passeios e visitas às idas às compras, passando pelos cuidados na condução e questões de segurança, tudo o que nos diga respeito, a ele diz respeito. Foi-nos apresentado pela agência a quem contratámos o tour. E para que não houvesse surpresas, acompanhou-nos como táxi-driver durante um dia inteiro num city-tour em Delhi. Com a condição de ser substituído caso surgisse alguma “incompatibilidade”. Tal não aconteceu e até agora a sua prestação tem sido boa, revelando-se uma pessoa muito prestável.
O nosso carro.
A viagem até Pushkar foi apenas um pouco menos do que infernal. Sete horas dentro de uma carrinha Toyota tipo monovolume (SUV) sob temperaturas da ordem dos quarenta graus. É fogo! Felizmente o ar condicionado funcionava bem e havia espaço suficiente dentro do veículo. As duas primeiras horas de condução foram absolutamente impróprias para cardíacos. Não vale a pena entrar em grandes pormenores porque só vendo. Nada do que aprendemos nos códigos da estrada europeus é válido aqui. Por exemplo, é “normal” circular nas autoestradas em contramão. Até a polícia o faz. E ninguém acha estranho, ninguém se exalta e… quase não há acidentes! O único comentário que ouvi, porventura o mais negativo foi: “incredible Índia”. Tão verdadeiro! Ultrapassadas as resistências da zona do aeroporto (IGIA) e da cidade satélite de Gurgaon, parecia que íamos entrar numa fase de acalmia de trânsito. Puro engano, porque logo a seguir começámos a apanhar com o trânsito de pesados em cima.
Dentro da carrinha seguem seguramente uma dúzia de passageiros. Os excedentários viajam empoleirados como podem sobre tejadilhos e capôt. Este, veio para a fotografia porque teve sorte, viaja à larga!

O Sol mostrava-se particularmente castigador para os milhares de jornaleiros que àquela hora cegavam à mão gabelas de trigo. Os pequenos feixes de palha ficavam dispersos pelo solo enquanto as espigas seguiam para a debulha em alcofas gigantescas. Da estrada avista-se o barraquedo improvisado onde vivem estes trabalhadores. Um mar de tendas que se elevam um pouco acima do nível do solo escaldante. De aspecto tão andrajoso quanto o dos seus proprietários. Ali, onde a vida parece impossível até para os animais famintos que encontramos a vaguear, a luta é apenas por mais um dia de sobrevivência. A meio do percurso entrámos numa zona de autoestrada onde os troços em reparação se sucediam a curtos intervalos com os consequentes engarrafamentos e as habituais manobras do “salve-se quem puder” De um e outro lado da via, a paisagem tornava-se desoladora, árida e ressequida a fazer lembrar o nordeste brasileiro em período de seca. Finalmente, a tão desejada paragem para almoço e uns minutos de repouso num restaurante de berma de estrada. Não era mais do que um telheiro coberto, com meia dúzia de mesas asseadas e ambiente fresco devido ao “esforço” de dois grandes ventiladores-evaporadores de água. Ar condicionado natural! Ao menos havia bebidas frescas e comida. Após o almoço e a menos de uma hora da chegada, era já curta a distância que nos separava do sopé de uma cordilheira montanhosa que desde o meio da viagem vinha balizando o nosso horizonte. E quase de súbito, que o mesmo é dizer, sem aumento do tráfego, nem zonas industriais ou edifícios de maior porte, chegámos ao nosso destino: Pushkar.
Pushkar. Lago sagrado
Pushkar. Lago sagrado e escadaria circundante onde, ao fim da tarde, marabus e outros aldrabões aliviam os turistas em algumas rupias.
Uma rua comercial de Pushkar. Por acaso (!), aquela que dá acesso ao lago.
A aproximação aos "banhos" tem de ser feita sem os sapatitos!

Pequena cidade, (não terá mais do que cinco mil habitantes), aninhada num vale rodeado por serrania, parece dispor de água com abundância e possui alguns recursos agrícolas e pecuários. Vimos dromedários, cavalos, gado bovino e caprino.
Vacas "sagradas", alimentando-se numa montureira de lixo.

Também vimos algumas cabras, nacinais e estrangeiras.
No entanto, ficou-nos a impressão de que o motor da sua economia se encontra no turismo religioso. Aqui encontramos templos, falaram-nos em 400, representando praticamente todas as confissões religiosas da India. E a visitá-los, magotes de “ocidentais” que aqui deixam as rupias que fazem movimentar a economia da cidade. Não sei porquê mas, esta localidade traz-me à mente algumas comparações com Fátima.
Ao fundo, um templo sobre o cume de um monte.
Templo hindu, um dos muitos que podemos visitar nesta cidade.
 Com a diferença de que na nossa terra não se circula em ruas com pó a dar pelos artelhos. Nem há estrume de bovino a atapetar os passeios enquanto os ditos repousam pachorrentamente à sombra dos inúmeros botecos ou procuram um nico para comer numa das muitas montureiras de lixo que por aqui se vêm. E quando não há mesmo mais nada, observámos nós, até vai um pedaço de papel, canelado, de embrulho, com ou sem tinta … o freguês escolhe. Mais sorte parecem ter os camelos que pela trela, e com os seus homónimos humanos montados no dorso, sempre vão ganhando para a côdoa!
Na piscina do hotel.
O Luís Ferreira, meu "sócio" nesta aventura.
Isto é Pushkar! Onde alguns veem rezar, outros meter umas brocas e até vi mulheres, naturais do sítio, de charrito na boca. Aqui ninguém pode tomar bebidas alcoólicas nem comer nada que cheire a carne. E carne com cheiro (!!!), provavelmente só com dia e hora marcada e consentimento divino. Pergunto-me, que c* vim eu fazer a este cú de judas? Amanhã seguiremos para Jodhpur.
juan_jovi@sapo-pt

