quinta-feira, 1 de maio de 2014

128 - À terceira, foi de vez!

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Sei-o através do feedback que me chega, os meus amigos e visitantes ficam algo desiludidos quando veem ao Kurt e não encontram novidades. Acreditem que alimentar este animal dá mais trabalho do que parece! Pois fiquem sabendo que é pensando no enorme respeito a todos devido e sobretudo para corresponder à consideração dispensada que, invariavelmente rebentado no final de cada dia de visitas, no "silêncio" constrangedor dos murmúrios que chegam até ao meu quarto de hotel, impessoal e algo solitário, frente ao computador cheio de manhas ou amuado com o router local me disponho, até altas horas da noite, a teclar um texto que vos dê gosto ler. Aqui vai, então, algum material novo.
Estava farto do frio, da chuva e do verde quase açoriano da nossa da paisagem. Desta prima vera sem vergonha que de há uns anos a esta parte, nem é nem deixa de ser, concubinada que anda com os manos Verão e Inverno. Entendi as primeiras olheiradas de sol de Março como sendo o sinal de partida. Rumei a sul com o intuito não muito firme confesso, mas provável, de fazer o meu ponto de partida no Cabo de S. Vicente, ligando-o a outro no sul de Marrocos, talvez Agadir ou por aí assim. Após dois dias de descanso na Fuseta, meu poto de abrigo desde há décadas, o Senhor mandou tal caldeirada de água que não tive outro remédio senão regressar a casa, fiel ao lema de que, viajar é do melhor mas com bom tempo. Interpretei a coisa como aviso dos céus e duas semanas depois propus-me sair, desta feita pelo norte. De Chaves para Verin e depois … um destino qualquer da Europa que entretanto começava a sair da ressaca da invernia. Famalicão, ponto de paragem obrigatória por aí residir a filhota Isabel com os seus conforme mencionei no post anterior, esta não foi ainda a terra do adeus à família. Padecendo de recaída de mal antigo, a minha draga (Land Rover) ficou subitamente incapacitada pelo que tive de trazê-la de volta a Pombal para a entregar aos cuidados do especialista Fernando Carvalho que não há maneira de dar com a carraça! Bem, se não pude sair pelo norte nem pelo sul, vou expatriar-me pelo centro, foi a minha decisão. E foi assim, de mercedes, de Pombal a Castelo Branco, Escalos de Baixo, Ladoeiro, Zebreira e fronteira de Segura. Esta fronteira que hoje regista fraquíssimo movimento, teve o seu apogeu nos anos sessenta aquando da emigração clandestina e em massa para França. Dada a orografia com as suas barreiras naturais, patrulhá-la era difícil. E assim sendo, os carneiros como eram chamados em linguagem de passador os candidatos a emigrante com passaporte de coelho, conseguiam, nem sempre, fazer umas faenas à Guardia civil, Fiscal e GNR. Apóse Segura temos Piedras Albas, Zarza la Mayor e Moraleja onde se toma a autovía da Extremadura em direcção a Plasencia, Talavera de la Reina e Madrid. Próximo desta fronteira existem vários pontos de atravessamento de e para Espanha, alguns bem conhecidos como Monfortinho, outros outrora muito utilizados pelas populações locais nem sequer aparecem no mapa. O trajecto que acabo de efectuar, não sendo comum, oferece algumas vantagens e recomenda-se porque: É bastante prático para quem reside na zona centro sendo o mais curto em termos de quilómetros percorridos, permite uma breve visita a belas localidades da Beira Baixa desconhecidas da maioria dos portugueses, atravessa zonas de paisagem fabulosa, as estradas são excelentes e nesta altura do ano bordejadas por arvoredo frondoso e o trânsito é mínimo para não dizer quase nulo. Aqui fica a sugestão!
 Ladoeiro, vila do rio Ponsul. Pequeno largo frente à Igreja Matriz.
 Igreja do Ladoeiro.
 Ladoeiro. Muitas da vilas e aldeias do nosso interior raiano apresentam esta aspecto de abandono e decadência.
 Ladoeiro. Uma porta típica do tempo da judiaria
 A Escola, uma preciosidade. Obra do tempo do Estado Novo na localidade da Zebreira
 Aproximação a Segura.
 Segura, vista do alto do seu castelo.
 Uma casa antiga típica dentro da localidade.
 O "Castelo" de Segura.
Um residente, na casa dos sessentas, gozava a sombra do lado da fachada norte do castelo sentado num daqueles banquinhos que se vêm na foto. Compenetrado, ar intelectual e de poucas palavras, molhava na saliva a  extremidade do indicador com que folheava "A Bola".
- Boa tarde! Desculpe interromper a sua leitura. Gostaria de saber se esta pequena torre é o que resta de algum castelo que aqui existiu?
- Hum ... se existiu não é do meu tempo- Não me lembro de aqui haver castelo algum!
- Mas há placas com a indicação "castelo" que nos encaminham para aqui. Como se explica isso?
- Deve ser porque "isto" fica num alto, respondeu o cicerone.

