sábado, 25 de maio de 2013

117 - De Budapest a Varsóvia.

Cheguei à estação de Keleti ainda não eram seis da tarde. O meu comboio só partiria às 20.05h pelo que tinha tempo mais do que suficiente para tratar das formalidades. Depois de tirar uma senha para o guichet informações no sector ”international tickets”, aguardei pacientemente a minha vez para ser informado de que deveria tirar outra senha para, num guichet ao lado, comprar a reserva de lugar! Meia hora de seca e …
 
- Olhe, o guichet já encerrou!
- Então e agora o que é que eu faço? Eu preciso de apanhar este comboio!
 
Com um ar compungido, diz-me o chavaleco:
- Experimente falar com o “conductor” …
Saí a bufar. O comboio estava parado na linha 7. As carruagens da cauda tinham letreiros a indicar Berlim, Hamburgo, Praga …
Eram todas carruagens-cama. A que me interessava era a primeira, logo a seguir à máquina. Seguia para Varsóvia e em princípio deveriam existir lugares vagos. Deveriam, se a carruagem não tivesse sido literalmente assaltada por um grupo de chineses. O condutor, um homem ainda novo, aí pelos quarenta e cinco, fardado de vermelho dos pés à cabeça como todos os seus colegas, não tinha mãos a medir no auxílio ao embarque da bagagem dos chinocas. Incrível é a quantidade e o tamanho das malas e malotes que estes tipos trazem atrás de si, como se desejassem levar a Europa com eles. Fiquei para o fim e só então me dirigi a ele. Ouviu-me com atenção; não foi preciso mais do que um aceno negativo da sua cabeça para eu perceber que estava fdo. Estendeu-me a lista de passageiros …
- Como pode ver, já tenho 3 supranumerários, disse ele a fazer render o peixe. Deu mais uma volta e nada de sim ou sopas definitivo. Procurando pôr fim ao impasse, inquiri:
- Então … nada feito!?
 
- Moment, disse ele.
Pouco depois fazia-me sinal para entrar. Postado à porta e antes que eu pusesse o pé no primeiro degrau, estendeu a mão e …
- São trinta euros!
 
Achei a gorjeta puxada e pensei ...  já foste! Mas eu já estava por tudo e o que não queria era mais um dia de seca em Budapest Entreguei-lhe os trinta euros e querendo ter a certeza de que não ia ficar algures pelo caminho, perguntei:
- Vou mesmo para Varsóvia?
- Warsawa? Nein, nein … esta carruagem vai para Cracóvia!!!
Oh, fds!
 
- Venha daí, disse ele devolvendo-me prontamente os trinta paus. Vamos falar com o meu colega.

Não percebi o que conversaram mas suponho que o tema andou â volta da importância que eu estava disposto a pagar. O colega, um homem gordo com ar de quem está sempre pronto a ganhar algum por fora, começou por não facilitar nada as coisas.  Ignorou-me pura e simplesmente enquanto procedia â contagem e acomodação dos passageiros regulares. A cada vez que eu tentava perceber qual era a minha situação, respondia apenas:
 