83 - Delhi em dia de Páscoa.


Delhi num Domingo de Páscoa. Porque só hoje, Domingo de Páscoa, dispus do necessário recato e serenidade para elaborar o presente texto. E a primeira reflexão que me ocorre é esta: Em viagem, a família e o nosso pequeno mundo do dia-a-dia nunca deixam de estar presentes. De maneira que, passar um dia particularmente significativo na nossa cultura como é a Páscoa, longe de casa e dos nossos, constitui um razoável abanão para o moral das tropas! Pior ainda quando esta data festiva nada significa para os indígenas. Embora tenhamos apreciado a partir do terraço do nosso hotel algum fogo de artifício na noite a que chamam de Good Friday, sendo este um importante feriado nacional na Índia, não existe aqui qualquer relação com o simbolismo que este dia tem para os cristãos. Quanto a nós, tivemos ainda assim o grupo; o sentimento de pertença a esta pequena “matilha” constituída pelos companheiros de viagem que nos conforta e ajuda a suavizar o peso da saudade. Felizmente amanhã já é segunda feira (nove de Abril), data acordada para o arranque de um programa muito “pesado” de visitas: Serão percorridos cerca de 3 mil quilómetros em dez dias e passados a “pente fino” ícones do turismo mundial tais como: Agra, Pushkar, Jaipur, Udaihpur, Rantambhore, Jodhpur, Varanasi etç. Quanto à ilustração da viagem, como se espera através de fotografias … nada feito! Todos os hotéis e alguns locais públicos nos facultam acesso aos respectivos servidores mas, a velocidade do up-load é tão baixa que torna inviável o carregamento de fotografias. Fica para a próxima, se não antes, logo que cheguemos a Portugal.
juan_jov@sapo.pt

terça-feira, 10 de abril de 2012

82 - Cá estamos!


O nosso grupo reunido na manhã de 04/04 à porta do hotel Daya Continental (próximo do aeroporto) onde passámos a primeira noite.
E aqui no lobby do Le Cosmos, já no centro da capital, ao lado da New Delhi Railway Stn.
-
Nesta viagem não tem havido contratempos dignos de registo. Ao fim de quase uma semana de íntima convivência, o grupo mantem-se coeso, mesmo depois de uma forte altercação entre o autor e um dos elementos da nossa “secção feminina”. Estas coisas acontecem e por experiência, considero-as inevitáveis. Não sei se é por causa do frio ou do sol que o pessoal apanha na moleirinha, o facto é que certos ataques de hipersensibilidade surgem de repente sem se perceber bem o porquê e de um momento para o outro um belo projecto pode ser posto em causa. No caso, porém, tudo se compôs e a paz voltou a reinar na comitiva. Estava capaz de dizer que até houve um reforço dos de amizade e confiança mútuos.
Numa zona conhecida como a área dos edifícios governamentais: Ministérios do exército , marinha e força aérea.
-
Os dias precedentes têm sido “duros” em matéria de exigência física e psicológica. Viajar através de uma cidade totalmente desconhecida com 16 milhões de habitantes já é tarefa que não se pode considerar fácil. Procurar nela a conveniente acomodação em termos de localização e preço, sempre negociado, não é coisa para maçaricos. Mas foi isso mesmo que fizemos, com sucesso! A capital da Índia recebeu-nos com um tempo magnífico com apenas um senão: Aqui está uma brasa do caraças. Imaginem o que é beber cinco litros de água por dia e urinar … nada! No entanto, o nosso organismo está a adaptar-se a esta nova realidade climatológica e já não exige tantos líquidos. O olfato também já bloqueou os receptores para certos cheiros como os de água choca, urina e fezes humanas omnipresentes nas ruas um pouco mais afastadas da Connaught Place. E a mente também não acredita no que os olhos vêm quanto ao nível de higiene ou falta dela nos diferentes cafés, bares e restaurantes de que fomos clientes improváveis. Um outro problema é o da poluição, aqui bem “visível” através de uma névoa que a certas horas quase encobre o sol, ou dos lenços a tapar a boca e narinas de alguns nacionais e estrangeiros.
Há cinco dias em Delhi, tendo-a cruzado em todos os sentidos pelos vários meios de transporte disponíveis, não pudemos apreciar mais do que uma pequena fracção daquilo que esta grande capital tem para oferecer ao visitante. Templos, palácios, museus, espectáculos, parques e jardins … Senhores de uma cultura tão vasta e antiga como o mundo, os indianos de hoje, pela sua riqueza interior, obrigam-nos a reflectir sobre o pretenso vanguardismo da civilização ocidental. A pobreza material, ou pior ainda, a miséria mais extrema, incomodam. Mas teremos nós algo de verdadeiramente genuíno e sobretudo desinteressado para lhes ensinar quanto á forma de gerir as suas vidas? Duvido. E eles também! Voltando à Terra e à viagem, a maior dificuldade que temos encontrado prende-se com a comida. Já experimentamos os restaurantes dos hotéis, os Mac, os “mid-range” restaurantes, até a Chaat ou street food. E é sempre a mesma coisa, as ementas são uma verdadeira copy past umas das outras: Chicken ou mouton, arroz e tudo muuuito spicy! Uma tortura para o paladar portuga. De tal maneira que, para meter na boca algo que se parecesse com comida de gente tivemos de ir a um restaurante chinês! Devo realçar a boa vontade e simpatia do pessoal da cozinha do nosso hotel em Delhi, Le Cosmos, que se esforçou para introduzir na ementa algumas modificações a nosso gosto. Sem grande sucesso, na minha opinião. No meu caso, valem-me as green salads, o plain rice (arroz branco), as tostas de queijo ou manteiga com geleia e o chá ou café com leite. Independentemente do nome que se dê à refeição. A fé e a esperança mantem de pé estes mil e trezentos milhões de seres humanos. Eu também espero encontrar um sítio onde me sirvam uma bela costeleta de boi assada na brasa ou uma posta de robalo com hortaliça ou uma sardinhada (batata com pele, tomate, pimento, pepino e a fechar, melããão, muito, daquele casca de carvalho de Almeirim …). Desculpem, já é tarde, adormeci e estava a sonhar!
Mais algumas fotos:
Templo indu de Birla
Mesquita deJama-masjid.
      Com um "feirante" no mercado popular (Bazar) ao fundo da escadaria de acesso à mesquita.
Aqui com o "motor" do meu Rickshaw numa volat pelo Bazar.
De Rickshaw, Manuela e Mª da Luz.