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Bonita ponte sobre o rio Erges.

Marco de fronteira e painel indicando que esta vila se encontra dentro do perímetro do parque natural do Tejo internacional.. Nesta altura viam-se pairando nos céus alguns grifos entregues à azáfama de caçar para alimentar os filhotes.

Paisagem dura, agreste e bela ao mesmo tempo-.

Uma bonita mata de chaparros do lado espanhol. De repente, temos solo "desossado", de boa qualidade, sem pedregulhos nem matacões. Ai que os gajos nos enganaram mais uma vez escolhendo a melhor terra para eles!

Zarza la Mayor.

Suaves ondulações da estrada tornam a condução bastante divertida.

Temos  a sensação  de estar rodeados por montanhas seja qual for o lado para o qual dirigirmos o olhar.

Cumes da Serra da Gata. Vista com zoom, a foto mostra os picos cobertos de neve.

Fortificação de Oropesa.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

127 - (A) Mala - Posta.

Guião para uma história que tenciono contar aos meus netos.

Para quem aprecia, o tema das viagens pode parecer inesgotável. Reviver as que se fizeram ”partilhando-as” com familiares e amigos, falar das que gostaríamos de fazer ou dos planos daquela que já está na calha, são um dos meus temas de conversa favoritos. Recentemente, ao iniciar o prólogo de uma nova e assim o espero, aventurosa viagem de longo curso, percorri boa parte do IC2, de Pombal a V. N. de Famalicão, ponto de paragem obrigatória nas rotas para o norte da Europa dado que, nesta simpática cidade, reside a minha Isabel (Bela) com o marido Vasco e seus filhotes André e Catarina. Ao atravessar a localidade da Malaposta ocorreu-me a seguinte questão: Como seria viajar no “antigamente”? Nos dias de hoje, a facilidade, comodidade, rapidez e segurança com que saltamos de um continente para outro, tornaram as viagens coisa de senhoras! Mas, como seriam há apenas cem anos, no tempo dos nossos avós, quando o meio de transporte comum eram as diligências, charretes puxadas por parelhas de cavalos ou mulas? Na verdade todos somos descendentes de grandes viajantes. Lá bem nos primórdios, viajar não era opção, tinha mesmo que ser! Os hominídeos subsistiram durante centenas de milhar de anos deambulando através de vastas zonas de floresta, de savanas mais tarde, recolhendo as folhas e frutos ou caçando os animais de que se alimentavam. Com a sedentarização, a humanidade terá dado um importante salto civilizacional mas, mesmo então, os nossos antepassados nunca deixaram de se ver forçados a palmilhar longas distâncias. O esgotamento dos solos, a meteorologia desfavorável ou desastres naturais como erupções vulcânicas, sismos e inundações, longos períodos de glaciação, secas, fogos espontâneos, obrigavam-nos nos a longas caminhadas. Buscavam segurança e abundância nas zonas ribeirinhas ou em alta montanha, conforme a normal sequência das estações do ano. Os movimentos de transumância, a fuga de zonas de conflito como ainda hoje acontece e até a participação em rituais civis ou religiosos como casamentos e funerais, fizeram dos nossos antepassados viajantes compulsivos. Tudo me leva a crer que o gene das viagens nos foi transmitido de forma indelével. Basta perguntar a alguém que sonhe com “el gordo” de uma qualquer lotaria o que faria se a sorte lhe batesse à porta. A primeira opção pode não ser viajar mas, via de regra, esta é uma hipótese a considerar! 