- Moment, moment
Estávamos a menos de cinco minutos do comboio arrancar. Desiludido, sem a menor réstia de esperança, vejo o gordo fazer-me sinal para subir. Porém, tal como sucedera anteriormente, o nosso amigo travou-me o passo com a repetição das palavra euros …. euros, e mais qualquer coisa que não entendi. Abri a carteira, saquei de uma nota de vinte e entreguei-lha. Abanou a cabeça como a dizer que era pouco. Fiz, o choradinho, que estava curto de finanças etç. e tal. Nada feito. Não entendo o que tu queres pá ---  don’t understand, nicht verstehe, non capisci
Aí a cena tornou-surreal; o homem manda-me abrir a carteira, espreita lá para dentro e ele próprio arrebata a notinha que faltava. É preciso ter lata!
Do tipo que arrecadou a massa, nunca mais vi nem rasto. O comboio já estava em andamento, eu aguardava que me indicassem o lugar ou me mandassem sentar no chão. Acercou-se de mim outro conductor, mais velho, cuja presença eu tinha notado na sombra das negociações. Com um sorriso simpático diz-me:
- Então o senhor acha que pagou muito?
- !?!?
-Já viu …? Vai viajar em primeira classe … primeira classe, num compartimento só para duas pessoas. Diga-me, quer um café, um chá ou prefere uma água?
Eu preferia era ocupar o meu lugar, para o qual fui conduzido sem demora. De facto tive a sensação de que se tratava de um quarto de hotel. A largura das duas únicas camas, a qualidade das roupas, o frigo-bar atestado com comida e bebida. Havia sabonetes, shampoo, toalhas. Até os sanitários impecavelmente limpos não tinham nada a ver com a nojice habitual dos comboios.
O meu companheiro de camarote, embora o tenha negado, parece ter uma relação especial com o camareiro. Acho que existe entre eles uma certa cumplicidade. Posso estar enganado, mas …
De seu nome Shakhir, é um azeri de Baku. Tem trinta e um anos, estatura média, cabelo curto mas não rapado, cara redonda com olhos grandes expressivos e o ar de menino que não parte um prato. Fala sete línguas regionais mas de inglês não conhece mais do que uma vintena de palavras. Com elas e uma capacidade mímica extraordinária conseguimos conversar durante horas. É um tipo extremamente divertido que poderia ter sucesso no show-business. Declara-se operacional do import/export e realmente, até bem tarde, o seu telefone não se calou. Parecia dar ordens, transmitir indicações. Viaja com roupa para dormir e chinelos de quarto. Fala de política e de negócios e parece ter boas relações com personalidades importantes dos governos das repúblicas do Cáucaso. Escangalha-se a rir quando recorda a treta do episódio de gripe H1N1; as pessoas de máscara no nariz e boca e os responsáveis … Shakhir … Shakhir, precisamos de medicamentos, desesperadamente. E o bom do Shakhir a importar da China toneladas de tablets que as pessoas comiam aos 4 e cinco por dia convencidas de que assim estavam protegidas contra o vírus.
Shakhir é também um bom muçulmano. Consigo traz um pequeno tapete que estende no chão sobre o qual reza as suas orações, salmodiando versículos do Corão em voz alta como se estivesse a cantar. A oração dura cerca de meia hora antes de deitar e repete-se pouco depois das cinco da manhã. 
Às 06.30 h é o nosso camareiro que bate à porta. Numa bandeja traz um excelente café fumegante para acompanhar os croissants que se encontram no frigo.
Com as orações do Shakhir, os estremeções, encontrões e safanões a que os passageiros ficam sujeitos devido às manobras de atrelagem e desatrelagem das carruagens, dormir foi impossível.  Chegámos à estação central de Varsóvia exactamente às sete horas e dezassete minutos conforme previa o horário. Surpresa das surpresas, o camareiro entrega-me juntamente com o meu bilhete, um recibo referente à utilização da couchette no montante de ... 23.00 €! Agradeço e ainda o gratifico com as moedas que me sobraram de Budapest. Eu e Shakhir despedimo-nos no hall principal da estação quando uma chuva intensa caía sobre a cidade. Num posto de turismo próximo fiz a reserva do hotel para onde me dirigi de táxi. Estou alojado no LOGOS, localizado a sete minutos a pé do centro. Fica num edifício recente com 12 pisos que, pelo que entendi, pertence a um operador turístico. A tarde de hoje foi para recuperar o sono perdido e à noite estou a fazer-vos este relato.
 
 

116 - As últimas (fotos) de Budapest.