Espaço ajardinado à volta do Red Fort
Memorial de Gandhi

O grupo junto ao memrial de Gandhi.

No Templo de Lótus.
O Luís Ferreira junto à Porta da Índia.
Juan_jovi@sapo.pt

terça-feira, 3 de abril de 2012

81 - Roteiro Indiano.

Na frente Leste ... além das quatro horas e meia de diferença horária, nada  de novo!
Os dias 1 e 2 da viagem estão a decorrer como previsto. A única bronca que nem chegou a sê-lo verdadeiramente, foi o ter estado dentro do avião da Lufthansa pousado na Portela durante mais de hora e meia à espera que os senhores controladores aéreos franceses - em greve! - dessem luz verde para a descolagem. O nosso comandante ainda pensou seguir outra rota sobrevoando o espaço aéreo britânico mas a autorização não veio. E eu a vê-los passar! E o meu voo de ligação em München (em alemão, pois claro ...) em risco de ir à viola. Finalmente tudo se compôs. À chegada à Alemanha tínhamos à espera um elemento do Staff (outra!) de terra da companhia que me obrigou a pôr a língua de fora numa correria louca até ao terminal onde, impaciente, nos aguardava o mais garboso Airbus onde assentei o traseiro até ontem, um A 360-600. A lebre desta maratona era uma ela, corria que nem uma perdiz no mato, sempre a olhar para trás não fosse a sua "manada" tresmalhar. A viagem em si foi do melhor, aquilo são gandas máquinas. A comidita é que não é bem aquilo a que estamos habituados mas deglute-se sem grande esforço. Por outro lado, nunca vi oferecer tanto alcóol aos passageiros como nesta viagem. Ao meu lado sentou-se uma jovem anilhada, muito bonita. Como tinha feições de quem é lá "daqueles lados" e parecia de poucas conversas, achei por bem não me esticar com a palheta. Dado que viajo apenas com a mochilita, às sete da manhã de hoje, três de Abril, já estava na rua cumpridas que estavam as formalidades aduaneiras e no departamento (guichet) da imigração. Neste campo, os indianos são insuperáveis. Para além de terem aeroportos de luxo como é o Indira Gandhi, nas horas de ponta têm gente suficiente nos serviços de controle e segurança de modo que quase se não dá por eles. Depois, fruto de muito trabalho de casa efectuado nas semanas precedentes, foi tudo muito fácil. Primeiro tomei o Metro (Airport Express) até à estação de Aerocity próximo de Palpur onde, caminhando um pouco, não tive dificuldade em encontrar o hotel conveniente, nem bom nem mau, antes pelo contrário. Concluídas as negociações da praxe quanto a tarifas, instalei-me ainda não eram dez horas da manhã. Duche, pequeno repouso, almoço no "Moti Mahal Delux" - é p'rá desgraça, é p´rá desgraça! - e sesta. Por hoje, estamos quase conversados. Quase, porque quando for meia noite, hei-de estar de novo no aeroporto aguardando a chegada do resto da malandragem. Vão encontrar a papinha toda feita graças aos cuidados aqui do mouro!                             
Pela manhã de amanhã, terão o primeiro contacto com um "mundo real", bem diferente do nosso. Se se aguentarem bem nestes primeiros dias, não tenho dúvidas de que  ficarão imunizados para o resto da vida contra os pruridos causados miséria e imundície a rodos a par da ostentação de sinais exteriores de grande riqueza. Meus caros, o paleio já vai longo, mas há uma razão para isso. Quero compensar-vos pela falta de fotografias já que a p. da Internet neste filho da p. de hotel é tão lenta que eu desisti de fazer o respectivo up-load.
Para todos, cumprimentos e larguras deste vosso amigo,
VJ, o mesmo que,