Adivinha-se que num passado longínquo a Vida não era fácil no nosso relativamente jovem planeta. Contudo, os deuses nem sempre estiveram contra o homem. Uma centelha de prodigiosa inteligência levou alguém a notar que, exceptuando as lesmas, caracóis e aparentados, a maioria dos animais era capaz de nos fugir! Percorriam grandes distâncias, rapidamente e sem grande esforço aparente. Domesticados e domados os mais velozes e fortes e inventada a roda, a humanidade terá dado o maior passo logo a seguir à descoberta do fogo. O nosso mundo tornou-se mais pequeno e os humanos puderam então começar a viajar com alguma comodidade e conforto, agora também por prazer ou simples curiosidade. Afinal, o bichinho das viagens estava-nos “na massa do sangue”! Mas primeiro tivemos que aprender a montar e dirigir um grande número de quadrúpedes, e mesmo bípedes; já vi gente “cavalgando” emas. Quanto aos répteis, mantiveram-se mais ou menos a salvo da escravatura até um nosso ex-presidente descobrir que era porreiro viajar empoleirado no dorso de uma tartaruga! De entre toda a bicharada que desde há milénios partilha connosco o fado da existência, ofereço ao cavalo o ponto mais alto do pódio. Tem sido inteligente e leal amigo, camarada de armas em encarniçadas pelejas, a força do lavrador, parceiro de moleiros e almocreves, aliado de campinos, gaúchos e cangaceiros, personagem de inúmeras histórias e filmes, montada de D. Quixote e João Semana. No que toca a performance, destreza e velocidade, é o Ferrari dos animais! Já quando se trata de autonomia, distâncias percorridas e quantidade de carga transportada, louvemos os camelos e dromedários, equivalentes dos modernos Camiões TIR das regiões inacessíveis ou desérticas. Se pensarmos no número de passageiros transportados (em palanques), sobretudo turistas, ou na movimentação de cargas pesadas, o elefante pode ser o nosso autocarro na Índia ou potente guincho na Tailândia. E quem não gostaria de viajar no tempo e voltar a sentir o cheirinho da terra lavrada de fresco com arado puxado pelas juntas de bois, os tractores dos nossos avós? Não posso terminar sem deixar uma palavra de reconhecimento a um sem número de animais anónimos que ainda hoje, em muitas partes do mundo, nos transportam de um lado para outro ou acarretam as nossas, muitas vezes inúteis tralhas: Búfalos, iaques, lamas e guanacos, cães, chibos e carneiritos e até as renas do Pai Natal e a mula da cooperativa. A todos tiro o meu chapéu.
E nós tugas, gostamos de arejar ou nem por isso? Sim, sem dúvida, apreciamos viajar. É assim, foi sempre assim desde há séculos, quando aprendemos a lançar a barcoleta à água com um lençol a drapejar no mastro! Com crise ou sem ela, em tempo de vacas gordas ou mesmo sem vaca nenhuma, eis-nos que continuamos a partir, todos os dias, para além do horizonte. A pulsão da partida mora aqui; não há canto do mundo, em terra ou no mar e quem sabe, um dia, no espaço, onde não se encontre um português. Somos os nómadas dos tempos modernos, dar corda à sapatilha faz parte do nosso ser e está dito!
A Mala-Posta
O primeiro serviço público de correios remonta ao reinado de D. Manuel I. Por volta de 1520 foi criado o cargo de Correio Mor do reino que tinha por missão organizar e manter o regular funcionamento deste serviço. Em 1606 o Ofício de Correio Mor foi privatizado sendo adquirente a família Gomes da Mata que o explorou até ao ano de 1797. Em 1798 foi criado o serviço de Mala-Posta. Sob administração de um Superintendente Geral dos Correios, este serviço permitia o transporte regular de correspondência, passageiros e mercadorias entre Lisboa e Coimbra por diligência, numa viagem que durava então umas insignificantes 40 horas. Muito longe portanto dos cerca de sete dias do tempo dos “correios” a pé e a cavalo. A grande revolução neste serviço de enorme utilidade pública e que desde o seu lançamento sempre gozou da