De abalada, sem destino determinado!
O comboio para o meu novo destino – ainda não decidi qual vai ser! -, parte da estação de Keleti (Budapest) às 20h05. Sei que vou partir neste comboio porque é ele que serve as ligações com Bratislava, Praga, Dresden, Berlim, Hamburgo, Ostrava, Cracóvia e Varsóvia. Só!
Bratislava é o verdadeiro nó de todas estas ligações, tanto das que se destinam à Europa ocidental como daquelas que rumam ao norte. Isto acontece porque a natureza do terreno, muito montanhoso, obriga a desviar por Bratislava (Rép. da Eslováquia), atravessar território da Rép. Checa e depois seguir para norte, para as cidades polacas de Cracóvia e Varsóvia por ex. Como é que isto se faz? Na composição, as carruagens são atreladas segundo uma determinada ordem conforme o seu destino, exibido em cartazes afixados nas portas. Chegadas ao ponto de “mudança de direcção”, sâo desligadas e atreladas a nova composição e assim sucessivamente. Ou seja, os passageiros não têm que fazer qualquer transbordo. Para já, e dado que já conheço todos os outros destinos mencionados, estou inclinado a seguir para a Polónia. Enquanto aguardo o final da tarde, aproveito para carregar mais alguma fotos de Budapest.
Aqui o povo faz os seus passeios deslocando-se nestas aberrações! Mas temos a considerar ainda a praga das bicicletas, skates, patins em linha e trotinetas. Nós não estamos habituados a esta profusão de meios de transporte urbano e posso garantir-vos que é complicado. Um pequeno descuido e apanhamos uma cacetada pela frente, por trás ou de lado ...
 O calçadão do lado de Pest.
 Outra ponte.
 Mais uma Igreja.


 Miradouro.
 Uma avenida.

Povo no miradouro.

 Estátua da Liberdade.
Pedestal e escultura.


 É sempre a subir até ao topo do monte onde se encontra o miradouro.

 As escadarias.


 1º patamar de descanso mais ou menos ao centésimo degrau.

 A selva!

 Caminhando na vereda. Até lá acima são 323 degraus (contei-os) mais estas rampas algumas das quais com 20 % de declive, ou mais!

 A cidade vista a meio da subida.

 Vista panorâmica.

 No miradouro (Praça da Liberdade)



Panorâmica.



 Praça da Liberdade.
 A ponte vista do miradoro.

 Artilharia fora de uso!
 Parece a Lagoa Comprida por altura do Carnaval.
 Panorâmica de Buda
 Entrada para a cidadela.
 Retrato de um Bunker.
 Pessoal que terminou a visita à "cidadel"a a caminho do autocarro.

 

 Para que ninguém se perca.
 Pormenor da ponte. Lâminas de aço sobrepostas umas sobre as outras e rebitadas.
 Dois "barquitos".
 Prédios que são monumentos.

 Ópera.
 Barco-casa-restaurante.

 Igreja de S. Matias.
 Calçadão junto ao Parlamento.
 

 Fachada lateral do Parlamento.
Museu etnográfico do povo Magiar.
Pormenor dos cabos da ponte.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

115 - Budapest.

Na terra dos Magiares.