quinta-feira, 29 de março de 2012

80 - Índia, de novo.

Este é o team da Índia. Da esquerda para a direita: Vítor, este vosso amigo (alias Juan jovi), o Antero de Quental na praia de Santa Cruz (diz que não vai!), a Maria da Luz, a Manuela, o Manuel Ferreira marido da Mª da Luz e o Luís Ferreira, primo do Manuel.
-
Disse no último post que em breve voltaria ao contacto. Para minha satisfação pessoal e deleite de um punhado de amigos e seguidores que se interessam por aquilo que para aqui ouso escrevinhar. Hoje venho apresentar o póximo projecto de viagem e a equipe que dela fará parte. Na verdade, para esta viagem não elaborei qualquer esboço de programa. Em 2005 visitei a antiga Bombaím, agora Mumbai e também Pangim, Goa e as suas excelentes praias. Por isso já tenho algumas ideias sobre o país e seus habitantes. Desta vez limitei-me a ler umas coisas na Net sobre os estados de Rajastan e de Utar Pradesh no Norte, onde passearemos durante todo o mês de Abril. Nova Delhi, Agra, Varanasi, Jaipur, Jodhpur, Bikaner ... são meras possibilidades, com excepção da capital (Delhi) que será a nossa porta de entrada.
Comme d'habitude, viajaremos ao Deus-dará, conforme o estado de espírito e os apetites. Sem compromisso de datas a não ser a do regresso, sem a pressão de horários nem objectivos a atingir. De avião, combóio, taxi, balsa, rickshaw motorizado ou a pedal, talvez até de elefante! Conto partir da minha cidade - Pombal - com destino a Lisboa num Alfa ou Intercidades (se não houver greve!) onde, por volta das 14.20 apanharei um voo da Lufthansa para Munique. Daí até Nova Delhi é um saltinho! Em princípio, chegarei pelas 06.45 da manhã de 3 de abril. Pelos meus cálculos não terei um dia fácil dado que me compete, como batedor, preparar a chegada dos meus companheiros de viagem. Eles vão partir um dia mais tarde e a sua chegada ao Indira Gandhi International Airport (IGIA) ocorrerá a horas impróprias, pouco depois da meia noite do dia 4 de Abril. Assim sendo, terei uma janela de mais ou menos 16 horas para explorar a cidade, escolher (e negociar!) hotel, fazer as respectivas reservas, tratar das operações cambiais e apalavrar taxista ou familiarizar-me com a linha de metro. Muito trabalho pela frente como se pode ver. E tudo à borliú e de muito boa vontade! Das muitas peripécias em que certamente iremos estar envolvidos vos darei conta em próximas comunicações.
Até lá,

quinta-feira, 22 de março de 2012

79 - De Pombal ao Cabo Norte.