maior simpatia popular, ficou a dever-se a Fontes Pereira de Melo. Com ele no comando Ministério das Obras Públicas nasce o “Fontismo” por volta de 1852, quando teve início a execução do mais audacioso plano rodoviário que alguma vez pensado para Portugal. Para se ter uma ideia do que foi o “Fontismo” em matéria de rodovia, basta dizer que no início do seu mandato existiam em Portugal 218 quilómetros de estradas MacAdamizadas e em 1887, quando deixou o governo, estas estendiam-se por mais de 9.000 quilómetros. Sem esquecer que foi ele também que, a partir de 1856, lançou a construção dos primeiros troços de ferrovia. Deste modo, à Mala-Posta que significa simplesmente mala de correio ou mala postal, abriram-se novas linhas e destinos percorridos em horários cada vez mais regulares e tempos mais curtos. Em 1859 a ligação entre Lisboa e Porto já se faz em apenas umas estonteantes 34 horas com passagem por 23 estações de muda. Isto implicava que duas diligências viajando em sentidos opostos, cada uma puxada por 4 cavalos se encontravam em permanência na estrada. Nas estações de muda, todas construídas segundo o mesmo plano à beira das novas estradas, os cavalos cansados eram substituídos por cavalos “frescos” e assim, a toda a velocidade, eram percorridos os 14 a 15 quilómetros da etapa seguinte. Paralelamente, junto das principais estações, surgiram estalagens e hospedarias onde os passageiros da Mala-Posta ou diligências privadas podiam tomar uma refeição e descansar. No final dos anos sessenta do séc. XIX com algumas concessões a privados, torna-se possível viajar ligando as principais vilas e cidades do país. Este serviço acaba por cair rapidamente em declínio devido ao advento do comboio. Na região centro existe uma localidade que, pela importância que assumiu durante o período áureo da Mala-Posta lhe herdou o nome. Trata-se da localidade da Mala Posta, situada no concelho da Mealhada, a dos leitões e do vinho frisante, bem próximo de Coimbra, a da cabra, do choupal e dos doutores.
Nesta vila existe um conceituado restaurante, o Pompeu, em cujas salas de jantar é possível comtemplar reproduzidas em azulejaria antiga, bonitas cenas alusivas ao tempo e azáfama da Mala-Posta. d teve o seu início nos anos cinquenta em Bustos, uma pequena aldeia do concelho de Oliveira do Bairro. Desde 1963 tem as suas  instalações numa antiga Mala-Posta, então designada como Estação-de-Muda da Ponte da Pedra. A antiga Estação-de-Muda estava localizada no lugar que veio a assumir o seu nome: Malaposta
A Diligência
Uma coisa digna de estudar é o aspecto das diligências que circulam sobre estas estradas.
Dois pequenos garranos puxam por cima do macadame faiscante ao sol as mais fantásticas carradas de gente e de objectos que a imaginação possa conhecer. Dentro do veículo senta-se a primeira camada de passageiros nas bancadas. Depois de todos se todos os lugares ocupados mete-se-lhe  a segunda camada de passageiros, colocada exactamente em cima da primeira. Feita esta operação começa o interior do carro achar-se quase cheio, mas entre o tecto, os joelhos e os bustos dos passageiros da segunda camada nota-se ainda um espaço. Preenchido este espaço com um passageiro estendido ao comprido, passa-se a ocupar o tejadilho.
Do lado  lado de fora, os passageiros são ensanduichados com as bagagens e com as mercadorias: camada de mercadorias, primeira camada de passageiros, primeira camada de bagagens, segunda camada de passageiros, segunda camada de bagagens; e de tudo isto, o que penso para os garranos, os merendeiros e os varapaus dos passageiros e, no ar, o cocheiro levado a braços pelos viajantes.
Ramalho Ortigão 
 
