quinta-feira, 22 de outubro de 2009

44 - Shorts, bermudas, calças ou calções?

.

Imagem: kimrichter.com

Foto de: oglobo.globo.com

Dicas aos viajantes.
Reporte ao post nº 9 de 28/08/2009
.
Ao assistir aos telejornais de hoje, notei com pesar o relevo dado aos últimos desenvolvimentos sobre guerra civil em curso nalgumas favelas do Rio de Janeiro. Muitos mortos e, estranhamente, parece não haver feridos ou presos! Dir-se-ia que as autoridades fazem o seu papel que basicamente, consiste em limpar as favelas e infundir o sentimento de segurança à população. Qualquer pessoa, a começar pelos próprios cariocas, aplaudirá todas as medidas visando a tranquilidade das pessoas e salvaguarda dos seus bens. Neste ponto estaremos todos de acordo, por maioria de razão aqueles que já foram vítimas de assalto, sequestro, intimidação ou outra forma qualquer de crime violento, e no Brasil eles são-no com muita frequência. A questão está no modo como o fazem.
É difícil aceitar que os responsáveis políticos, militares e policiais relacionem a onda de violência com ordens de serviço emitidas por comandos que se encontram engaiolados numa prisão de alta segurança no estado do Paraná. Enquanto os (pequenos) operacionais do crime vão sendo eliminados pela tropa e pela polícia, os seus chefes parecem ter mão livre para continuar a recrutar e dirigir o narcotráfico a partir da prisão.
Não estamos a falar de marginais munidos de sofrível escupeta, faca de mato ou seringa com sangue de galinha. Trata-se de pessoal aparentemente com formação militar, apto a manusear armamento sofisticado a ponto de derrubar helicópteros, capaz de se bater, taco a taco, com a força armada do Estado. Uma organização desta natureza exige uma logística pesada. Definir a hierarquia na cadeia de comando, operacionalizar uma rede de comunicações, garantir o remuniciamento, tomar decisões quanto à disposição no terreno e estratégias de combate, não são pêra doce nem mesmo para profissionais.
Como é que tudo isto acontece à luz do dia no país mais poderoso do continente sul-americano?
A conclusão só pode ser uma; embora com algumas perdas na infantaria, os barões estão a ganhar a guerra porque o seu poder estende-se muito para além do limitado espaço das respectivas celas. Nalgum ponto têm que existir "complacências" a alto nível. Não falo em promiscuidades entre poderes porque não sou investigador, não tenho provas e como tal, não tenho o direito de apontar o dedo a ninguém. Mas que a bota não bate com a perdigota, parece-me evidente.
Além disso, o que me importa é poder continuar a viajar pelo mais belo país do Mundo, como tenho feito, de Amapá até Pelotas. Sempre na maior tranquilidade e segurança entre o mar e a montanha, da selva amazónica à selva urbana. Conheci várias favelas e tudo o que encontrei foi gente boa, trabalhadora, preocupada em encher a barriga aos filhos e mandá-los para a escola. Não me senti mais inseguro do que em alguns bairros suburbanos do nosso país onde volta e meia se desenrolam batalhas campais e os habitantes mais antigos e pacatos se vêm forçados ao confinamento do lar ou ir morar para outro local. Ao invés, os habitantes das favelas amam o seu sítio e o espírito de comunidade que tão bem sabem cultivar. Nunca fui vítima nem sequer testemunha de qualquer acto de violência. Antes pelo contrário, os brasileiros são particularmente cordiais e atenciosos para com os portugueses. Meio a brincar, já me disseram que americano, inglês, francês … é tudo gringalhada, mas “português é dá família, rapais!”.
Todos, e não apenas o Saramago, sabemos que onde existirem dois homens, há probabilidade de sangue derramado, violência física e psicológica, inveja, cobiça e consequente apropriação de bens alheios. O viajante tem que ter em conta esta herança humana de modo a saber comportar-se em meio estranho, potencialmente hostil, culturalmente diferente do seu.
Em algumas partes por onde tenho andado, verifico amiudadamente que nem sequer há o mínimo respeito pela miséria e sofrimento dos povos anfitriões. Manifestações ostensivas de riqueza perante seres humanos que esgravatam o alimento no chão ou em lixeiras, não são apenas um insulto mas também um perigoso incentivo a qualquer forma de agressão.
Quem não presenciou a petulância de certos bandos de galhardos turistas, carregados de anéis, relógios e outras jóias de elevado valor, passeando-se entre pobres e famintos como se estivessem de visita à quinta?
Ao meu amigo visitante com tarimba nas viagens, nada tenho a ensinar. Aos outros, peço licença para sugerir o seguinte:
Não ofendas os indígenas com a tua abastança. Veste-te com simplicidade, come com frugalidade. Enfia o chinelo e o calção se fores à praia, atavia-te como toda a gente para ires ao restaurante, às compras ou assistir a um espectáculo. Na rua, cumprimenta as pessoas com quem cruzas, em particular os vendedores ambulantes que se dirigirem a ti. Oferece-lhes um aceno ou um sorriso e pede "por favor" sempre que precisares de alguma informação.
Respeita as instituições e autoridades ainda que te pareça que a sua formação fica abaixo do desejável. Esforça-te por aprender algumas palavras ou frases da língua local, e se estás com alguém da tua nacionalidade, evita falar em tom agressivo ou muito alto; ninguém precisa saber que és forasteiro e assim evitarás um mau encontro na esquina seguinte. Não abuses da câmera de filmar, guarda-a no bolso e se quiseres colher imagens, repara primeiro se existe algum dístico a proibi-lo. Se fizeres close-ups de pessoas em mercados, praças ou jardins, pede-lhes autorização e não esqueças que em quase todo o mundo é proibido filmar aeroportos, edifícios governamentais tais como esquadras de polícia, quartéis da tropa e tudo aquilo cujo recato o bom senso nos diz que devemos respeitar.
Quanto às jóias, o melhor é deixá-las em casa. E, por favor, se pertences a essa tribo de gente loura, perna esbranquiçada e à vista, sandália ou sapatão nº 45, casquette de tenista e sinais exteriores de riqueza, tem cuidado. Para todos os efeitos é como se fosses portador de um pirilampo a dizer … assalta-me … assalta-me!
Respeita sempre esta máxima de ouro:
Em Roma, faz-te romano!

Sem comentários:

Enviar um comentário