Esta é a latitude do Cabo Norte (Nordkapp em norueguês) bem acima do círculo polar Árctico.
- E este é o ícone mais conhecido do Nordkapp.
-
No último ano e tal não tive saída que valha a pena referir, a não ser uma saltada ao Cabo Norte, empresa desde longa data registada na minha agenda de viagens. Esta deslocação ocorreu entre os dias 27 de Junho e 4 de Julho do ano passado, muito próximo do solstício de Verão a melhor altura para visitar aquelas paragens, na minha opinião. Há quem goste de fazer a viagem no Inverno para apreciar o espectáculo fabuloso das auroras boreais. No entanto, para nós povos do sul, não é fácil suportar aquela invernia com temperaturas óptimas para ursos brancos. Por isso optámos por ir ao encontro do Sol da Meia Noite. Eu e o Luís Ferreira, meu sócio nestas andanças, arrancámos de Leiria a bordo de um expresso da Rodoviária em direcção a Faro onde, pelas 07.30 da manhã, apanhámos um voo da Ryanair com destino a Oslo. Não aconselho o procedimento! Foi uma noite de vela, num machibombo cujo conforto deixava muito a desejar. E se a viagem na low cost é perfeitamente acessível, que se tire daí a compensação pernoitando num hotel da capital algarvia. Para quem não sabe, fica a informação de que entre o aeroporto de Faro e a cidade, funciona um "shuttle" em mini-autocarro com boas condições, preço razoável e horários adequados. Além de outras paragens, os passageiros que chegam podem apear na estação da CP ou no terminal da Rodoviária.
O embarque foi extremamente rápido e sobretudo prático, com o check-in obrigatoriamente feito através da Net e o controlo de segurança a cargo de uma empresa tipo “Securitas”. Não há lugares marcados e cada um se desenrasca como pode. Por vezes há uma solicitação educada por parte dos assistentes de bordo para que algum passageiro ceda o seu lugar a fim de proporcionar maior conforto a famílias com crianças. Uma vez no ar, cafezinho, bejeca, sandocha ou jornal, são pagos a "el contado" ou com dinheiro de plástico.
Como o dia se apresentava claro, com excelente visibilidade, deu para reconhecer boa parte do nosso território, os Picos da Europa, algumas cidades francesas e da Flandres.
-
A bordo do avião da Ryanair.
-
À chegada porém, a coisa mudou de figura. Aterrámos com uma chuvinha molha tolos, fria "pa carapau" a recordar-nos que já estávamos algo longe dos nossos medianos 38 graus de latitude. Como se sabe, as low cost fogem dos aeroportos principais onde pagam taxas mais elevadas. Assim, o nosso voo terminou em Rygge, cerca de 55 Km a sul de Oslo, onde se situa um moderno aeródromo que assiste as chegadas da Ryan. A uma distância equivalente mas para norte, fica o aeroporto de Gardermoen de onde partem os voos de regresso a Portugal. Aos eventuais interessados em seguir-nos na peugada direi que não vale a pena estar com grandes explicações quanto à melhor maneira de atingir o centro da capital norueguesa. Podem fazê-lo de comboio, "bus" normal, "airport Express", … está tudo bem organizado e sinalizado e as opções aparecem-nos quase sem termos que as procurar! É outro mundo, é outra gente é outra mentalidade. São irrepreensíveis quanto a profissionalismo e a simpatia está sempre patente, do motorista de taxi ao agente da polícia ou à menina do "Tourism Office". Será que algum dia lá chegaremos? A verdade é que sendo um país culturalmente tão diferente do nosso, as suas gentes conseguem com o seu modo de ser fazer-nos sentir em casa, melhor, como se fôssemos da família. Grande Noruega! Só tem uma coisita que, para nós meias tigelas, obriga a alguma ponderação: A questão dos preços. De resto, nem é preciso matutar muito sobre o assunto porque a gente quase nem chega a ver o "money" dos indígenas a ir-se, pois tudo, mas tudo mesmo, se pode pagar com o milagroso cartãozinho de plástico. E assim a dor da separação não é tão grande!
-
A primeira acção ponderada do Luís à chegada a Oslo: Reabastecer!
-No interface rodo/ferroviário de Oslo.
-
Chegámos ao centro da cidade a horas de almoçar e foi o que fizemos ali mesmo num Mac a destoar, para menos, no ambiente geral. Depois, de mapa na mão e "à la patita", chegámos ao hotel Comfort Xpress da cadeia Choice para o qual tínhamos reserva. Sem ser soberbo, é muito agradável e sobretudo bem localizado, a cerca de 10 minutos a pé da estação central e terminal dos autocarros e a dois passos da mais famosa avenida de Oslo, a Karl Johan. Este hotel tem a particularidade de todas as operações do check-in serem efectuadas pelo cliente, daí qualificativo de Xpress.
-
O nosso hotel em Oslo
-
Com o mapa à frente, estuda-se a topografia da cidade, organiza-se o roteiro dos passeios.
-Uma vista de Oslo num dia bastante cinzento. Foto tirada a partir do terraço da Ópera.
-
Não havendo programa pré-estabelecido dedicámos a tarde a explorar as redondezas. E a noite foi mesmo para descansar dado que durante horas palmilhámos praticamente todo a zona centro. Até ao final da tarde do dia seguinte teríamos ainda tempo para completar o roteiro de visitas dado que só pelas 19.30 tomaríamos um voo da Norwegian para a cidade de Alta, bem no norte do País. Deambulámos ao longo da avenida marginal e percorremos a zona histórica próximo dos edifícios governamentais onde o bandido Anders Brevik fez explodir as bombas umas semanas depois.