 
 Com os meus netos André Miguel e Catarina Isabel.

A Bela com os filhotes no interior da minha draga.

sábado, 29 de março de 2014

126 - Um passeio à srª do alfarrobeirão.

Não sei onde fica. Mas sei como se chega lá: Caminhando, ao sabor do acaso, sem destino pré-conjecturado. Juntando quilómetros aos quilómetros, por simples impulso, quantas vezes por via de um “engano” no momento de decidir qual a direcção a tomar. Como quem faz uma construção sem projecto, com a certeza de que se ela vier abaixo só há que recomeçar. É assim que eu gosto e de alguma forma tenho praticado. Quanto ao nome da santa ele foi-me “resmungado” um dia pela Fernanda, mulher do João, meus vizinhos na Cidade sem Lei onde me instalei há mais de trinta anos (vejam o que diz o post nº 65). Foi num dia em que me ofereci para lhes proporcionar um passeio de carro pela serra algarvia. Chegado o lusco-fusco e pressentindo não estar em casa à hora de servir o jantar aos seus bichos - criava com desvelo coelhos, galinhas, porcos e cabras -, arremeteu indisfarçadamente xiringada: Atão ainda falta munto para dar a volta à sra. do alfarrobeirão?
O João, “montanheiro” da Murteira de Baixo, freguesia de Moncarapacho, há muito que dobrou o cabo dos oitenta. É um homem “enxuto”, bastante activo para a idade, olhar perspicaz e palavra fácil. Com ele tenho mantido longas sabatinas em que aprendo muito daquilo que não vem nos livros. Possui cultura acima da média para a sua geração e origem social assim como uma interessante história de vida, quase toda ela dedicada ao mar. Em Portugal e Angola de onde regressou após a independência com a mulher, o único filho e uma mão atrás e outra à frente. Exceptuando um estágio na Prisão-Escola de Leiria onde malhou com os costados por uns dois anos devido a uma asneirola de juventude, tem sido um trabalhador incansável. Continuou a sê-lo mesmo depois de passar à situação de reformado; como arrais, transportou milhares de veraneantes nos barcos que da Fuseta cruzam o canal até à ilha de Armona. No resto do ano repara artes de pesca principalmente covos e morejonas por encomenda dos seus colegas no activo. Deste modo vai dando uma mãozinha à família do filho, (nora e dois rapazes já adultos), até agora pouco bafejados pela estrelinha da sorte. Actualmente vivem todos sob o mesmo teto, uma típica e humilde casinha algarvia que o João mandou restaurar após o regresso de África. Onde tenho partilhado alguns dos mais agradáveis momentos de convivialidade, cavaqueira e petisqueira da minha existência.*
Hoje em dia o João tem uma preocupação maior, a mulher. Conheceram-se num bailarico na Maragota já lá vão cerca de 57 anos. Serranita baixinha, tisnada pelo sol dos campos de Casas Baixas, freguesia se Cachopo, veio muito nova para a Luz de Tavira onde durante anos, na qualidade de criada de servir se ocupou da pecuária do senhor Passos, sogro do Dr. Jorge Correia. Casaram e foram viver para a casita modesta que puderam construir numa parcela pertencente aos pais do montanheiro localizada na Cidade sem Lei** na margem da Ria Formosa. Formiguinha laboriosa, a Fernanda entregou-se de corpo a alma ao serviço do bem-estar e felicidade da sua família. Foi mariscadora na Formosa, fantástica despensa da natureza da qual milhares de algarvios continuam a retirar o sustento dos seus, em Matosinhos trabalhou na indústria conserveira, acompanhou o marido na aventura angolana e regressou … à conquilha ao lingueirão aos carcanhóis e a mais tudo aquilo que mexesse sob o fundo arenoso da Ria. Entretanto, com a ajuda de amigos que nele confiaram, o João voltou a ser um pequeno armador bem-sucedido. Descarregou tecas de peixe nas lotas de Sines, Lagos, Portimão e Quarteira, onde era mais valorizado. Nessa época a patroa dedicou-se totalmente à exploração de uma pequena agropecuária. A família atingiu razoável desafogo financeiro, refez o seu pé-de-meia deixando para trás momentos verdadeiramente marafados. O pecúlio acumulado permitiu-lhes sonhar com uma velhice tranquila.
Nas muitas voltas que a vida dá, a má sorte bateu-lhes ao ferrolho. Desta feita através do filho. Também ele pescador, somou azar com insucesso, perdas com prejuízos, negócios ruinosos com provável ausência de visão empresarial. O “tesouro” do Velho foi sangrando até à exaustão para acudir à “pouca sorte” do rapaz. De um momento para o outro viu-se obrigado a albergar sob o seu teto a família toda. Quanto aos netos … que Deus lhes valha!