Para alinhavar uma pequena prosa sobre esta belíssima cidade europeia, fui à Net procurar dados que me permitissem saber um pouco mais acerca do País de que é capital. Fiquei atordoado com a minha ignorância! Um país da Europa central, tão antigo como Portugal, mais ou menos do mesmo tamanho e com aproximadamente o mesmo número de habitantes, a Hungria faz parte da União Europeia e do Espaço Schengen desde 2004. Tem uma história riquíssima … até em desgraças. Ao longo de uma história de séculos, aqui se cruzaram hordas de invasores, assou por guerras, perdas de soberania, retalhamento e “roubo” de território … E no entanto, é hoje uma nação próspera, com um elevado nível de desenvolvimento humano, pouco desemprego e uma invejável qualidade de vida. Sugiro a todos os possíveis interessados em coligir informação sobre a Hungria que passem os olhos pela Net, por ex. Wikipédia.
Budapest … não é descritível. Faltam-me as palavras adequadas para vos fazer um simples esboço do seu retrato. É linda, cativante, amorosa, frágil, sensual como uma mulher (algumas!). É rica, portentosa, é Paris, é Veneza … é preciso e urgente vir conhecê-la. As suas ruas e avenidas de traçado mais moderno ou clássico, são um convite permanente para um passeio ao acaso, sem destino nem hora marcada. Admirar o património arquitectónico desta cidade é um prazer para os olhos, mesmo para quem percebe pouco do assunto, como eu. Numa harmoniosa profusão de estilos que vai do antigo ao moderno com testemunhos do românico-gótico, barroco, rócócó, arte nova etç, o “corpo” de Budapest clama pela atenção do visitante   e por muito espaço no cartão da sua máquina fotográfica! Mas a cidade também tem alma, o seu rio. Este rio fabuloso que a atravessa unindo-a, e que, como todos os grandes rios da Europa, é o sangue, é a vida, é força e a riqueza das comunidades ribeirinhas.
O deslumbramento de quem chega não conhece limites. Seja no lado ocidental, Buda ou no lado oposto, Pest, os motivos de encantamento sucedem-se uns atrás de outros. Torres, cúpulas e minaretes, igrejas cristãs (católicas, evangélicas e ortodoxas), sinagogas (encontra-se aqui a maior do mundo), magníficas fachadas de prédios, são o isco perfeito para quem anda à cata de motivos para bater chapa. Incontáveis e acolhedoras praças e pracetas, parques e jardins com centenas de esplanadas, botecos de gelados, pisas, kebaps,  jornais e souvenirs, fazem de Budapest uma cidade onde apetece ficar. Por todo o lado, milhares de pessoas oriundas de todas as partes do mundo, de mapa na mão, por vezes com ar indeciso, isoladas ou aos magotes, dizem da fama merecida desta capital como um dos mais vibrantes polos do turismo mundial.
Mas … não há bela etç. etç! Budapest é uma cidade cara, pelo menos para o tuga de classe média. Roupas, refeições em restaurante e hotéis custam os olhos da cara. A título de exemplo, o Ibis cobra 100 aérios por noite sem direito a “café da manhã”, um normalíssimo almoço anda pelos 20 € e uma pequena toalha de rosto custa 10 €. Entra Pacheco!
Fiquei alojado num hostel ao lado da Catedral, “no centro do centro”, como me disse a menina do turismo onde o contratei. Está instalado num edifício com nome de autor. Trata-se de um antigo palácio que foi remodelado e adaptado a habitação. O hostel é novo, as paredes e os armários ainda cheiram a tinta, a higiene é perfeita e o staff é de uma simpatia inexcedível. O meu quarto é duplo (e pago como tal), mas de utilização individual pelo que sou o seu único ocupante.

ALGUMAS fotografias mais ou menos ao acaso:
 
 Porta de entrada do meu hostel.
Laidi, o seu gerente e um simpático argelino.

O seu colega recepcionista originário de Marrocos. Simpático, sempre pronto a ajudar.
 

O edifício do hostel. Corresponde ao 3º piso.
Rua movimentada.
Estação (internacional) de Keleti.
 

Sala de espera.
Pormenor de uma parede da sala de espera.
 

Entrada-
 

Igreja de Santa Teresa de Lisieux.
Interior da mesma igreja.
Museu de Tutankhamon.
Palacete.
 

Fachada da Catedral de Budapeste dedicada a Santo Estêvão.
 

 

Escultura.
Pode parecer outra coisa , mas é o hotel Four Seasons.
Entrada da Ponte dos Arcos, uma das dez de Budapest.
 

O rio, Buda+Pest
Ao fundo, o palácio a que eles chamam castelo.
Rotunda e túnel à saída da ponte.
Para que ninguém se perca.
O "meu lado" Pest, visto da margem do lado de Buda.
A bela Ponte dos Arcos.
Mais uma vista de Pest.
 

Também pode parecer outra coisa ... mas é o edifício do parlamento!
 

Igreja de santa Ana.
No átrio da mesma igreja, encerrada, encontrava-se esta imagem.

 
Ao fundo, a Ponte Margarida


Em segundo plano, por trás do Parlamento (Pest), avistam-se outros monumentos de igual beleza.
O início da Ponte Margarida ...
Que é atravessada a cada minuto por este Tram amarelo.
Uma vista de Pest do alto da cidadela de Buda.
 
 



Outra panorâmica da margem esquerda.

Canteiro de violetas frente a 4 Seasons.
Árvore centenária no mesmo jardim