-
Um parque da cidade.
-Tigre "domesticado" junto à estação central e posto de Turismo. Posso confirmar: não morde!
-
Visitámos vários parques, o campus universitário, o Museu da História cultural do Povo Norueguês, a Ópera, equivalente arquitectónico da nossa Casa da Música e na ilha de Bygdøy os museus da Kon Tiki (tema que desenvolvi em post anterior), das Embarcações dos Vikings e da Fram, navio famoso por ter estado ao serviço dos exploradores das regiões polares.
-
A Ópera, edifício recentemente inaugurado, magnífico exemplo da moderna arquitectura norueguesa.
-
Outra perspectiva do mesmo edifício. E o interior? É preciso ir lá e ver. Nós vimos!
-Na esplanada da Ópera, deserta no dia da nossa visita devido ao tempo desagradável que fazia.
-No centro.
-
Em frente ao Museu Alfred Nobel.
-No Museu da História e Cultura do povo norueguês.
-
Idem. Edifício religioso datando dos primeiros tempos da cristianização.
-No mesmo museu, dança popular infantil.
-E no final da visita, sai mais um snack!
A caminho de Bygdøy, a ilha dos museus.
-Em frente ao museu da Kon-Tikki.
-Réplica da embarcação Kon-Tikki, nome escolhido em homenagem a uma divindade Inca. Foi construída em Hutajata nas margens do lago Titicaca (Bolívia) tendo nós visitado o estaleiro e um dos seus construtores, o senhor Paulino Estéban.
-Nordlys, o nosso hotel em Alta onde nos pregaram uma partida: não registaram a reserva para o regresso
-
Ao fim da tarde de 28/6 chegámos ao nosso hotel em Alta, o Nordlys, tendo para isso tomado um táxi no aeroporto. Mais uma vez tendo por companhia chuva miudinha e frio intenso. Programa para o resto do dia, porque nesta latitude já não há noite: Jantar e cama. Adormecer é que não é fácil quando lá fora e a desoras temos a claridade do meio dia! Entre o nosso alojamento e o centro da cidade distariam cerca de 2,5 km que percorremos a "butes" no dia seguinte, com vista não só à melhoria da condição física para o "ataque" ao Norkapp mas visando também o reconhecimento pormenorizado dos pontos de interesse daquele burgo. Procurámos e obtivemos informações sobre o local de partida, horários e custo do bilhete do "Buss" que nos haveria de transportar até outra cidade, Honningsväg, situada uns duzentos e quarenta km mais a norte, já muito próxima do nosso destino. Apenas a cerca de 34 kms daquele que dizem ser o local habitado situado mais a norte no Planeta (há controvérsia), não considerando as ilhas Svalbard. Ainda em Alta tivemos oportunidade de visitar o Museu das Gravuras Rupestres, grande parte ao ar livre ao longo de um trilho com cerca de 4 Kms de extensão.
-
Centro de Alta, pequena cidade com menos de 20.000 habitantes. São famosas as suas Gravuras Rupestres (4200 -500 a. C.), as mais numerosas do mundo.
-Gravuras rupestres no museu de Alta. Existem milhares delas como estas, devidamente limpas e restauradas.
-Falta-nos percorrer 240 Kms para atingirmos o nosso destino. Placa na berma da extensa rodovia nº 6 em Alta.
-
Partindo de Alta cerca das 06.45 de 30/06 chegámos a Honningsväg perto das 11.00 da manhã. Foi uma viagem de mais ou menos 4 horas, confortável e sem história. O motorista guiava a uma velocidade média pouco superior a 50 Kms/hora numa estrada estreita com o pavimento nem sempre em bom estado e cheia de curvas. Mas a paisagem valia a pena! Principalmente pelos fiordes que contornámos, alguns quase a 360 graus, delimitando baías deslumbrantes e serenas com as margens pontuadas por casas de verão ou simples abrigos de pescadores. Resta-me dizer que à chegada, depois de falar com o motorista, fomos simpaticamente "despejados" à porta do Nordkapp Vandrerhjem da cadeia International Hosteling onde ficámos alojados por duas noites. Na cidade existem outros hotéis, a preços incomportáveis para as nossas carteiras.
-
Talvez lá chegue nesta mota, já só faltam uns 30 kms! Aqui estamos em Honningsväg, no pátio do hotel.
-Uma vista geral de Honningsväg. Pequena cidade que encontra no mar o motor da sua economia.
-Honningsväg. Nesta baía atracam ou fundeiam muitos paquetes para que os seus passageiros possam visitar o cabo Norte.
-O hotel Vandrerhjem. Faz parte da rede Hosteling International. Simpático, acolhedor e caro!
-mas que pressa ... !?
-Quem bem fizer a cama, melhor se deita nela!
-
Em Honningsväg, lugarejo com pouco mais de 2000 habitantes elevado à categoria de cidade, não acontece nada. Além de ponto de passagem para quem demanda o Cabo, também recebe na sua baía a visita de alguns paquetes que fazem o circuito dos fiordes chegando até Kirkennes, a última povoação Norueguesa antes da fronteira com a Rússia. De entre todas as excursões deste tipo que se podem fazer ao longo da recortada costa norueguesa, a mais interessante é sem dúvida a bordo do Famoso "coastliner" Hurtigruten, especialista em navegação nas regiões polares e que há mais de um século liga as cidades de Bergen e Kirkennes.