Da noite para o dia a avó foi apeada do seu trono de rainha da casa. A sua “zona de acção” e até os aposentos da abelha-mestra foram usurpados por bárbaros. Durante meses sofreu, caladita, o descarado ataque à sua dignidade. Remoeu a frustração em silêncio. A frustração passou a dor e a prazo esta consumiu-lhe os neurónios reduzindo-a à condição de zombie: Hoje, completamente tan-tan, adivinhamos-lhe o olhar fixo algures no passado, raramente balbucia uma palavra, não sabe a quantos do mês ou qual o dia da semana em que nos encontramos. Não fosse o cuidado vigilante do marido, já se teria perdido num brejo qualquer vestida com aquilo com que a mãe a deitou ao mundo.
Este Inverno tem-se mostrado bastamente “castigador”. Valeu-nos a primeira quinzena de Março com uma meteorologia fabulosa e dias de sol a criar a ilusão de que o Verão estava aí. “Picou” o chamamento das viagens. Na Primavera a Europa é um óptimo destino para um passeio à srª do alfarrobeirão! Ou a África ou a América ou qualquer sítio de não importa que continente! Bom é estar sempre a partir …
Planeei vagamente ligar Sagres a um destino europeu. Ou talvez magrebino…? Carregada a ramona com os essenciais fiz-me à estrada, viajante solitário como vai sendo hábito. Considerando o ponto de partida, em Grândola embiquei ali para V. N. Santo André que já não visitava há anos e onde tencionava encontrar-me com o casal Josué e Suzete, ele engº, ela médica, meus amigos dos tempos de Coimbra e de juventude. Debalde! Afinal a procura não foi em vão pois deixei rasto que permitiu ao Josué contactar-me pouco depois. Trocámos nºs de télélé e endereços de e-mail e certamente vamos reforçar os laços de amizade algo frouxos devido à passagem dos anos. Em Sines passei a primeira noite e convivi com o meu primo Orlando, um Monsieur natural de Pombal, senhor de um CV digno de um príncipe das arábias. Depois, S. Torpes, Porto Covo, Pessegueiro, Milfontes, Almograve, Odeceixe, Aljezur e Costa Vicentina abaixo. Devagar, devagarinho lá acabei por vislumbrar o azul do mar do nosso Algarve que, por acaso, até banha as melhores e mais belas praias do mundo. Demorei dois dias e meio para chegar a Lagues, mas valeu a pena. A minha sede de viagens ficou parcialmente aplacada!
E, aquilo que parecia ser uma primavera precoce e risonha não passou de um engodo. Para quem mordeu o isco o S. Pedro despachou umas caldeiradas de água, o que nem se pode considerar uma surpresa dado que estamos em Março. Mas lá que abrandou a pica da viagem, isso é indiscutível. Tenho aproveitado para descansar e prontos, paraquistou há dias, indeciso entre o ir e o ficar, prosseguir rumo ao país vizinho ou retomar o passeio a partir de Pombal. Darei notícias logo que as tenha. E obrigado a todos pela atenção! 
* Com grande tristeza constatei à chegada que o portão da casa da família ostenta agora dois cartazes dizendo um Vende-se ostentando o outro o nome de uma imobiliária.
** Cidade sem Lei é o único nome pelo qual a localidade é conhecida na região. O que toponimicamente corresponde a Murteira de Baixo, freguesia de Moncarapacho, concelho de Olhão. Traduzido significa "o que resta do paraíso"!
 Ramona carregada, vamos fazer-nos à estrada.
 Duas das 7 netas, a Mariana e a Joana vieram despedir-se do avô. Ah, se elas pudessem também seguir viagem ...!
O gesto da Joana ( V ) é sinal de bom augúrio! O Avô vai ser bem sucedido nesta viagem.
Quem vai ao mar, aparelha-se em terra1 Primeiro vamos ao almoço no meu restaurante de todos os dias.
 Chegada a Sines junto ao monumento ao bombeiro.
 Muralha do castelo de Sines e...
 ... um cantinho da cidade.
 Em Sines com o primo Orlando. 
 Uma imagem do litoral do parque natural de Porto Covo.
 Porto Covo: parque natural.
Estrada ao longo da costa alentejana.
 Uma praia de Porto Covo.
 Paisagem alentejana.
Ilha do Pessegueiro e ... 
 ... respectivo forte.  Daqui em diante ...
 ... são quilómetros e quilómetros de dunas, areal e reais atascansos.
O Amândio, pequeno café-restaurante em Ribeira da Azenha onde alguns atascados chegam pedindo socorro. 
 Porto da Barcas em Milfontes.
 Estuário do rio Mira. 
 Forte de S; Caetano em Milfontes.
Um cantinho da Vila.  
Aldeamento de Almograve.  
 Praia de Almograve,
 Uma vista da rua principal de Aljezur.
 Pelas serranias de Monchique. 
 Barragem da Bravura.
 No centro de Odiáxere. 
Chegada aos meus domínios na Cidade sem Lei.
 As dua instituições mais importantes da Cidade sem Lei: O grupo Motard e o snack bar "o conquistador".
A Fernanda e ...
 ... o João.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