O ex-libris desta localidade é um cão S. Bernardo, o Bamse, herói da Marinha norueguesa durante a segunda guerra mundial, acerca do qual se contam alguns factos e muitas histórias mais ou menos verdadeiras. Bem próximo da escultura do cão fica situado o único restaurante digno desse nome neste cú de Judas, onde eu e o Luís nos regalámos com uma bela refeição depois vários dias a "snacks" e similares.
-
O Famoso navio de cruzeuros Hurtigruten. Encarámos a possibilidade de concluir o circuito a bordo mas, consultada a Net, constatámos que os bilhetes estavam esgotados havia muito tempo.
-O Bamse e o seu treinador!
-Paquete fundeado na baía de Honningsväg. Etimológicamente este nome significaria "Baía do Mel" segundo nos explicou a Anne-Marie Buene. Grande treta! Conforme tive oportunidade de conferir quer dizer: "cidade que fica aos pés da montanha"
-
Pelas 10.00 do primeiro dia de Julho tomámos assento num Bus afecto ao transporte (quase) expresso de turistas entre Honningsväg e Nordkapp, com duas ou três paragens pelo meio. Em pouco mais de meia hora atingimos o objectivo desta viagem, o famoso Cabo Norte estava à nossa vista! À chegada, depois de atravessarmos um enorme parque automóvel atravancado com "auto-pullmans", jipes, motas e automóveis com placas de meio mundo, auto- caravanas idem, entrámos no edifício de apoio ao visitante, aquecido, bem iluminado, moderno e muito confortável. Teve obras de beneficiação e ampliação recentes (2010) e nele podemos encontrar restaurantes e cafeterias, muitas lojas de "souvenirs", exposições, sala de concertos e tudo o mais o que o turista gosta de encontrar fora de casa. No exterior a paisagem é quase lunar. Não fosse a vegetação raquítica constituída essencialmente por líquenes que enganam o bucho das manadas de renas que avistámos e poder-se-ia pensar que a vida estava suspensa neste planalto varrido por rajadas de vento polar. Montículos de pedras assinalam visita de forasteiros que pelos vistos tencionam voltar. Impressionantes são as falésias, alcantilados abissais capazes de causar vertigens. Estas e um globo terrestre em aço, são imagens que identificam o local e ficarão retidas pelos olhos e câmaras fotográficas dos milhares de turistas que por ali passam todos os anos. Alguns chegam e partem de bicicleta como sede uma peregrinação se tratasse. Mas também avistámos amantes do "trekking" que fazem os últimos quilómetros da expedição através de carreiritos quase imperceptíveis naquele oceano de pedregulhos e cascalho grosso. De mochila às costas parecem seguir as manadas de renas mais ou menos habituadas à presença de curiosos. Muitos "camones" e sobretudo gente do norte europeu dispersam-se pelos miradouros ou vagueiam à toa enquanto aguardam a hora de partida dos autocarros que os hão-de levar de regresso ao Paquete que deixaram pela manhã. Depois, jantar a bordo e ala que se faz tarde, ao amanhecer estarão a atracar em nova escala.
-
A caminho do Cabo Norte. O Luís parece um camaleão, tão bem camuflado está!
Placa alusiva à data em que foram concluídas as benfeitorias no edifício de apoio ao visitante.
-Esta exposição descreve ao pormenor os eventos de natureza bélica que tiveram lugar nesta zona durante a segunda guerra mundial. Batalhas, estratégias, actos valorosos, nomes de "heróis" ... etç.
Uma imagem do cabo Norte. Até ao nível do mar são uns bons metros, compare-se com a altura das pessoas!
O Luís num dos miradouros.
-Manada de renas.
-Vegetação típica, não consegue crescer mais do que 2 ou 3 centímetros acima do solo.
-O frio era tanto que "prevenidamente" umas peúgas foram transformadas em luvas!
-Obelisco na traseira do edifício principal.
-Parque temático. Colocando a pedra da saudade ou do retorno, quem sabe?
-Mamã, mamã, este é que é o papá?
-
Entretanto, o tempo melhorou muito. Estava uma bela tarde de sol quando, terminada a visita ao Nordkapp, decidimos regressar. Pela mesma via. Eu e o Luís tínhamos à nossa espera (ainda sem o sabermos), um excelente jantar com base no bacalhau fresco, peixe em que estas águas são riquíssimas. A pescaria esteve a cargo do nosso amigo Sten Ericsson, um simpático sueco que conhecemos no hotel. A confecção do menu na cozinha do Vandrerhjem, permitiu-me exibir apenas alguns dos meus dotes culinários! Depois do jantar o Luís e eu saímos para a volta da despedida. Ainda era cedo, talvez um pouco depois das dez da tarde (!?). O Sol ainda brilhava intensamente numa atmosfera límpida. Curiosamente, já não se via quase ninguém na rua, a cidade estva a adormecer. Cafés encerrados, esplanadas vazias, estores corridos. Facto intrigante, alguns estabelecimentos comerciais ostentavam a iluminação nocturna ligada.
Havia que queimar algum tempo já que queríamos fotografar o espetacular Sol da meia noite. Caminhando devagar fomos até ao extremo leste de Honnings. Passámos pelo Corner quase silencioso e no regresso cumprimentámos o Bamse. O dia estava praticamente a chegar ao fim quando retornámos ao hotel. Mas o Sol não queria amochar! Nas fachadas das vivendas, as vidraças ainda resplandeciamm e nas encostas das montanhas que circundam a povoação, os mini glaciares reflectiam os seus raios como poalha de ouro. A luminosidade suave própria de um fim de tarde de Agosto no nosso Algarve, permitiu-me obter algumas das melhores fotografias desta viagem. Pouco passava da meia noite, na rua nem um cão nem um polícia… apenas nós. E que paradoxo este; em pleno dia chegávamos ao hotel com a sensação de sermos dois noctívagos depois de uma noite de farra!
As janelas do quarto apesar de meticulosamente calafetadas deixavam passar alguns raios de luz tornando difícil conciliar o sono, apesar do cansaço de um dia cheio e longo.
-
À meia noite o Sol ainda brilha intensamente.
-As fachadas das casas permanecem iluminadas como se fosse meio dia na nossa latitude. Como é que eles conseguem convencer os putos a irem para a cama? Fiz a pergunta e disseram-me que por vezes é ... à porrada!
-Outra foto do Sol "quase" poente, uns minutos mais tarde. Não baixou mais do que isto.
-Ao meio Sten Ercson, o grande pescador.
Aqui, o grande Chef, autor deste Blog.
-
Julho 2 de 2011.Atingido o objectivo, vamos dar início à viagem de regresso. Após o pequeno almoço regularizamos a nossa conta no Vandrerhjem e solicitamos à recepção que nos confirme a reserva que efectuámos no Nordlys à patida de Alta. Más notícias, em nosso nome não consta qualquer reserva e o hotel está lotado! Mas como uma má notícia nunca vem só, descobrimos que por lapso nosso também não poderíamos viajar até Alta como previsto, pela simples razão de que naquele dia da semana não existia qualquer ligação. Ou teríamos que dar uma volta enorme por Hammerfest acabando por ter que pernoitar prlo caminho. Pensámos no transporte aéreo mas, depois de um penosa marcha a pé até ao aeródromo onde não encontrámos vivalma, a boleia surgiu-nos como derradeira chance. A ideia não encanta o Luís, mas em democracia quem manda é o chefe ...!
Quase meio dia. O céu carregado a ameaçar mau tempo iminente desmoraliza o meu companheiro de viagem que não esconde o aborrecimento. Envolve-nos uma espécie de "fog" húmido e gélido que começa a tolher-me os movimentos quando estoicamente estendo o cartaz onde com maiúsculas gordas escrevi a palavra Alta. De alguns automobilistas passantes obtenho imperiais gestos de indiferença, dos restantes nem isso. Estamos nesta vida há quase duas horas quando comunico ao meu sócio que os próximos dez minutos serão decisivos; ou conseguimos a boleia ou regressamos ao hotel, ali ao lado, adiando a partida para o dia seguinte. Pois nem um minuto havia decorrido e já uma senhora, Anne Marie Buene nos acolhia a bordo do seu carro. Regressava a casa em Alta todas as 6ªs feiras e para não viajar sozinha oferecia boleia com frequência, nunca tendo sido alvo de qualquer má experiência. Sendo também proprietária de uma pastelaria situada num centro comercial da sua cidade, aí lhe pedimos que compartilhasse o nosso lanche, o que aceitou com gosto.
Pernoitámos no Park Hotel, um excelente estabelecimento que se recomenda, localizado no centro.
Connosco, a Anne Marie num centro comercial de Alta onde é proprietária de uma pastelaria. Após o nosso regresso ainda trocámos alguns mails mas entretanto ... não voltou a dar à costa.
-
O Park Hotel em Alta.
-No hotel, teclando no "notebook" para pôr a escrita em dia.
-
Aqui não amanhece nem entardece nem anoitece, verdadeiramente. A claridade constante confunde-nos e só o relógio nos pode dizer se estamos no princípio ou no fim de mais um dia. Já temos saudades de ir para a cama com estrelas no céu!
Manhã de 3 de Julho. Dia do regresso a Oslo num voo da Norwegian que há-de descolar pelas 19.30. Com uma belíssima manhã e parte da tarde pela frente deixámos os pertences no hotel e lançámo-nos num passeio tipo trekking que nos conduziu aos pontos conspícuos dos arredores. Terminámos o passeio precisamente num restaurante junto ao aeroporto … de onde regressámos à boleia num autocarro de turismo, a fim de recolher a nossa bagagem. Com a meteorologia tão favorável pudemos apreciar neste voo cerca de 2000 Kms de território norueguês. Para os nossos padrões, não se pode dizer que a paisagem seja bonita. Grosso modo, se excluirmos o terço norte onde o clima hostil é responsável por um ambiente árido com montanhas escarpadas onde nem arbustos crescem, no resto do território podemos observar muitas granjas quase engolidas pela imensidão do verde da floresta que as rodeia. E, sobretudo, muita água! São incontáveis os cursos do precioso líquido que avistamos correndo em todas as direcções.
À meia noite estamos de novo em casa, o Comfort Xpress recebe-nos para a última noite desta temporada.
Julho, dia 4. É hoje, acabou-se a festa! A pé, descemos a Karl Johan até á estação central e terminal rodoviário. Antes, fizemos um stop numa simpática esplanada onde tomámos o pequeno almoço: galão e pãezinhos com sabor a erva doce. De expresso chegámos a Gardermoen para as formalidades habituais e embarque.
Às quatro e meia da tarde pisávamos de novo, com grande satisfação, o solo pátrio. Pouco depois embarcávamos num comboio da gloriosa CP rumo à estação de Pombal onde nos aguardava, calorosa, a família.
Até breve.