125 - Paris.

Em Paris chez Davide.

Paris, a minha cidade, morada da juventude que não tive. Das promessas do Maio de 68 que o acaso permitiu que aqui vivesse em pleno, da utopia a rodos e das improváveis revoluções. Foi o tempo da proclamação do amor livre, do LSD e da erva para todos. Quanta ingenuidade, quanto idealismo! Para mim foi também o tempo de conhecer ainda que ao de leve, Sartre e o seu amigo e colega Camus. Ou figuras tão marcantes como a do general de Gaulle. Gainsbourg, Brigitte, Truffaut e Goddard bem como o nome de uma coorte de cantores ditos de intervenção passaram a fazer parte do meu léxico. A minha memória auditiva conserva até hoje o timbre das vozes maviosas da Francoise e da Sylvie, ou  as portentosas de Mireille e Bécaud. Quem não se recorda desta bela canção na voz de Bécaud “et maitenant…http://youtu.be/hmSBAJdie7E”?
Paris foi também o tempo das despedidas sofridas, da convocação para a guerra do ultramar e de tudo o que eu lá passei. Paris, das viagens a salto e do salto para a vida real, para a busca da profissão e assunção de responsabilidades familiares. Foram tantos e tão intensos os momentos que aqui vivi que eles valem por quase toda uma vida. Por isso, revisitar esta cidade é revivê-la embora noutro tempo. Conheço de cor os seus principais monumentos, praças e até as ruas escuras. Conheço de cor o cheiro do seu Metro, os pardais de Nôtre Dame, as águas do rio Sena e suas pontes. Eu sou um bocadinho de Paris, Paris pertence-me um bocadinho. Como sabe sempre tão bem voltar!
Cheguei de Bruxelas pela Gare du Nord, fui a Saint Lazare e tomei o RER para Le Rancy Villemomble onde mora  o Davide Barros, o amigo francês de Fonte da Gota - Abiul. Meu companheiro de outras viagens, sofre tal como eu da mesma inquietude congénita. Depois … foi a desbunda durante um fim de semana inteiro que também serviu para fazer o esboço dos planos para a próxima viagem rumo a ... África!
O regresso:
Nunca apurei  o "saldo" de uma viagem e não o farei desta. Quedo-me com o sentimento de que foi muito positivo e encorajador vis à vis de outras experiências do género. Vou chegar cansado e a precisar de férias. Mas não é para isso mesmo que se fazem viagens? Sei que não tardará e estarei às voltas com mapas geográficos, o rol das companhias aéreas, horários de ferries ou autocarros internacionais...! É destes nadas que se compõe grande parte da vida dos adoram viajar.

 Paris, Gare du Nord.
 Montparnasse la bienvenue.
 

 Uma das conhecidas torres de Montparnasse.
 E as não menos conhecidas Galeries Lafayette
 Os relógios de Saint Lazare.
 E a estação.
 Davide Barros.
 Chez Davide em Le Rancy.
 

 Com o Davide, a esposa e retante família
 

 Com a mão na massa está Maria a mulher do Davide. Corine, a espanhola mulher de Caím abraça Nicholas, filho de Davide.
 

 Ementa para o almoço: Costeletas de novilho grelhadas.
 Caím, francês de Quiaios, grande caçador, homem de aventuras e de amizades rápidas e especialista em grelhados!
 

 À la table!
 A "bichinha" que puxou o meu TGV de paris até Hendaye.
Em Irun, na fronteira franco-espanhola.

Amigos, até breve.